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22 setembro 2012

contra a melancolia, outonal alegria!


Nas nervuras da luz,
um nevoento e cinza mas alado
é a figura:
brando, incandescente,
o temos,
nos defronta,
nos conduz.

(Pedro Tamen, Tábua das Matérias)

07 setembro 2012


porque tudo começa num amor envolvente
e termina
num punhado de terra
lançado ao acaso
numa tarde de chuva

no meio há o tempo

o sol assiste e sabe

(Dedicado a esta flor que fotografei em Junho e que jaz desfolhada)

24 janeiro 2011

Agora

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

Ruy Belo (1933-1978)

06 dezembro 2010

Dizer

                
                  Exercício Espiritual

É Preciso dizer Rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Mário Césariny, in Manual de Prestidigitação, Assírio e Alvim, 1981.
Foto: C.

30 novembro 2010

Pessoa(s)














              (13/06/1888 - 30/11/1935)


O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

Alberto Caeiro, Poema XLVI (excerto), in Poemas, Ática, 1970
Foto daqui

19 setembro 2010

Últimos desejos


Quero voar como os anjos
quero lavar os dentes com triflúor
quero o Belinho sem o Oliveira
quero cornear o duque de Kent


quero 250 de Platão bem passados
quero a destreza do okapi
quero ir ao Douro e às vindimas
quero pagar com letrasset


quero vestir de linho (e do Veiga)
quero ser primeiro no Mundial
quero pudim francês com caramelo
quero ler um cabinda em verso branco


quero uma sequóia para o quarto
quero voar de Spitefire
quero esmurrar o Marcel Cerdan
quero a Maja Desnuda


quero-te de bicicleta
quero-te outra vez de bicicleta sobre as folhas
quero-te ouvir chegar de bicicleta
quero o som macio que fazia na mata a tua bicicleta.

Fernando Assis Pacheco, in Variações em Sousa

09 setembro 2010

Correm turvas as águas deste rio

Correm turvas as águas deste rio,
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.
Passou o Verão, passou o ardente Estio,
Úas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.

Luis Vaz de Camões

28 agosto 2010

O Poema de Amor de Esteban Rojas

Esteban Rojas é um dos 33 homens que vivem hoje uma das mais dramáticas experiências a que um ser humano pode ser submetido. Encerrado com os seus companheiros, numa pequena galeria a 700 metros da superfície, prepara-se para a mais difícil prova: sobreviver as semanas necessárias (meses ?) até poder voltar a ver o céu e as estrelas.
Do fundo da Terra e da esperança escreve à companheira:...Y cuando salga compramos el vestido, y nos casamos...
Ficamos esmagados só de imaginar o que poderão ser os minutos que estes homens estão a viver.
Tem de nos emocionar a força indestrutível e a infinita capacidade de sobrevivência de alguém que, ali, coloca o amor no centro dos seus sonhos e do seu futuro.

Para Esteban e Jesica, as palavras de Neruda:

...Às vezes amanheço, e até a alma está húmida.
Soa, ressoa o mar ao longe.
Este é um porto.
Aqui te amo.

(Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor...)

13 agosto 2010

Hoje


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só p'ra mim

Sophia de Mello Breyner Andresen
Foto: C.

07 julho 2010

... pelo que me tenho rodeado de silêncios


«Já reparaste que tens o mundo inteiro
dentro da tua cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça
é o teu mundo
e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro
dentro da minha cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça
é o meu mundo
o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos
mas através dos nomes
pois o que tu tens dentro da tua cabeça
e o que eu tenho dentro da minha cabeça
são os nomes do mundo em brutal compressão
como um filtro ou coador
de forma que nem és tu que conheces o mundo
nem sou eu que conheço o mundo
mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo
e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo
o qual entra em ti e o qual entra em mim
através dos nomes que já tem...»

«a manifestação estética integral terá que ocorrer no domínio do silêncio, porque para aquém ou além dele é tudo em última análise compromisso».

Alberto Pimenta, O Silêncio dos Poetas, 1978. (Livros Cotovia, 2004)
O mundo todo na cabeça (de C.)

04 julho 2010

Astor Piazzolla

Piazzolla faleceu a 4 de Julho de 1992, com 71 anos.
Foi o compositor de tango mais importante da segunda metade do século XX.
Tinha uma sólida formação musical e, nos anos 60, inovou o género contra as correntes mais conservadoras que o consideravam coisa intocável. Piazzolla introduziu-lhe influências do jazz e outros ritmos urbanos, deu-lhe modernidade, dessacralizou-o e fez com que fosse apreciado e tocado pelas jovens gerações de músicos.
Associou de forma criativa o tango à poesia e à arte contemporânea em geral, tornando-o indissociável da fascinante cidade de Buenos Aires.
Amelita Baltar, que foi casada com Piazzolla, tem, no clip que aqui deixo, uma fantástica interpretação de Balada para un Loco, texto de Horacio Ferrer (poeta que compôs letras de muitos tangos de Astor Piazzolla) onde se sente toda a magia de Buenos Aires na força de um tango.


Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese no sé qué, ¿viste?.
Salís de tu casa, por Arenales .
Lo de siempre: en la calle y en vos...
Cuando de repente, de atrás de un árbol, me aparezco yo.
Mezcla rara de penúltimo linyera y de primer polizonte a Venus:
medio melón en la cabeza, las rayas de la camisa pintadas en la piel,
dos medias suelas clavadas en los pies y una banderita de taxi libre
levantada en cada mano. ¡Te reís!...
(...)

01 junho 2010

Ferreira Gullar























A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país
........................................................................
Ferreira Gullar, poeta e dramaturgo, nascido em 1930 em S. Luis do Maranhão, ganhou o Prémio Camões 2010. Homem e cidadão integro, para quem nada é intocável ou indiscutível, manifestou-se felicíssimo com este Prémio.
Nós também. 

04 abril 2010

Human(a)idade


Lisa Kokin - Remembrance

--*

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

Alberto Caeiro, Fragmentos
* Philip Glass - Truman Sleeps

01 abril 2010

Fazes-nos falta, Mário!

Mário Viegas 10 / 11 / 1948  -  1 / 04 / 1996

Mário Viegas faleceu há 14 anos. Faz-nos falta a sua sensibilidade e o amor pela poesia, o humor cáustico e o riso implacável perante a  hipocrisia e o novoriquismo com que nos querem dominar o espírito. Faz-nos muita falta.

21 março 2010

Dia Mundial da Poesia



queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma!
(Mário Cesariny )

15 outubro 2009

Sonhos, matéria obscura

--*


Una patria es la lengua en la que sueñas

La patria es estar lejos de la patria:
una nostalgia de la infancia en noches
en que te sientes viejo, una nostalgia
que sube a tu garganta como el agrio
sabor del vino en las resacas duras.

La patria es un estado: pero de ánimo.
Un viejo invernadero de pasiones.
La patria es la familia: ese lugar
en el que dan paella los domingos.

Una patria es la lengua en la que sueñas.
Y el patio del colegio donde un día
bajo una lámina de cielo oscuro
decidiste escapar por vez primera.

Mi patria está en el cuerpo de Patricia:
mi himno es su gemido, mi bandera
su desnudez de doce de la noche
a ocho de la mañana. Tras la ducha
mi patria va al trabajo, yo me exilio.
*
* Albinoni, Oboe Concerto Op. 9, No. 05 in C Major - II - Adagio

13 outubro 2009

momentos


--*

Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.

Eugénio de Andrade, in Branco no Branco
*Anouar Brahem Trio, Astrakan Cafe
Foto: Paulo

29 setembro 2009

Há dias assim...

---*













Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença
da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.

Eugénio de Andrade, Os Lugares do Lume, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, 1998
Charles Lloyd - Fish out of water

13 setembro 2009

A distância entre as coisas



Não tece a tela
Não fia o fio
Não espera
Por nenhum Ulisses

Às portas do sangue
O herói adormecido
Agora está deitado
Ao Polifemo abraçado
Seu próprio satélite forçado

Há um intervalo nímio
Nas coisas
Que entre si independem.

Ana Hatherly, A Neo Penélope, &etc 2007

Fotografia de Paulo