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20 julho 2010

"eu não sei d'on' qu'ô vim, on' qu'ô tô, pr'onq'ô vô, e quem qu'ô sô"


Não deixo de me surpreender com a diversidade dos dialectos brasileiros (eu sei que deveria escrever dialetos..., mas lá irei, lá irei). Uma das primeiras expressões que eu aprendi do chamado português do brasil setenterional, foi "pedir penico", que significa amedrontar-se, mostrar-se fraco, fracassar.
Eu tinha um aluno brasileiro, miúdo pacato, educadíssimo, que usava o seu humor fino e inteligente, sobretudo em situações de impasse ou de algum constrangimento. A turma era grande mas pouco enérgica, culturalmente muito heterogénea, o que lhe dava, até, um certo encanto, mas que era, para mim, um desafio permanente.
Um dia, lá pelo meio do segundo período, numa fase de apresentação de projectos de leitura, a turma alvoroçou-se na escolha do aluno que deveria apresentar o seu projecto em primeiro lugar. Ninguém se decidia, nenhum queria, de facto, expor-se. Então o garoto soltou, entre um sorriso Colgate e uma gargalhada: está é tudo a "pedir penico"!
Foi a salvação. Gargalhada geral,  estava mais que decidido quem iria começar. E com direito à explicação, atempada e pertinente, da expressão desconhecida.

15 outubro 2009

Sonhos, matéria obscura

--*


Una patria es la lengua en la que sueñas

La patria es estar lejos de la patria:
una nostalgia de la infancia en noches
en que te sientes viejo, una nostalgia
que sube a tu garganta como el agrio
sabor del vino en las resacas duras.

La patria es un estado: pero de ánimo.
Un viejo invernadero de pasiones.
La patria es la familia: ese lugar
en el que dan paella los domingos.

Una patria es la lengua en la que sueñas.
Y el patio del colegio donde un día
bajo una lámina de cielo oscuro
decidiste escapar por vez primera.

Mi patria está en el cuerpo de Patricia:
mi himno es su gemido, mi bandera
su desnudez de doce de la noche
a ocho de la mañana. Tras la ducha
mi patria va al trabajo, yo me exilio.
*
* Albinoni, Oboe Concerto Op. 9, No. 05 in C Major - II - Adagio

04 agosto 2009

Poesia


"Muitos de nós, os nascidos na segunda metade do século, durante o regime político salazarista, com o seu ensino quadriculado e a papel cavalinho. Muitos de nós que tivemos de vir estudar para as grandes cidades e para chegar à cidade demorava um dia. E um dia era muito, lento e triste. Muitos de nós, "os vencidos do catolicismo", fomos obrigados a crescer culturalmente por conta própria. E também a poesia, por enigmáticos tropismos afectivos, tivemos de descobrir à nossa custa. E foi ela que nos ajudou a crescer e a dar estofo aos bancos de pau dos velhos combóios fumarentos. Muitas vezes, em demoradas viagens, atravessámos o país com as palavras dos seus poetas. As vinhas do Douro, a cerâmica de Valadares, a fumarada de Campanhã, os arrozais do Mondego. E milheirais. E as hortas. As montanhas ao longe. O mar. E dentro dos combóios, passageiros de chapéu escuro a olhar o que líamos e para os nossos sonhos. Vivíamos a profunda nostalgia de um país agridoce. Que não era pátria, como escrevia Ruy Belo. Enevoado e temeroso, de que a poesia nos ia revelando intensos sintomas. A doença do nervo, ou ciática. A chuva lacrimal. O sótão mal iluminado. "As casas, as casas, as casas." E por que referir tudo isto a propósito de Ruy Belo? Justamente porque aquele pequeno livro azul dos cadernos de Poesia, com o título Homem de Palavra(s) caiu em cheio na nossa adolescência inquieta e deslocada. Tenho-o ainda lido e relido e amarelado pelo tempo. Ele colava-se à nossa branda irrequietude e nós ficávamos por dentro dele, sei lá, como um guarda chuva molhado. Aderíamos instantaneamente àqueles versos desconfortados".
Manuel Hermínio Monteiro, Jornal das Letras, 7 de Outubro de 1998

Manuel Hermínio Monteiro nasceu em 1952 em Trás os Montes e faleceu em 2001, aos 49 anos. Foi um intelectual destacado e teve como actividade principal a direcção da Editora Assírio e Alvim, onde divulgou alguns dos maiores nomes da poesia portuguesa.
O belíssimo texto de que reproduzimos um extracto, tem por título Esquecimento e é dedicado ao poeta Ruy Belo, falecido precocemente em Agosto de 1978, aos 45 anos.

06 julho 2009

Encontro de amigos


...........

Manuel Alegre e Paulo Sucena apresentam o livro de homenagem a Mário Sacramento no dia em que este faria 89 anos.

Lisboa, Livraria Círculo das Letras (Av. Óscar Monteiro Torres, junto Av. Roma). Terça Feira, 07/07, 18h.

22 abril 2009

D-s-c-rd- -rt-gr-f-c-

Eu sou v-g-l
tu és -o--oa--e
umas vezes ris
outras estás distante.

Eu cá sou v-g-l
e por isso canto,
tu que és -o--oa--e,
____
já nem tanto.

20 abril 2009

Eu e mailos livros

Teresa Castro D’Aire (pseudónimo de Teresa Mascarenhas) nasceu em Lisboa a 27-01-52.
Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde se licenciou e fez vários Seminários de Pós-Graduação, sempre na área da Literatura. Tem cerca de vinte volumes publicados e oito prémios literários. Realizou duas exposições de pintura individuais e colaborou em catorze exposições colectivas.

Aos 17 anos escreveu o primeiro livro - Rapsódia em Technicolor (ou meu amor anda ver a minha colecção de slides), rejeitado por trinta editoras, antes de ser premiado. Na opinião de alguns críticos, bem como da própria escritora, tratava-se de um texto muito adiantado para o seu tempo. A descobrir também Eu, Lourenço, andarilho da vida, um bildungsroman, compromisso entre conto histórico e livro de memórias, junção de que resulta uma obra insofismavelmente didáctica e exemplificadora da época Napoleónica, em que o herói Lourenço, picaresco e cheio de artimanhas, toma parte.

Eu e a maila minha senhora vieramos transanteontem da terra, inté demos lá lembranças suas à ti MariJaquina. O programa segue dentro de momentos. Segurem-me, vou passar o fim-de-semana com o Peter O’Toole! Ele namorou uma das pupilas do senhor reitor, tu namoriscaste as outras todas, que eu estou marreca de saber. Era um Rudolfo Valentino de colarinhos à raisteparta, muito cocabichinhos, é daqueles que chegaram a ser reis só com um olho, coitado, chegou todo torcido, todo chamuscado, mais parecia a madrinha, mas para comer ostras com limão, comigo ao desafio, é aquela máquina. Quem é esta avis-rara? Meia bola e força! Tenho feito umas coisas muito engraçadas com o meccano que me deste no Natal, só ainda não fiz um gato-sapato, como é que se faz? How kind of you to let me come! Viram-me nas abluções na terça-feira de pascoela? Não ligues, são as más línguas a meter o bedelho, são bocas da reacção. Singing in the rain – eram os galifões ainda em rodagem do David Mourão Ferreira. É o livro de memórias de Florence Nightingale, de forro já desbotado.

Teresa Castro D’Aire, Rapsódia em Technicolour (ou meu amor anda ver a minha colecção de slides), prefácio de Batista Bastos, Editorial Escritor, 1991.

16 fevereiro 2009

(Co) incidências

Numa pesquisa de material interactivo sobre fonologia, dei de caras com uma página do site da dgidc, do ministério da educação. Na descrição das actividades (para os três ciclos do ensino básico...?! Os três ciclos?!) pode ler-se na referida página:

(...) Estes enunciados orais são habitualmente compreendidos devido à entoação e às pausas, feitas pelo locutor quando produz as frases, ou devido ao contexto em que as frases são produzidas.
As frases homófonas foram escolhidas em Goês, A. (2003), Aliás voltas sempre / Ali às voltas sempre – Jogos com a Língua Portuguesa. Lisboa: Ed. Replicação. Trata-se de pares de frases que se comportam como as palavras homófonas: são pronunciadas da mesma maneira, mas têm grafias e significados distintos. Funcionam também como jogos fonológicos e sintácticos com implicações directas na alteração do valor referencial das palavras, portanto das classes a que pertencem, e no plano da semântica da frase.

Valha-nos o facto de não ter sido este (abaixo) o exemplo de exercício escolhido para a referida página ministerial.
Mas se os jogos fonéticos atiçarem a curiosidade de alguns infantes, e criarem neles o gosto pela poesia (o que está certíssimo), temo-los à pega. Parece que estou a vê-los, na aula, aos cochichos: ó pá, olha-me para este verso!!! Bué da kurtido! tá no livro, tá lá. É que... omitir as fontes é desonestidade intelectual.

Corrijo, sempre é melhor.
Cu rijo sempre é melhor…

Coxeio, dói-me!
Cu cheio dói-me…

Ecológico
É cú, lógico!

Ela nem sequer o comove…
Ela nem sequer o cu move!

Mas que cozinho, lá isso é verdade…
Mas que cuzinho, lá isso é verdade!

No cume cheira.
No cu me cheira!

Nunca o coagiu assim…
Nunca o cu agiu assim!

Nunca tive comadre…
Nunca tive cu, Madre!

O meu corresponde mal…
O meu cu responde mal!

Quando o comanda…
Quando o cu manda…

in Aliás voltas sempre - Ali às voltas sempre, de Ana Goês, Ed. Replicação

Mas que a autora está atenta, e maneja bem as virtualidades da língua portuguesa, lá isso é verdade, e o livro vale a pena. A começar pelo título.