28 novembro 2009

"infância é um antigamente que sempre volta"*



- Podemos ficar já aqui, não? - ela.
- Não, aqui não podemos, tia... Vamos lá mais para o pé da rotunda.
- Mas não podemos ficar aqui, nesta praia tão "verzul"? - ela sorriu para mim.
- Não, tia, aqui não se pode. Esta tão praia verzul é dos soviéticos.
- Dos soviéticos?! Esta praia é dos angolanos!
- Sim, não foi isso que eu quis dizer...É que só os soviéticos é que podem tomar banho nessa praia. Vês aqueles militares ali nas pontas?
- Vejo sim...
- Eles estão a guardar a praia enquanto outros soviéticos estão lá a tomar banho. Não vale a pena ir lá que eles são muito maldispostos.
- Mas porquê que essa praia é dos soviéticos?- agora sim, ela estava mesmo espantada.
- Não sei, não sei mesmo. Se calhar nós também devíamos ter uma praia só de angolanos lá na União Soviética...


Ondjaki, Bom dia Camaradas, Ed.Caminho, 2001


A infância em Luanda nos anos 80, um tempo de incerteza e muitos perigos, vistos pelo olhar mágico de uma criança.
Uma narrativa assumidamente autobiográfica, que vale também como um relato histórico de um tempo que fundou a Angola de hoje.

*Ondjaki, na apresentação do livro

9 comentários:

CNS disse...

A memória dorme connosco

marteodora disse...

Adoro o Ondjaki, um dos meus autores preferidos de literatura infantil. Tenho de conhecer melhor a sua obra para adultos (se bem que a literatura infantil deveria ser de leitura obrigatória também para adultos!).

Austeriana disse...

Verdadeiríssimo.

Marta disse...

muito bom, Paulo. e a imagem fabulosa.

...um caminho que aprendi aqui.

obrigada mais uma vez.

beijinhos

Paulo disse...

CNS, carregamos connosco os cheiros, as pessoas e os momentos do nosso "antigamente". Isso é muito do que somos também.
marteodora, concordo e acho artificial a distinção entre literatura infantil e adulta (ou feminina e masculina ou...) como na música, há a boa e ...a outra.
Ondjaki é, definitivamente, boa literatura.
Austeriana, obrigado, e é o mais difícil... ser verdadeiro.
Marta, olá, eu é que agradeço. Ondjaki é um vício excelente (como a maioria):):)

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

Tenho de ler Ondjaki, mas talvez já não o faça num dia versul , mas sim num dia de nevoeiro como os que fazem cá por Lisboa .
Perto de uma janela seria ideal !
Abraço
_____ JRMARTo

clara disse...

Ainda não li, deve ser bom, mas não me debrucei.
A imagem é elucidativa, o contexto é o que tínhamos, ou temos.
As lutas e o mundo que, às vezes, parece que anda ao contrário.
Continua atento, Paulo.

C. disse...

Como já disse ao José Marto, sobre um belíssimo poema que ele deixou no "Va Andando", temos geralmente a tentação de mitificar esse tempo da infância. Porque o olhar só é mágico enquando a vivemos. E é esse olhar que tivemos, o que gostaríamos de recuperar, uma vez ou outra. Impossível, claro está. Daí a infância ser, quase sempre, fonte de nostalgia.

Ana Paula Sena disse...

Olá, Paulo

Eu ainda não li o livro. Mas a imagem tocou-me profundamente. Passei a minha infância em Angola, ainda que nos anos 70. A Angola dos 80 já me escapa um pouco, mas a nostalgia permanece...

Um abraço