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22 março 2011

Redacção para o exame da ludoteca: xeque-mate de rei e dama


É uma técnica simples, que apenas requer um trabalho de conjunto e dinamismo, por parte do rei e da dama atacantes, para restringir o rei adversário. Nunca se deve desprezar a chamada “jogada de espera”. Entretanto, há que limitar as filas de alcance do rei atacado (não sei como se faz, mas já vi que resulta noutros tabuleiros).

Para viabilizar (o que eu gosto deste termo!) a execução deste mate, o Rei precisa de apoiar a dama - tanto para forçar o movimento do Rei adversário para as bordas do tabuleiro, quanto para efectuar o mate.
Para que a dama tenha poder estratégico, deve estar colocada em L ou posição de cavalo com o rei adversário.
Quando o Rei estiver sem saída é só gritar bem alto "XEQUE-MATE!". Se disserem "vai-te embora antes que o cheque te mate", não vale. Não queremos cheques sem cobertura. 

Alguns peões, que neste jogo nunca podem retroceder, estão agora nos bastidores, com cara de parvos, porque nunca aprenderam jogos estratégicos - só se lembram do anelzinho e do jogo do ringue nas avenidas, idas, de restritas liberdades, quando ainda se cantava Ó-ai-ó-linda e não havia carros nem buzinas. Pensavam que era um jogo a brincar e estão quase a dar-se conta de que vai ser tudo a sério depois do torneio.

E há também peões a dar de frosques porque não querem ser obrigados a PEC(ar) sem fazer batotice, coisa a que seriam obrigados em caso de empate.

Esta redacção não foi escrita ao abrigo do novo Acordo Ortográfico, mas deu-me um grande gozo, porque aprendi imenso sobre a técnica de copipeiste.

imagem: Final de Partida, obra de Andrea Conde (Buenos Aires)

15 outubro 2009

Sonhos, matéria obscura

--*


Una patria es la lengua en la que sueñas

La patria es estar lejos de la patria:
una nostalgia de la infancia en noches
en que te sientes viejo, una nostalgia
que sube a tu garganta como el agrio
sabor del vino en las resacas duras.

La patria es un estado: pero de ánimo.
Un viejo invernadero de pasiones.
La patria es la familia: ese lugar
en el que dan paella los domingos.

Una patria es la lengua en la que sueñas.
Y el patio del colegio donde un día
bajo una lámina de cielo oscuro
decidiste escapar por vez primera.

Mi patria está en el cuerpo de Patricia:
mi himno es su gemido, mi bandera
su desnudez de doce de la noche
a ocho de la mañana. Tras la ducha
mi patria va al trabajo, yo me exilio.
*
* Albinoni, Oboe Concerto Op. 9, No. 05 in C Major - II - Adagio

23 setembro 2009

Entre nós e as palavras há metal fundente

 *

Ruhrpottlady - Light Spot

Não, não me devias ter mentido acerca do mundo – (e eu, que só queria acreditar em tudo o que dizias.)
Devias ter-me ensinado a inclinação perfeita do gume, ter-me treinado no golpe contido e certeiro nas asas das vespas (os brinquedos eram de madeira, seriam perfeitos).
Devias ter insistido comigo no ajuste das receitas: metade mel, metade cicuta. Aprenderia a arder um fósforo na falange, sem gemidos, sem vacilação das pálpebras, sem paixão.
Em vez da lógica de todas as demências, em vez da geografia dos êxitos, em vez da fuga aprazada, ensinaste-me a dormir sobre a consolção da alma, esse interstício insaciavelmente obscuro.
Devias ter-me dito a verdade acerca do choro dos homens e do riso das bestas. Sempre achei incrível como os cães podiam sorrir às ameaças dos donos. Nunca acreditaste que isso era possível. E ensinaste-me que nunca se jura sobre o que não se sabe. Mas juravas pelos anjos e arcanjos das pagelas e santinhos que havia uma bondade natural no coração dos homens.

Não, não me devias ter mentido sobre o mundo. Eu teria aprendido a desconfiar da minha própria condição de humano e não seria incauto viajante ou obstinado pescador de estrelas. Devias ter-me dito a verdade: que ninguém escapa, ninguém escapa à sedução da posse da palavra soberana. Que ninguém avisa da vilania e que ninguém... ninguém tem o coração puro.
Devias ter-me dito: a alma é um intestino que se enche - nuns dias frango gourmet noutros paté e vinho maduro; e o mais é trabalho de fotógrafo em dias de feira. Devias ter-me dito, eu ia perceber tudo. Eu tinha os olhos sempre acesos noite dentro, como se ela trouxesse a verdade insofismável da brancura.

O que me devias ter ensinado – hoje sei – é do silêncio dos livros e do labor das rosas.

E eu apenas venho aprendendo a morrer esse amor.

Título: transcrição do primeiro verso do poema You are welcome to Elsinore, de Mário Cesariny
* Nick Cave & Warren Ellis - The Road, do álbum White Lunar, 2009

25 agosto 2009

Outono

Talvez este silêncio more em ti
nesse breve instante do teu ser
e antes de subir ao pó antigo
falo-te de palavras e de gestos
Aqui será então eternidade
e o que não tem nome será dito
seremos filhos das estrelas e dos rios
do mundo sem tempo nem lugar



(foto:António Cruz)

13 junho 2009

Em jeito de homenagem

*

(19/01/1923 - 13/06/2005)
(para o Eugénio, onde quer que esteja, pelo muito que me ensinou)

Onde a vocação da luz
fez a brancura às casas,

onde a voz abriu
a planície ao verão

e o gesto se adivinhou
(espessa a erva
sobre o chão),

onde as palavras da noite
se pediram mais e belas,

aí eu queria estar

nativo anterior a mim
oferecendo-me às estrelas.

* Keith Jarrett - Somewhere over the rainbow

22 abril 2009

D-s-c-rd- -rt-gr-f-c-

Eu sou v-g-l
tu és -o--oa--e
umas vezes ris
outras estás distante.

Eu cá sou v-g-l
e por isso canto,
tu que és -o--oa--e,
____
já nem tanto.

21 abril 2009

Sem Palavras


Que a melodia dos teus dedos na minha mão me faça esquecer as palavras .
Estou cansada.
Quero o silêncio dos rios claros, ouvir apenas a chuva mansa, o som provável dos teus passos.
Não fales alto. Fecha a porta devagar. Deixa os teus dedos na minha mão e fala-me baixinho.
Sem palavras.

16 abril 2009

Palavras Fechadas


Sopro breve
paisagem derradeira
tempo cego
voaram as tardes
L´image de la pleine mort
E tu existias
dentro de uma caixa fechada
clara e lisa
A morte quer-se estética
lavada
atroz mas digna

Vieram as flores e os abraços
os gestos costumeiros
a voz
os passos
sussurros

Fazem barulho
Há alguém
que chora
finalmente
Muito

27 fevereiro 2009

À entrada de Março




demorar os dedos na chávena quente do café,
pôr a música a tocar em preto-e-branco, criar a sintaxe do dia.

entrar pelo avesso numa velha camisola, e aquecer-se
à luz diagonal e extensa de uma janela comovida.

na melodia, fazer-se em novelo, embrulhar-se em rebuçado,
o queixo sobre os joelhos, o livro fechado.

toda a carícia devia ser
qualquer coisa como isto.
mão de caligrafia inclinada

C.