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22 setembro 2010

Uma "crise planetária da educação"?

 

«Atravessamos actualmente uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo da crise económica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais prejudicial para o futuro da democracia: a crise planetária da educação.

Estão a produzir-se profundas alterações naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhe aferimos o alcance. Ávidos de sucesso económico, os países e os seus sistemas educativos renunciam imprudentemente a competências que são indispensáveis à sobrevivência das democracias. Se esta tendência persistir, em breve vão produzir-se pelo mundo inteiro gerações de máquinas úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados, capazes de pensar por si próprios, de pôr em causa a tradição e de compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros.

De que alterações estamos a falar? As Humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino primário e secundário como na universidade, em quase todos os países do mundo. Consideradas, pelos políticos, acessórios inúteis, numa época em que os países têm de desfazer-se do supérfluo para continuarem a ser competitivos no mercado mundial, estas disciplinas desaparecem em grande velocidade dos programas lectivos, mas também do espírito e do coração dos pais e das crianças. Aquilo a que poderíamos chamar os aspectos humanistas da ciência e das ciências sociais está igualmente em retrocesso, preferindo os países o lucro de curto prazo, através de competências úteis e altamente aplicadas, adaptadas a esse objectivo

Martha Nussbaum, in Courrier Internacional, ed. portuguesa – Nº. 175, Setembro de 2010

05 junho 2010

O eduquês como ideologia de incompetentes e oportunistas

Sugiro que usem alguns minutos do vosso tempo e conheçam esta intervenção de Guilherme Valente, um homem invulgar.

Diz que é uma espécie de avaliação ou... são as estatísticas, estúpido!


Pensávamos já ter visto tudo no domínio da destruição da escola pública levada a cabo nos últimos anos pelas cliques instaladas no Ministério da Educação.
A competição a que as novas gerações vão estar sujeitas e que a globalização tornou quase planetária, obrigaria os responsáveis  (se o fossem) à promoção de uma escola exigente, avaliadora do mérito e da competência, premiando o esforço, o trabalho e a dedicação dos estudantes.
A escola exigente será sempre um elemento formador de um jovem. A escola que aceita o laxismo, que desculpa e justifica a trapaça e o golpismo ... também.
Inventar agora uma forma  para que os alunos reprovados, sim - reprovados, no oitavo ano de escolaridade, caso tenham mais de quinze anos, possam autopropor-se a concluir o nono ano sem que o tenham frequentado é um daqueles momentos em que a realidade consegue ultrapassar qualquer ficção.

São evidentes as desigualdades que esta medida vem instaurar - «Aos adolescentes que completarem o 8º ano com sucesso exige-se que transitem para o 9º ano e aos alunos que não obtiveram aproveitamento curricular ao longo do ano lectivo abre-se a possibilidade de, após fazerem as provas nacionais e de equivalência de frequência, saltarem uma etapa e passarem à frente dos outros colegas. "Isso significa que os que trabalharam pior são mais beneficiados dos que os que se esforçaram na avaliação contínua"»

Assim, não vamos, de facto, a lado nenhum. Mas somos os ases das "estatísticas de sucesso".

07 abril 2010

E-s-c-o-l-a... será o quê?


O bom humor é uma forma excelente para falar de coisas sérias.
Mesmo que, por vezes, o ritmo e o jargão dificultem a compreensão do discurso, e tudo pareça muito longínquo e diferente, a paródia serve-nos amargamente, na perfeição, uma ideia de escola. Em mudança vertiginosa.

10 fevereiro 2010

Quadros urbanos

Título: Interacções verbais e o significado pragmático -------- dos enunciados
Série: Quadros urbanos
Técnica mista - 25x20cm
2010

1.  

2.

Há poucos dias, pelo fim da tarde e à saída da escola, no calor da discussão um dos dois jovens vira-se para o colega e dispara, aguerrido:
- Olha lá, mas porque é que estás a falar assim pra mim, pá? Pensas que estás a falar com um professor, ou quê?

 (Desculpem lá.  Sei que a ministra mudou, e parece dialogante. Mas eu tenho andado com pouca imaginação para escrever sobre as moscas.)

07 novembro 2009

Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação



Pede-se à escola que faça o que é do domínio da casa. Da família. Devia-se pedir-lhe que ensinasse, e bem, apenas. O resto já lá deveria estar quando as crianças chegassem ao portão de entrada. A escola é (foi sempre e será) um espaço formal. E quem não aprende, antes de chegar à escola, que há regras e disciplina próprias desse espaço, não terá, nunca, uma relação gratificante com ela, com os professores, com os seus agentes. Não terá memória de ter aprendido coisas que, só à escola devem ser pedidas. Que só ela pode dar ( um exemplo apenas, entre outros, é o da oportunidade de leituras que os alunos nunca fariam fora da escola). Independentemente de toda a facilidade com que hoje se tem acesso à informação. Estou a distinguir informação de conhecimento, de saber ou saberes. Falo da integração do que se lê, do que se escreve, do que se inventa, do que se discute, em cada um dos alunos. Falo de auto-sócio-construção. Diferente da que se faz (ou devia fazer) em casa.

Veio este post a propósito de um excerto de um livro interessantíssimo, diria irrecusável, onde George Steiner e Cécile Ladjali (professora de francês em escolas suburbanas e multiétnicas da grande Paris, onde, em geral, ninguém deseja ser colocado) dialogam sobre educação, escola e literatura.
Transcrevo apenas um parágrafo dos que, quanto a mim, mais instiga à reflexão:

«George Steiner: Paciência, hesitação, lentidão. Ouça, foi Pascal que, como sempre, disse tudo: 'Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação.' E é terrivelmente difícil.»

Elogio da Transmissão: O Professor e o Aluno, George Steiner e Cécile Ladjali, Lisboa: Dom Quixote, 2005.

05 novembro 2009

Rasoiras, rebarbadoras e tiros no pé



O que é preciso é pô-los, a todos, na Universidade!

Em 1997- 98 havia 105941 alunos em formação profissional e em 2007-08  92038, ou seja, contrariamente ao discurso, não houve acréscimo mas diminuição (questão do galopante sufoco das escolas profissionais, substituídas pelos cursos de lápis e papel das escolas públicas); 146.000 licenciados (números da OCDE e Banco Mundial), pagos por nós, emigraram e foram enriquecer outros países, que estamos a financiar; 100 licenciados por mês deixam o país e vão procurar trabalho lá fora; 44700 licenciados trabalham em restaurantes, supermercados ou "call centers", etc, etc. ).

(excerto da comunicação de Santana Castilho no debate promovido ontem pelo Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República.)

Foto: tentativa improvisada de um grupo de alunos para protecção contra a gripe A H1N1. (net)

02 outubro 2009

Resistir ou não resistir... às tentações

Em maré de trabalho, numa busca sobre questões ligadas à falta de resiliência, a formas de negociação, superação de conflitos interiores, etc., deparei-me com isto. Um mimo. Não resisti à tentação de partilhar. Eu, pecadora, me confesso.

10 agosto 2009

Visita de médico



"Chegado a casa do doente, antes de o observar, pergunte se já lá foi o confessor. Se isso não tiver ainda acontecido, faça com que tal suceda ou ele deve prometer de que isso irá acontecer. Um doente que ouve falar dessa necessidade após ser observado pelo médico vai pensar que este desesperou de o curar.
Ao entrar no quarto do doente, não se deve apresentar nem exuberante nem contido. Deve cumprimentar os que se levantam à sua chegada e sentar-se junto ao doente.
Virando-se para o doente, deve perguntar-lhe como vai, segurando-lhe delicadamente no braço. A princípio pode haver diferenças de pulsação. A do doente pode estar acelerada pela excitação da chegada do médico ou pelo susto do preço da consulta
O médico deve prometer sempre ao doente que, com a ajuda de Deus, o vai curar. À saída, o médico deve dizer à criadagem que ele está muito mal, porque, se houver recuperação, isso dar-lhe-á muito crédito e se morrer confirmarão que o médico o tinha previsto desde o início.
Entretanto, o médico é aconselhado a não demorar o olhar na esposa, na filha ou nas criadas do doente."
(Glick, Livesey, Wallis in Medieval Science, Technology and Medicine)

A Schola Medica Salernitana foi a primeira escola médica medieval.
Fundada no séc.X, teve o seu maior esplendor nos séc. XI e XII. O seu elemento mais conhecido foi Constantino Africano, que traduziu os clássicos da medicina árabe para o latim.
Nesta escola cruzaram-se os conhecimentos das escolas Grega, Árabe e de Norte de África.
Foi a Escola de Salerno que iniciou o estudo das características do pulso arterial, desenvolvido mais tarde, durante a Renascença, com o conhecimento da circulação humana.

22 julho 2009

Que c'est mignon!

O projecto de formação, em 1906, dos Petits Chanteurs à la Croix de Bois (PCCB) deve-se a dois estudantes que, em férias, tiveram a ideia de criar um coro itinerante de música religiosa, mas que não estivesse afecto a nenhuma paróquia ou igreja específica. Este facto, só por si, constituiu uma ruptura com a tradição milenar deste tipo de coros infantis.
Cerca de 1924, com um sucesso sem precedentes e reconhecido pelo Vaticano, o grupo impulsiona decisivamente o canto coral na Europa, o que originaria, nos anos 50, a formação dos Pueri Cantores, repartidos por vários grupos corais, integrando milhares de jovens de todos os continentes.
(Quem viu o filme Les Choristes, de 2004, certamente se lembrará da prestação fabulosa de um desses alunos-cantores, "ganho" pelo professor justamente através do canto.)

Para os que não conhecem, partilho aqui um exemplo do trabalho vocal desses jovens, num concerto dado em Seul, em 1996.
A peça, geralmente atribuída a Rossini, é um mixed de algumas passagens de Otello com a Katte-Cavatine de Weyser, que Robert Lucas de Pearsall criou para o seu Duetto Buffo di Due Gatti.
Digam lá se não é uma delícia...

13 maio 2009

O que poderíamos ter sido?

Sir Ken Robinson, especialista em criatividade, desafia a forma como temos vindo a educar as nossas crianças. Os seus trabalhos são mundialmente conhecidos e esta temática tem sido objecto de reflexão nos vários livros que tem publicado.
Quanto aos vídeos, apesar de o segundo ser mais explicativo, carece da introdução feita no primeiro, onde Robinson justifica a importância da criatividade. Bem inspirado e com humor inteligente. A tradução não é das melhores mas...
E estaremos mesmo a impedir a flor de crescer?



17 abril 2009

O uso dos preservativos...

Creio que passou na RTP1 ou RTPN, não sei, em Janeiro. Lembro-me de ter pensado que me teria dado um jeitão este filme para abordar questões sobre a publicidade pedagógica, ou educativa, a criatividade como factor determinante de persuasão, etc. e tal.
É um excelente exemplo de simplicidade e eficácia, de 4:41 minutos imperdíveis. O filme faz parte de um conjunto de vídeos do Steps for the Future, cujo maior objectivo é o de educar e formar gentes em regiões afectadas pela pandemia do HIV. Esta curta-metragem de Orlando Mesquita foi galardoada com vários prémios, entre os quais:
Prémio Especial do Júri Festival de Cannes Júnior, 2002
Prémio Especial do Júri Internacional de Estudantes de BANFF para melhor programa infantil - Canadá 2002
Melhor Filme Africano no Apollo Film Festival d, S.A. 2002
Prémio Instituto Camões para a melhor Curta Metragem de Expressão Lusófona – Festival Internacional de Curtas Metragens de Évora – Histórias Comunitárias, Portugal, 2003.