13 novembro 2009

entre dois sorrisos, uma declaração de amor


...Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros subia da base até à cúspide, desenhando uma colmeia tecida de túneis, escadarias, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma gigantesca biblioteca de geometria impossível. Olhei para o meu pai, boquiaberto. Ele sorriu, piscando-me o olho.
- Bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel.
Salpicando os corredores e plataformas da biblioteca, perfilavam-se uma dúzia de figuras. Algumas delas voltaram-se para cumprimentar de longe, e reconheci os rostos de diversos colegas de meu pai do grémio de alfarrabistas. Aos meus olhos de dez ano, aqueles indivíduos afiguravam-se uma confraria secreta de alquimistas a conspirar nas costas do mundo. O meu pai ajoelhou-se ao pé de mim e, sustendo-me o olhar, falou-me com aquela voz leve das promessas e das confidências.
- Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte.(...) Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui.(...) Na loja nós compramo-los e vendemo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós, Daniel. Achas que vais poder guardar este segredo?
O meu olhar perdeu-se na imensidade daquele lugar, na sua luz encantada. Fiz um sinal de assentimento e o meu pai sorriu.

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote, 2008
Foto: Trinity College Old Library, Dublin


A Sombra do Vento é um livro maravilhoso. Uma fantástica narrativa sobre livros, o encanto mágico que têm e nos trazem. No excerto, destaco a maravilha que é ser-se levado a amar os livros desde que se começa a olhar o mundo e os homens.
A leitura transforma-nos porque nos ensina e acrescenta.

2 comentários:

Austeriana disse...

Não conheço o autor mas este texto, além de ser muito bonito, concretiza de forma certeira o valor do livro. Recordou-me aquela afirmação de Paul Auster de que o livro é o único lugar onde dois estranhos (autor e leitor) se conhecem de forma íntima.
Belo post. Parabéns.

clara disse...

Sim, o livro continua a ser o meu cúmplice, temos uma relação fiel, duradoura e compartilhamos o sofá, a cama, a esplanada, o comboio, o café.