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25 abril 2011

Para que é que a noite chega senão para procurar pássaros. Sobre a profundidade que abraça a minha varanda, assisto sem palavras à maré cega e astuta, aos seus lápis infatigáveis, ao pausado latejar concêntrico do seu coração. Por isso abandonei o sonho, saindo das suas mãos graças a um infinito estudo e a uma segura consagração. Agora estou inteiramente na atitude nocturna que as horas mais graves exigem. Fujo dos relógios, estabeleço distâncias invariáveis entre o meu corpo e o chamamento de campainhas e sinos. Apoiado na minha varanda por uma paciência ousada, vejo a rua encher-se de topázios, numa surda batalha de substituições até que as arestas de toda a construção são arrastadas pela maré daquilo que vem e as águas da sombra ascendem, com aspirados torvelinhos silenciosos até ao meu refúgio. Para que é que a noite chega se não é para procurar pássaros. Quando está junto a mim, abro os braços, bebo-a profundamente e deixo-me ir, já esquecido de resistências, como um falcão fulminado ou uma construção gótica.
(Julio Denis, XLI)

Julio Cortázar, Papéis Inesperados, Ed. Cavalo de Ferro,2010

10 abril 2011

Sobre a Fé


"Às oito da manhã, o padre Duncan, o padre Heriberto e o padre Luis começam a insuflar o templo, isto é, estão na orla de um rio ou numa clareira na selva ou numa aldeia qualquer quanto mais tropical melhor e, com a ajuda da bomba instalada no camião, começam a insuflar o templo enquanto os índios das redondezas os contemplam de longe e um pouco estupefactos porque o templo que a princípio era como uma bexiga esmagada começa a endireitar-se, arredondar-se, esponja-se, no alto aparecem as três janelinhas de plástico colorido que vêm a ser os vitrais do templo, e por fim salta uma cruz no ponto mais alto e já está, plop, hossana, soa a buzina do camião à falta de sino, os índios aproximam-se assombrados e respeitosos e o padre Duncan incita-os a entrar enquanto o padre Luis e o padre Heriberto os empurram para que não mudem de ideias, de maneira que a missa começa assim que o padre Heriberto instala a mesinha do altar e dois ou três adornos com muitas cores que portanto têm de ser extremamente santos, e o padre Duncan canta um cântico que os índios acham extremamente parecido com os balidos das suas cabras quando um puma anda perto, e tudo isto acontece numa atmosfera extremamente mística e uma nuvem de mosquitos atraídos pela novidade do templo, e dura até um indiozinho que se aborrece começar a brincar com a parede do templo, isto é crava-lhe um ferro apenas para ver como é aquilo que se insufla e obtém exactamente o contrário, o templo desinsufla precipitadamente e na confusão todo o mundo se atropela à procura da saída e o templo envolve-os, esmaga-os, abriga-os sem lhes fazer mal algum claro mas criando uma confusão nada propícia à doutrina, principalmente quando os índios têm ampla ocasião de ouvir a chuva de coños e caralhos que os padres Heriberto e Luis distribuem enquanto se debatem debaixo do templo à procura da saída".

Julio Cortazar, Papéis Inesperados, Ed. Cavalo de Ferro, 2010

Pintura: Antonio Berni

04 abril 2011

Uma história de amor entre dois eunucos chineses


«Os quatrocentos eunucos da velha casa imperial chinesa foram desterrados e apenas dois permaneceram no mosteiro, nascendo entre eles uma grande amizade, a tal ponto que não podiam mover-se nos corredores e no jardim sem estarem juntos.
Falavam das nuvens que vagam e das sombras dos pássaros pelas pedras do horto. Mas alguma coisa cavou um espaço entre eles. Como se, inexplicavelmente, estivessem melhor isolados. Pelo menos um dos dois, o mais velho, parecia comportar-se assim. Arrastava-se pelas esquinas e preferia os confins do jardim. O outro seguia-o à distância. Observava-o, estudava-o para perceber o que poderia ter acontecido. Talvez estivesse mal e quisesse morrer sem perturbar e sem ser perturbado. Um dia notou que escrevia sobre uma folha de papel. Mesmo à luz da candeia o via escrever coisas que depois, secretamente, em alguma parte escondia. Procurou aquelas folhas. Devorava-o um desejo de alcançar aquele diário íntimo. Como lhe parecia ter visto o amigo fazer, removeu as pedras do jardim e revistou o interior das fendas do velhíssimo pavimento. Finalmente um dia encontrou-o. Leu às escondidas o que estava escrito:

Segunda Feira
Desde que comecei a escrita do diário vejo que te interessas ainda muito por mim.

Terça Feira
Sinto que desejas ler o que escrevo.

Quarta Feira
Hoje removi as pedras no horto para que pensasses que escondia aí estas páginas. E, de facto, tu repetiste os meus gestos e ficaste desiludido.

Quinta Feira
Leio nos teus olhos que estás a sofrer. Então é verdade que ainda me queres bem.

Sexta Feira
Hoje quero que encontres estas pequenas linhas e percebas que és a minha vida.

Depois de ler chorou. E viu que, junto ao canavial, também o outro chorava.»


Tonino Guerra, Histórias para uma Noite de Calmaria, Ed. Assírio e Alvim, 2002.
Fotografia: Maleonn Ma