07 novembro 2009

Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação



Pede-se à escola que faça o que é do domínio da casa. Da família. Devia-se pedir-lhe que ensinasse, e bem, apenas. O resto já lá deveria estar quando as crianças chegassem ao portão de entrada. A escola é (foi sempre e será) um espaço formal. E quem não aprende, antes de chegar à escola, que há regras e disciplina próprias desse espaço, não terá, nunca, uma relação gratificante com ela, com os professores, com os seus agentes. Não terá memória de ter aprendido coisas que, só à escola devem ser pedidas. Que só ela pode dar ( um exemplo apenas, entre outros, é o da oportunidade de leituras que os alunos nunca fariam fora da escola). Independentemente de toda a facilidade com que hoje se tem acesso à informação. Estou a distinguir informação de conhecimento, de saber ou saberes. Falo da integração do que se lê, do que se escreve, do que se inventa, do que se discute, em cada um dos alunos. Falo de auto-sócio-construção. Diferente da que se faz (ou devia fazer) em casa.

Veio este post a propósito de um excerto de um livro interessantíssimo, diria irrecusável, onde George Steiner e Cécile Ladjali (professora de francês em escolas suburbanas e multiétnicas da grande Paris, onde, em geral, ninguém deseja ser colocado) dialogam sobre educação, escola e literatura.
Transcrevo apenas um parágrafo dos que, quanto a mim, mais instiga à reflexão:

«George Steiner: Paciência, hesitação, lentidão. Ouça, foi Pascal que, como sempre, disse tudo: 'Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação.' E é terrivelmente difícil.»

Elogio da Transmissão: O Professor e o Aluno, George Steiner e Cécile Ladjali, Lisboa: Dom Quixote, 2005.

8 comentários:

Paulo disse...

Não posso estar mais de acordo. Os valores que estruturam a maioria dos núcleos familiares e que depois, naturalmente, são a cultura social, sublinham o "ter" em relção ao "ser". E é um "ter" a qualquer preço, sem olhar a quaisquer valores sólidos. Como é isto que "vende", é em torno disto que se transmitem causas pelas TV's, rádios e jornais, portanto é isto, para muitos jovens, o que estrutura como seres sociais. A escola é vista, geralmente, como um espaço hostil e este sentimento não é contrariado socialmente (nem na família), porque para a suposta "ascensão" social, o saber, o esforço, o trabalho e o mérito são desprezíveis (veja-se as trajectórias de "sucesso" dos modelos que os jovens têm).Por isso, cada vez mais, a escola é sentida, por quem lá tem de ir, como um sítio de passagem que deve apenas ser tolerado e pelas famílias como um depósito de miúdos, enquanto cada um trata da vida.

Austeriana disse...

Está instalada a cultura do «dinheiro fácil+celebridade fácil».
Basta fazermos "zapping" pelos diversos canais de televisão para vermos uma série de miúdos a fazer figura de parvos para conseguirem uns segundos de TV: o programa «Ídolos»; uma coisa que vi há pouco na TVI com a Júlia Pinheiro e uns miuditos; os símiles de «Big Brother»; as telenovelas completamente idiotas com gente que nada sabe da arte da representação; etc.`
Acaba por ser "natural" que os miúdos encarem a escola como algo que nada de interessante lhes ensina: não lhes dá fama, nem dinheiro imediatos; e pede-lhes (já nem exige) cumprimento de regras que, na maior parte das vezes, não têm em casa.
A escola e os professores são os alvos mais fáceis para pais e miúdos deslumbrados com a sociedade de consumo.
Quantos não têm dinheiro para comer mas usam ténis de marca e telemóvel topo de gama?
O Steiner (Pascal)tem toda a razão: quem sabe estar consigo próprio, aprendeu a atribuir valor às condições que permitem pensar e, neste sentido, saberá estar com os outros.
A propósito, Steiner vai estar em Viseu, de 23 a 25 de Novembro, a participar numa conferência do Piaget!:)
Abraço.

C. disse...

Austeriana,

mais grave ainda é o comportamento das próprias famílias que se "descabelam" para que o "júnior" apareça na TV. Aqui há tempos num desses programas que recruta futuros cantores, uma mãe agarrada ao filho preterido só lhe dizia (ao rapagão que tinha o dobro dela e chorava que nem um condenado) "deixa lá que a mãe sabe o que vales e se não for aqui há-de ser noutro lado qualquer".

Deixou de haver a cultura do esforço e do mérito. Hoje tudo tem de ser espectáculo e fama. E ruído.

E o Steiner... pois, como já disse no seu post, acho que vou ter de me contentar com os livros dele. É pena que conferências como esta não sejam acreditadas para todos os que se dedicam à educação. Espero que o Inst. Piaget divulgue as actas da conferência. Já não era perder tudo.

Beijinho

marteodora disse...

Meus caros,
de cada vez que o meu filho me pergunta por que razão tenho de trabalhar (ele tem 5 anos), respondo-lhe que trabalhar é bom. E porquê? Porque é do trabalho que vem o dinheiro para ir de férias, para comprar roupa, livros, comida, para ter casa, etc., etc., etc.,
Nunca lhe digo "que chatice, vou trabalhar" (embora, com sinceridade, tenha vontade disso, porque tenho realmente mais vontade de ficar com ele do que ir trabalhar). De cada vez que regresso à faculdade, ele sabe-o. Sabe que tenho trabalhos os quais devo terminar e que, para tal, tenho de contar com a ajuda dele.
E, este filho de 5 anos, tem alguma dificuldade em estar parado, em estar sossegado, em estar calado 2 minutos...e, cá em casa sabemos, temos muito trabalho pela frente. Até porque a entrada na escola primária é já daqui a um ano. E, se no meu tempo de criança estas questões nem se punham, fazê-lo ficar sentado, 4 horas, não vai ser fácil.

C. disse...

Marteodora,

Agradeço imenso o comentário que fez, sobretudo porque é sustentado na sua experiência pessoal, que ousou partilhar. Obrigada mesmo.

Penso que compreendo a questão que coloca, já que o seu filho é uma criança cheia de energia e curiosidade. O que é óptimo; e se esse potencial for bem canalizado (como, de resto, parece ser preocupação sua) isso constituirá uma mais valia para a vida.
Nunca lamente o tempo em que (mesmo cheia de cansaço e com pouca paciência) estiver a explicar a esse menino as coisas que ele quer saber.

Quanto à escola do próximo ano, não receie. Qualquer professor irá adorar um petiz que faz perguntas e que mostra interesse em fazer coisas. E é SÓ daqui a um ano...
:-))

Parabéns pela coragem de ser uma mãe atenta. Isso ele não vai esquecer nunca.

Zoninho disse...

totalmente de acordo! cheira-me que houve aqui outros motivos mais além dos literários e filosóficos... mas, pronto, o importante é não aceitar que nos transformemos no que não somos. e obrigado pela dica do livro irrecusável!

abraço

PAS[Ç]SOS disse...

Vivem as famílias numa época em que se torna mais fácil descartar de responsabilidades. Evocam-se os ritmos frenéticos para se evitar o dever de educar. Assume-se como mais uma tarefa que os outros têm de cumprir. Quando os problemas surgem o problema nasce sempre em terceiros. Por outro lado os jovens sucumbem à tentação do sucesso imediato. Não se apercebem da necessidade de estruturar um caminho e, lamentavelmente, são muitas vezes 'apoiados' pelos pais nessa ilusão que a sociedade lhes proporciona. Aliás, em muitos casos, nem chegam a traçar objectivos. Vivem num eterno 'depois logo se verá'. Tudo isto quando o futuro oferece menos segurança, maior necessidade de existirem personalidades consolidadas e sobretudo preparadas para o insucesso. Sim porque o futuro que se adivinha é de insegurança. E o que hoje é o topo do mundo, amanhã estará soterrado como a maior hipocrisia alguma vez existente. E todos nós, mas sobretudo os nossos filhos, precisam de estar alerta para a necessidade de se superarem diariamente nas suas capacidades, nas suas aptidões, nas suas metas.

Ana Paula Sena disse...

Excelente citação de Steiner, uma mente brilhante e de uma cultura admirável.

A questão não é fácil, como sabemos. Lido com ela todos os dias. Como profissional e como mãe.
Esta cultura actual, a da facilidade, está a tornar-se perniciosa. Se o avanço tecnológico nos trouxe o conforto e o aumento da esperança média de vida, não foi capaz de fazer a sociedade crescer do ponto de vista cívico. Inverter este processo vai ser difícil, mas talvez não impossível. Devagar, o vazio e a insuficiência desta forma de estar acordarão as consciências.
Um dos meus pequenos contributos passa por relembrar a necessidade de adoptar uma postura correcta, "sentados numa cadeira, a escrever e a pensar (?)". Tenho tido algum sucesso, mas esta espécie de boa esperança tem dias "negros", confesso.
Há que lutar. Mas a ajuda tem que vir de todos os lados, sendo a família fundamental.

Obrigada pela reflexão, C. :)
Um abraço.