28 março 2009

Ideias

(R. Misrach)
97- O normal é termos em nós um molde para as ideias que recebemos. As ideias têm a sua conformação, nós temos a nossa. Se uma ideia nos atinge, é porque coube no nosso molde. Se não, arrumamo-la na prateleira de nós, onde ganha bolor. Se todavia alguma vez a utilizarmos há que acomodá-la ao que somos. Entre o molde que é nosso e o que é das ideias, se algum se pode ajeitar, é o delas. Assim as amolgamos para caberem, lhes damos uma forma que não é a sua para serem o que são. Mas isso tem limites, mesmo que elas fossem de lama. Os que, no entanto, não têm moldes nas suas possibilidades receptivas, engolem tudo. Não têm molde, têm um estômago forte ou um armazém de merceeiro. As compras não são neles funcionais ou são moeda de compra e venda como os lápis e borrachas dos miúdos da escola. Não se transacciona uma ideia como não se transacciona a nossa pessoa. Mas há quem não seja pessoa.
Virgilio Ferreira, in Pensar

3 comentários:

Anónimo disse...

Eduardo Luciano - O rótulo
12-mar-2009
A propósito da indicação de Vital Moreira para encabeçar a lista do PS às próximas eleições para o Parlamento Europeu, tudo o que é comentador encartado ou “detective” político se encarregou de escrever sobre o percurso de vida da personagem. Tendo sido abordado pelos mais variados prismas, o traço comum a quase todas essas peças era o realçar a sua condição de ex-comunista. Eminente jurista, brilhante professor, cronista prolixo, advogado de defesa deste PS que ocupa o poder, tudo isso foi obliterado pelo facto de ter sido militante do Partido Comunista Português. Alguns mais afoitos entretiveram-se a olhar para os cabeças de lista dos outros partidos e lá colocaram no Miguel Portas o rótulo de ex-comunista, acima de qualquer outra qualidade, virtude ou defeito. A força e a vitalidade do PCP são de tal ordem que quem por lá passou, nem que fosse de raspão, fica para o resto da vida com o epíteto de ex-comunista. É algo que se cola à pele e que não sai com juras de arrependimento ou actos de contrição.
Os ex-comunistas são quase sempre apresentados como heróis que descobriram a luz e se libertaram das trevas e atirados para lugares cimeiros dos velhos partidos a que aderiram de novo. Mas uma coisa parece ser certa: passadas décadas sobre a sua saída do PCP continua a ser a sua passagem pela militância comunista o facto mais relevante das suas vidas políticas. Não deixa de ser curioso o facto do prefixo “ex” não ser usado em mais nenhuma mudança de filiação partidária. Ninguém se lembraria de dizer que Sócrates é ex-PSD, porque começou a sua carreira política na organização de juventude daquele partido, ou que Roseta é ex-PSD e ex-PS, ou que Freitas do Amaral é ex-CDS. Estou convencido de que os próprios “ex-comunistas” não se conseguem imaginar despojados desse rótulo, tal as marcas que a riqueza da intensa vida partidária, das aprendizagens que só o generoso trabalho colectivo pode proporcionar, lhes imprimiram por debaixo da pele. Há uns tempos, em conversa com um ex-comunista, verifiquei um facto curioso. Ao fim de algum tempo de diálogo o meu interlocutor falava de forma muito crítica da organização política a que tinha pertencido usando sempre o termo “o Partido”, enquanto que se referia à sua actual família política como “o PS”. Parece-me que muitas destas figuras, quando batem a uma qualquer porta, respondem à pergunta “quem é” como se tivessem ouvido “quem foi”. Ser ex-comunista é um estatuto que, pelos vistos, aumenta em muito a possibilidade de ser escolhido para um qualquer lugar cimeiro. Eu diria que essa condição funciona como um certificado de qualidade (a formação é uma vantagem competitiva) que o candidato pode sempre apresentar. Deve ser por isso que se o PSD apresentar a Zita Seabra e o CDS a Celeste Cardona, teremos uma comunista e quatro ex-comunistas a disputarem as eleições europeias como primeiras figuras das suas listas. Se isso acontecer deixo-vos um conselho: escolham a que não tem prefixo. A garantia de qualidade aumenta exponencialmente.

clara disse...

Um ex-comunista que se preze não vai para partido nenhum.
Há mais vida para além dos partidos.
O caso da Zita Seabra é obsceno.Ela é o que sempre foi-ambiciosa, estalinista e inulta. Safou-se porque tem pais ricos e um marido bem colocado.
Acabem com isso. Fechem a loja, dêm as reformas aos velhos militantes e vão para casa.
Não há pachorra para os aturar. O mundo mudou e nós nem gostamos muito da Sibéria.
Cumprimentos.

Paulo disse...

E.Luciano, o seu post merece-me algumas observações, necessáriamente superficiais. Desde logo quanto à forma, toda ela assente na ideia (peregrina) de que existe uma "superioridade moral dos comunistas". A vida encarregou-se de mostrar exaustivamente a absoluta falência desta tese. Os comunistas são homens e mulheres como todos. É certo, e entro já na substância do seu post, que houve circunstâncias históricas em que nos Partidos Comunistas estiveram os melhores, os mais abnegados, os mais sérios e os que colocavam o interesse do colectivo em primeiro lugar (dizia-se na altura que ali estariam os melhores filhos e filhas do povo...). Só que a vida é dinâmica, como vc concordará, e veio trazer novas circunstâncias em que, o que dantes era dogma, deixou de sê-lo. O desmoronar do "socialismo real" assim o mostrou (se necessário fosse) e trouxe à tona o que de pior pode ser feito pelo Poder e aí foram os comunistas que o fizeram. Como já durante o estalinismo se sabia que o Poder Comunista tinha sacrificado barbaramente (aos superiores interesses...) milhares de dedicados revolucionários e muita gente anónima. Ou seja, de repente, militar num Partido Comunista não é sinónimo de se ser boa pessoa. Como em qualquer outra instituição semelhante (de igrejas a clubes de futebol).Não se fica ungido de nenhum dom por se ser militante. Há de tudo, como se costuma dizer... Na história caseira, sugiro-lhe que leia um post que escrevi em 2/3. Houve muitos e muitos jovens portugueses que só conheceram "O Partido". Nele se formaram como homens e mulheres, nele sonharam, nele se construiram... e dele, dos seus métodos e da sua ideologia se desiludiram. Serenamente, sem quererem saltar para outro, ou outro. Ficaram só desiludidos e seguiram outros caminhos. Mas sem raiva nenhuma,sem sentirem desconsideração nenhuma por quem continua militando. Hoje votem onde votarem (ou mesmo sem votar) são gente de valor, gente séria. Fazem, seguramente, uma vida de cidadãos assente nos valores pessoais que os ligavam ao Partido. Só que não se sentem superiores, nem moral, nem ética, nem politicamente.