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12 outubro 2010

Palavras


Um bando de palavras agrediu-me.
Primeiro, de soslaio, temerosas, ao de leve.
Depois, aos safanões, bruscamente.
Seguiu-se o rodopio de bofetadas, o caos, o desesperante muro de silêncio partilhado.
Atordoada, infeliz, miserável, as mãos na cabeça, a tentar defender-me das bicadas dos rês e dos vês, a torturante veemência dos tês, a sibilância dos sês, a vulgaridade de um mê ou a secura final do nê de Não.
Despojada, envolta em farrapos de mim, jazia, inerte. As dores atormentavam-me  frases por dizer.
Finalmente o silêncio na planura.
O bando de palavras dispersou, extenuado. Algumas ficaram suspensas nas árvores, outras caíram ao rio e afogaram-se.

Deste lado, do silêncio, sairão borboletas azuis pinceladas a ouro.

17 julho 2010

Nova Geração: Peregrinos de Festivais


A nova geração tem necessidade de comunhão, de partilha, de êxtase, como sempre aconteceu.
A nova religião constrói-se, não nas igrejas, como antigamente, mas em torno dos festivais de verão.
E vão em romaria. Mochilas às costas, ténis ou sandálias nos pés, umas gangas esfarrapadas e umas t-shirts sugestivas e eloquentes. Às vezes, os mais devotos chegam às pinturas faciais, lenços na cabeça e gorros internacionais.
Tribalismo? Julgo que não, tribalismo é no futebol, com gritos de guerra e exércitos ferozes.
Nos festivais é partilha, companheirismo, fé, sacrifício, esperança. Ritualismo sazonal e festivo, como recompensa das agruras , como prece: face aos deuses tão inacessíveis, em cima do palco, deuses pagãos e plurais, envoltos em fumo e luzes, eles comungam, imploram, choram, aplaudem.
E voltarão, no ano seguinte, como promessa, como procura do lugar inicial e fantástico.

22 junho 2010

Austeridade, a nossa e a deles

A austeridade tem as costas quentes. Serve para desviar a atenção de propostas divertidas, mas vesgas, como a eliminação dos feriados do 5 de Outubro ou do Dia de Todos os Santos. Existe para que ninguém repare na notícia jocosa que circula pela CGD: que Mário Lino vai para lá para presidente do Conselho Fiscal das companhias de seguros. Expliquem só, por favor, como é que alguém um dia pode ser competente para administrar a Cimpor, no outro dia a REN e finalmente vá como fiscalista para o universo do banco do Estado? A austeridade funciona para que ninguém repare que se fecham centenas de escolas no interior do País. A austeridade é a máscara que comprámos para que o Carnaval seja todo o ano. Em nome dela podem continuar a multiplicar-se os dislates, a insistir-se nos mesmos erros, a confundir os portugueses com cortes que afectam apenas quem não pode ou não deseja fugir à lei. Mesmo com austeridade, Portugal continua a engordar para os lados. Já se sabe para que vai servir esta austeridade: para que, quando as contas estiverem minimamente equilibradas, regresse o regabofe sem pudor. Porque, entretanto, ele vai continuar dentro do princípio de vícios privados e públicas virtudes. A história de Portugal, neste aspecto, é tão previsível como uma fotocópia. Como é que se pode levar a sério a austeridade e os sacrifícios pedidos aos portugueses se a elite oficial deste sítio se continua a comportar assim? A crise não ensinou nada a esta gente que se julga a viver no último andar do Empire State Building. Está. Até um dia cair.

Fernando Sobral , Jornal de Negócios
Foto Google

01 junho 2010

Este ganhou a guerra?


Com o que se passa na Europa, no nosso pequeno país, na Inglaterra,Irlanda, em França, Espanha, Grécia,Itália,,Países Baixos, com a Alemanha a liderar e a não assumir os pressupostos de uma União, eu, modestamente, gostaria que alguém me dissesse:
ESTE GANHOU A GUERRA?
Era só isso.
Abraço.  

12 maio 2010

Sobre difícil compreensão da (i)realidade


Todos nós começamos pelo "realismo ingénuo", isto é, a doutrina de que as coisas são o que parecem. Pensamos que a erva é verde, que as pedras são duras e que a neve é fria. Mas a física assegura-nos que a verdura da erva, a dureza das pedras e a frieza da neve não são a verdura da erva, a dureza das pedras e a frieza da neve que conhecemos  pela nossa experiência, mas algo de muito diferente.

Bertrand Russell, An Inquiry into Meaning and Truth
Foto: Microcosm,   Miao Xiaochun

10 abril 2010

O Duplo


Sugerido ou estimulado pelos espelhos, as águas e os irmãos gémeos, o conceito do Duplo é comum a muitas nações. É verosímil supor que sentenças como "um amigo é um outro eu" de Pitágoras ou o "Conhece-te a ti mesmo" platónico se inspiraram nele. Na Alemanha chamam-lhe o Doppelgunger, na Escócia o Fetch, porque vem buscar os homens (fetch) para os levar à morte. Encontrar-se consigo mesmo é, portanto, ignominioso (...). Para os judeus, em contrapartida, o aparecimento do Duplo não era presságio de uma morte próxima. Era a certeza de ter encontrado o estado profético...

Jorge Luis Borges, O Livro dos Seres Imaginários