Para que é que a noite chega senão para procurar pássaros. Sobre a profundidade que abraça a minha varanda, assisto sem palavras à maré cega e astuta, aos seus lápis infatigáveis, ao pausado latejar concêntrico do seu coração. Por isso abandonei o sonho, saindo das suas mãos graças a um infinito estudo e a uma segura consagração. Agora estou inteiramente na atitude nocturna que as horas mais graves exigem. Fujo dos relógios, estabeleço distâncias invariáveis entre o meu corpo e o chamamento de campainhas e sinos. Apoiado na minha varanda por uma paciência ousada, vejo a rua encher-se de topázios, numa surda batalha de substituições até que as arestas de toda a construção são arrastadas pela maré daquilo que vem e as águas da sombra ascendem, com aspirados torvelinhos silenciosos até ao meu refúgio. Para que é que a noite chega se não é para procurar pássaros. Quando está junto a mim, abro os braços, bebo-a profundamente e deixo-me ir, já esquecido de resistências, como um falcão fulminado ou uma construção gótica.
(Julio Denis, XLI)Julio Cortázar, Papéis Inesperados, Ed. Cavalo de Ferro,2010

