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12 janeiro 2011


Pouso a minha mão no lençol, impecavelmente esticado, junto à da minha mãe. Estão cuidadas as duas, mas a dela agora despida dos adereços que sempre lhe enfeitaram os dedos. “Desgosta-me que não uses, filha, ninguém os vai herdar”.
Assim pousadas, as nossas mãos tão idênticas parecem saídas dos braços duma mesma mulher, direita e esquerda.
Olhando com atenção, há uma que mantém, elevada, uma pequena prega do lençol branco, ondulando entre o indicador e o polegar, num tremor fino. É a dela, adormecida.
A coluna de luz jorra da persiana em pequenos raios tangentes ao bordo da cama até se perder no chão. Não toca as nossas mãos que ficam na penumbra do quarto branco e asséptico.
Sinto a minha mão na carícia suave do lençol lavado, impressão antiquíssima e, se fecho os olhos, vejo-a, infantil, fechada na outra, protectora, que a segura e conduz na manhã fria até à sala das letras e dos números cantados. “Agora vens todos os dias para esta sala”.
Há um sabor conhecido na memória que guardo depois dessa manhã, tantas foram depois as vezes que a minha mão encontrou abrigos naquela concha.
Hoje, é uma ínfima mudança do brilho da luz que conduz a minha mão, contraída, de novo adulta, até àquela, antes enseada e amparo, que agora naufraga no ocaso dos anos.


04 janeiro 2011

Carta a Vanessa


As caras são enigmas, não falam dos corações, sei disso. Mas eu, mal olhei para ti no café, vi-te a alma toda, Vanessa.
Alguns olhares que me devolves passam por cima da vozearia, contornam o empregado de pano seboso ao ombro, flutuam nos reformados do dominó, ignoram a minha calvice cruzada com a cascata de gordura sobre o cinto e despenham-se no meu peito aberto, ali mesmo, por entre os pêlos e o cordão de ouro com a plaquinha bem visível: Amor de Mãe.
Dos meus lábios saem palavras distraídas para os colegas de mesa, mas é para ti que viro o melhor sorriso, temperado com um tranquilizante recato, banhado na languidez do olhar e apimentado com o meu infalível toque na melena.
Percorro-te à chegada, quando fazes caminho entre as mesas e o balcão, sei-te de cor depois destes meses e sonho a entrega da tua alma nas minhas mãos, incendiada com a intensidade rubra da fita que te prende o cabelo e que já conheci despenteado, molhado, arrepanhado ou preso em rabo-de-cavalo saltitante como hoje.
Tomas café como se beijasses a chávena, indiferente aos empregados que marcam com os pés a camurça das tuas botas no afã de teclarem a registadora.
Quando planas o olhar pelas mesas, sem o deteres em mim, nem me sugerir, num tão ansiado gesto de cabeça, um encontro, ali ou algures para lá da porta, aguo como um cachorro de leite.
O teu deslizar para a saída planta vazios nos olhares dos bronquíticos da sueca, que se especam, de caras paradas, na indiferença das tuas costas.
O teu porte transpira intangibilidade, mas eu não desanimo, porque ouço com nitidez a voz da minha santa mãe – “filho, quem não se regista, não petisca”- pairando acima do som estridente da tv, sussurrando-me insistentemente que a sorte protege os vorazes e, por isso, nós ainda vamos ser felizes, Vanessa.

15 dezembro 2010

A luz do sonho


 Esta noite o sonho voltou.
Nisto de sonhos sou pouco versado, sei que há os bons, os pesadelos e os outros, de que nem nos lembramos.
Este de que falo é recorrente nas minhas noites. Não o sei traduzir nem interpretar, sei apenas que me sinto bem nele. Quando acordo, conservo uma desmedida sensação de bem-estar, de conforto e de regresso.
“Chego a casa e está tudo igual. Os aromas, as cores e a luz oblíqua que entra como uma neblina pela varanda e se espalha no soalho encerado. Percebo ali uma espécie de desarrumação morna e colorida onde me sinto bem.
Subo os dois degraus que continuam a ranger e entro na sala onde o pick up de botões de baquelite toca como da última vez. Na mesa está um prato com um resto de pudim de caramelo. Por cima da música, ouço a algazarra familiar dos vizinhos e pela fresta da porta chegam os sons iluminados da cozinha. Não identifico vozes, sinto apenas um intenso aconchego que me faz sorrir, enquanto me viro e pouso as mãos no couro gasto do orelhudo junto à lareira.
 Enquanto a porta se fecha, sento-me no degrau... e apetece-me  guardar este tempo, na redoma dos dias bons”.

08 dezembro 2010

Viagem na minha rua

Hoje é uma rua sem trânsito, pedonal, como se diz agora. Não o foi sempre e espanto-me como até ali cabiam imponentes carros que levavam as mães até às janelas, clamando perigos iminentes.
A calçada continua gasta, as pedras redondas ali estão, eternas, mas as portas das casas, para nós inacessíveis, encimando degraus majestosos, têm agora o batente à altura da minha mão.
A rua ficou alheia ao circuito dos meus dias e do meu olhar, mas é ele que me conduz de novo ali, numa viagem de memória. Nela sinto o recordar tumultuoso do cheiro da sopa quente vindo de cozinhas agora secas; lembro os encontros e desencontros com polícias ágeis, perseguidores de bolas e meninos, e hoje velhos asmáticos sem farda nos bancos da praça.
Ao peso da cor daquela experiência, quis até o meu corpo mudar de forma e tom, procurando a impossível transformação do regresso à infantil dimensão que deixasse a rua alargar, os carros buzinarem de novo, os degraus crescerem e as mães serem, outra vez, ouvidas.


18 outubro 2010

Paradoxos

Jorge Eduardo, 54 anos, antigo piloto de gincanas e ralis, uma perícia que faz inveja a todos os amigos e conhecidos. Talvez mais do que a perícia, só as impecáveis calças cinza claro vincadas, que coleciona a par de blazers azuis escuros de botões dourados, são objecto de uma inveja superior.
Hoje, pela tardinha, quando o viram dentro do Triumph Spitfire Mark IV descapotável, vermelho baton, estofos de pele sintética branco pérola, pendurado no talude da ribeira do Xarrama, ninguém reparou na forma como estava vestido.

08 outubro 2010

A varanda

O meu avô está sentado na varanda.
Fico contente quando chego a casa e o vejo, sentado, a tomar chá na varanda. É sinal de que está bem e quer conversar. Quando não quer conversar, senta-se no sofá da sala, afundado em frente à televisão.
Veste os jeans gastos do costume, uma T shirt azul escura e sapatos leves, sem meias. O meu avô veste agora sempre jeans e Tshirt , nunca põe meias e hoje tem restos de óleo nas mãos, sinal de que esteve na garagem a desmontar um motor. Isso, para mim, também é muito bom sinal.
Olha-me, esconde o sorriso atrás da chávena onde bebe o chá e, com um gesto de sobrancelhas que conheço, convida-me a sentar ao seu lado.
Respondo-lhe com um beijo na testa e entro em casa para tirar as compras dos sacos, encher o frigorífico e lavar alguma louça.
Sei que me olha as costas, enquanto se recosta a saborear o chá.
Desde o Inverno que lhe trago as compras de comida e o correio que se acumula no apartamento e que, depois, fica ali, por abrir, no sítio onde o deixo.
O meu avô foi o amigo que mais encheu a minha vida. Vivia junto aos meus pais e está ali desde que adoeceu e assinou uns papéis para sair do hospital sem fazer os tratamentos que lhe propuseram.
Foi com o meu avô que eu aprendi a pescar, o que me tornava especial entra as colegas do colégio. Nesse tempo, passávamos todo o tempo livre no mar onde, com uma infinita paciência, ele me punha o isco no anzol, ensinava a calcular a distância para o fundo e qual era a melhor hora a que o peixe ferrava.
Quando eu tinha dez anos, no fim da primária, o meu avô levou-me a acampar na Arrábida, que era um sonho meu, o que deu numa enorme discussão entre os meus pais que não tinham opiniões coincidentes sobre as saídas das meninas em aventuras daquelas.
Há marcas do meu avô em muitos outros momentos da minha vida: a minha primeira cerveja, a primeira saída a guiar um carro – o dele – e que ia acabando mal, ou a viagem de avião que fizemos juntos à Madeira para caminhar nas levadas. Foi o meu avô que me comprou o meu primeiro bilhete de InterRail, quando acabei o secundário - sai daqui sempre que puderes, nunca te canses de ir... mas volta sempre - sussurrou-me, olhos nos olhos, a sorrir.
O meu avô ensinou-me a crescer, eu aprendo com ele a envelhecer e isso é mais uma coisa que fazemos juntos.
Hoje fiquei contente quando cheguei a casa e o vi sentado na varanda.

23 julho 2010

Um blues no Bósforo


Vale a pena dizer-vos como tudo começou, já que aquele foi  o momento oportuno para aparecer a carteira de fósforos com dois solitários cabeças vermelhas.
Tratou-se de um inesperado apagão na minha chegada ao restaurante onde aguardaria a chegada do meu contacto na Turquia.. Os fósforos surgiram em segundos, como por magia, na mão do empregado de mesa, turco, salvo erro.
Era uma carteira de fósforos dourada, com aspecto de muito usada, nas pontas estava mesmo queimada e tinha escrito - em relevo - Turkish Airlines.
Surpreendi-me, naturalmente, já que há muitos anos que as companhias aéreas não usam carteiras de fósforos como objectos promocionais. Mas o aparecimento destes fósforos foi providencial. Aceso um candeeiro a óleo pelo própro empregado, reparei que sobre a mesa havia, aparentemente esquecido, um guardanapo de papel com a palavra Fiala escrita e um longo número de telefone com onze algarismos. Ainda tentava perceber a associação dos dois registos, quando o papel foi retirado do meu olhar por um gesto do empregado que teve tanto de rápido como de brusco. No entanto, consegui ler num terceiro registo, letuska, escrito a marcador grosso e a azul. Não tive dificuldade em perceber que esta é a palavra que, em lingua checa, quer dizer "hospedeira de bordo".
Os meus conhecimentos linguísticos não são excepcionais, mas o facto de ter chegado de avião a Instambul nessa manhã, vindo de Praga, fazia toda a diferença.
As duas informações estava relacionadas com aviões comerciais e isso para mim, que adoro enigmas, era um desafio.
Não me espantei quando relembrei o número de onze algarismos - identifiquei de imediato o indicativo da cidade checa de Krnova, na fronteira com a Polónia.
Sempre que viajo, trago comigo uma velha carteira de pele. Apesar de ser de uma marca conhecida, não corre o risco de suscitar cobiça dado o seu aspecto antigo, visível no desgaste que apresenta. Abri-a com cuidado, enquanto esperava a chegada do meu contacto, e contei as liras turcas que trazia comigo: duas mil e quinhentas, cerca de dois mil dólares. Foi então que vislimbrei o empregado a contar comigo o dinheiro, olhando sem disfarce, do outro lado da mesa.
- Traz muito dinheiro consigo, disse. É porque precisa, ou é só por ser perigoso? - acrescentou.
Olhei-o com espanto e um mal disfarçado temor... Estas eram as exactas palavras que o músico cego me tinha dito no hotel Pepa, em Krnov, há duas noites, antes da minha fuga....

03 junho 2010

Às vezes


Nos dias em que se vendia um borrego, havia dinheiro em casa. O meu pai voltava da feira e trazia da venda uma posta e dois rabos de bacalhau. Sem palavras, pousava tudo, embrulhado num jornal velho, em cima da mesa da cozinha. A minha mãe, em silêncio, guardava-o e punha-o  de molho no sábado seguinte.
No domingo eu acordava com o inconfundível cheiro, denso e húmido, do bacalhau e das couves a cozerem.
Quando voltava da missa, o cheiro persistia e as janelas da cozinha escorriam humidade.
Às vezes, a minha mãe cozia um ovo.

13 fevereiro 2010

O segredo da mulher descalça (2)


O narrador vem com as mãos molhadas e procura secá-las na camisa suada enquanto se senta de novo. Observa como a mulher se inclina para o barman e lhe dá uma ordem em tom decidido. Tem uma mão pousada no ombro do cego, o que parece acalmá-lo.
Então, meu caro, que sabe você do casalinho desavindo? Pergunta, num tom sussurrado, olhando o homem da pasta. O poeta chega-se à frente e apoia os cotovelos na mesa, secundando a pergunta do parceiro.
Além de ser secretário do Dr. Osvaldo há cinco anos, menos um do que os que leva de cegueira total, conheço toda a história dos dois. Triste, muito triste.
O narrador olha o casal com redobrada atenção. Vê-lhes as costas, estão inclinados sobre o balcão e conversam num tom que lhe é desconhecido quando pensa em casos de rotura amorosa. Não fora a alça rasgada do vestido da mulher e dir-se-ia que namoravam.
Parece terem feito as pazes, acrescenta o poeta com curiosidade mal disfarçada .
Procura constantemente temas que façam ponte para o diálogo com o homem. A ansiedade e angústia para conhecer toda a trama assim lho exigem.
Medeia, murmura o oriental de olhar fixo nas costas do casal.
Medeia, repete de rosto fixo, perante o espanto dos companheiros de mesa.
O narrador entrega-lhe uma cerveja fresca, enquanto sugere hesitante:
Isso é Sófocles, não? Tragédia grega…
Eurípedes, quatrocentos e trinta depois de Cristo, mas a história repete-se. Na vida destes dois, assim foi. Uma paixão que teve tanto de súbita como de avassaladora. A jovem universitária que há vinte anos se apaixona pelo mestre durante uma conferência, que abandona todos os projectos que tinha e o segue para Israel onde vão viver, num Kibutz. Ali trabalham, amam e vivem mil aventuras sonhadas. Têm dois filhos, gémeos, hoje adultos. São felizes, saboreiam o amor.
Os dois homens, sedentos de outras vidas, bebem as palavras que lhes chegam como um elixir milagroso.
Você conheceu-os lá? O jovem poeta anseia por mais.
Não, nesse tempo estava longe, terminava os meus estudos em Hong Kong. Esclarece em tom confidencial. Foi pouco depois de terem nascido os gémeos que tudo se passou numa vertigem: a paixão dele que fenece, a chegada da filha do chefe ao Kibutz e a sua rápida ligação com Osvaldo.
O narrador lança um olhar jornalístico ao casal no balcão, de costas voltado para eles, à procura de um detalhe que revelasse a sua história.
Ouve, a confirmação das piores previsões com a mulher a ficar sozinha, em terra estranha, responsável pelos gémeos, o homem a mudar de casa para ficar junto do Rabi do Kibutz e da filha.
Creusa? Interrogou o jovem.
Como? O secretário, distraído, não acompanhava o poeta.
Chamava-se Creusa, a filha do chefe?
Não, nem o pai Creonte. Agora sorri e acrescenta: mas, como um raio, sabe-se em todo o Kibutz que Ester, assim se chamava, estava grávida.
A traição deixou a mulher destroçada mas, nas palavras do secretário, determinada a tomar o destino nas mãos.
Vingou-se? Perguntou, atento, o poeta.
O secretário interrompe a narrativa e fica pensativo uns segundos. Não é a primeira vez que a questão se lhe põe, tem a resposta preparada.
Conhecendo-a como conheço hoje, não creio que tenha pensado nesses termos. A vida é que é muito ardilosa e ela sabia-o bem.
Conta-lhes como ela, numa manhã, algumas semanas depois, levou os filhos de jipe até ao deserto, num passeio habitual e que eles adoravam, fotografou-os e fotografou-se em mil brincadeiras com eles. As películas ficaram nas mochilas das crianças quando os deixou no infantário estatal. Saiu do Kibutz a pé.
Ninguém mais soube dela, nem mesmo aos filhos deixou qualquer outra mensagem que eles pudessem vir a conhecer. Alguém afirmou que a vira mais tarde perto de Beirute, outros na Síria, mas nada de concreto.
E foi nessa mesma tarde que Osvaldo deixou de ver, acrescentou.
Cego? Indaga, espantado, o narrador, enquanto prolonga o olhar até à rua. Repara nas janelas do prédio em frente onde se espelha, amarelado, o sol que agora se põe.
Assim, sem mais? Interroga o jovem poeta, incrédulo, enquanto acende um cigarro.
O homem confirma, acrescentando dados estranhos: a cegueira foi tão dramática pela sua súbita instalação como pela aceitação que Osvaldo manifestou, recusando ser visto por qualquer médico. Naquele dia e sempre.
Sentiu como um castigo, afirma o poeta, cada vez mais envolvido.
Como Jasão, acrescenta espantado. E Ester? Pergunta a medo.
Não suportou o embate, nunca entendeu a recusa dele em ser tratado. Separaram-se logo a seguir e foi viver com a filha para Tel Aviv.
As frases do secretário são disparadas com rapidez, enquanto olha atento o casal, há longos minutos em conversa confessional no balcão.
Está mais solto, agora que três novas cervejas vão refrescando as três bocas e a sua memória. Parece esperar a pergunta inevitável que o narrador jornalista tem quase a obrigação de fazer.
E você, como conheceu o seu patrão?
Conheci-o em Buenos Aires, por acaso, cerca de um ano depois de ter cegado.

06 fevereiro 2010

O segredo da mulher descalça



Vemos este homem e esta mulher juntos no final de uma sufocante tarde de Verão em Lisboa. Entram no Bar, primeiro ela, de vestido rasgado e um pé descalço, depois ele, com o sapato que pensa ser dela na mão.
Veste de forma irrepreensível, segue-a cambaleando, passa com dificuldade entre as mesas, parece hesitar, mas quer o perdão dela, o homem de quarenta anos, cego há cinco.
A mão que agora o impede de cair está agarrada ao balcão enquanto diz à mulher, ferida pelo seu amor, que ela cheira a Verão.

O narrador, sentado numa mesa junto à janela, observa um segundo homem que entra logo a seguir ao casal.
Troca um olhar de surpresa com o jovem poeta que está sentado há horas a seu lado.
Estão apaixonados, confidencia-lhe o poeta, segurando uma imperial meia vazia e já quente.
Conhece-os? O jovem abana a cabeça sem o olhar, vira-se agora também para a porta.
E aquele, quem será?
O segundo homem permanece de pé junto à porta, estático, ar oriental, cabelo de corte militar com tons aloirados, magro, com um fato escuro de péssimo corte que contrasta com o fato elegante do primeiro. Segura na mão direita a bengala do cego e tem uma pasta moderna presa por uma algema dourada ao pulso esquerdo.

O Bar está cheio, mas todas as conversas estão suspensas, com a maioria dos clientes a olharem fixamente a cena.
Em pouco tempo as vozes sobem de novo de tom e, progressivamente, apaga-se o silêncio.
O narrador termina a imperial num golo demorado inclinando a cabeça para trás e convida o segundo homem a sentar-se com eles à mesa.
Pede três imperiais e fazem espaço para se sentarem confortavelmente. O empregado pousa as imperiais na mesa, deixando um longo e não disfarçado olhar de curiosidade sobre o segundo homem. Sai depois para a esplanada.
O homem fala com um estranho sotaque. Nasceu em Macau, diz. É o secretário do primeiro homem e mantém uma espessa reserva sobre os acontecimentos.
O jovem poeta insiste no vestido rasgado, no pé descalço, mas o secretário olha o vazio com o rosto sem expressão. Abraça a pasta no colo com indisfarçável cuidado.
O narrador não retribui o silêncio do homem: identifica-se como jornalista, mas oculta os três casamentos e os filhos mal conhecidos. Fala duma ida a Macau, sem outra resposta senão o silêncio.
Quando se levanta para ir à casa de banho, o oriental parece ficar mais distendido com o poeta.
Olha com curiosidade o seu ar vagamente nórdico, fato de linho branco com sapatilhas azuis e, sobretudo, o relógio colorido no pulso direito. Indaga do conteúdo do saco de plástico pousado no chão e fica tranquilo com a resposta do jovem:
Livros, são poemas da minha autoria
Sabe, tudo isto vai ser ainda uma grande tragédia diz, inclinando o corpo sobre a mesa e olhando agora o poeta nos olhos
Ia continuar, mas a súbita chegada do narrador fá-lo calar-se de novo.
(continua)

30 janeiro 2010

Janelas para lugar nenhum (fim)


...Talvez a mulher não se lembre, mas em vindas anteriores, os olhos do homem eram pássaros coloridos, esvoaçando novidades, descobertas que fazia e de que falava sem cessar: a viagem bordejando a margem do rio, os petiscos comidos debaixo da latada, o trabalho enfim retomado para clientes que começavam a aparecer e dos filhos, finalmente, reconciliados. De tudo isto falava aquele homem agora esfíngico.
No verão passado, começou com frio. Veja lá, nós a querermos a casa fresca, a procurarmos a sombra e ele no quarto com dois aquecedores ligados. A princípio não liguei, depois comecei a estranhar, achei que estaria doente, levei-o ao centro de saúde. Não encontraram nada e ele fechado no quarto. Olhe que nem para fumar saía. Deixou quase por completo, sempre deitado, embrulhado num cobertor, “tenho frio, mulher, tenho frio”, era isto sempre. De repente, foi o comer. Começou a comer de dia e de noite como se fosse sempre de dia. Jantava às 7h, que nós somos de comer cedo, mesmo no verão; à meia-noite tomava o pequeno-almoço, o café e a carcaça, vá; às 3 ou 4 da manhã o caldo, o conduto e alguma fruta; às 8 da manhã era como se jantasse e por aí fora. Sem dormir como nós, isso é que me assustou. Deixou de dormir de todo, quer dizer, dormia uns bocados, mas começou a baralhar as horas todas.Já se esqueceu, a mulher, de tudo o que viveram depois da primeira operação. De como teve de o ajudar a fazer a paz com o corpo mutilado.
Foi a primeira vez que falou do inesquecível olhar que sentia quando chegava perto dele. Levou tempo, mas a vida entrou outra vez nos seus dias quando ele, sereno, lho trouxe de novo.
Um dia, pouco antes da festa da aldeia, o padre chamou-me. O pretexto era pedir para ele fazer um estrado de madeira. Fomos os dois, já se vê, eu quis mesmo porque era uma oportunidade de sermos aceites. Foi um desastre, uma vergonha. Comportou-se como uma criança: à frente do padre, enquanto falávamos sujou-se todo. Imagine, pelas pernas abaixo… o padre a fazer que não via nada, eu só pensava em desaparecer e terminar aquele momento gelado de qualquer forma.
Pensa que ele deu por isso? Qual nada, o mesmo ar apalermado e indiferente, trouxe-o pela mão e acabei a dar-lhe um banho. Depois meti-o na cama, fechei as portadas e chorei até de manhã
.
Falámos um dia do significado que o encontro com este homem tivera na vida dela. Dizia viver agora no meio do azul forte, depois de ter vivido a negrura da adolescência e no vazio branco do namoro com o irmão dele. Sentiu, mais tarde, ser, afinal, este cruzar de mãos e pele que procurava quando queria saltar para fora de tudo o que a tolhia e odiava: a aldeia fechada a mãe conformada e o pai brutal e alcoolizado.
Só tive um tempo feliz antes deste. Foi azul, mesmo azul, o último verão com a Inês.
A Inês foi a única pessoa, antes dele, que gostou de mim por eu ser quem era. Aprendemos juntas o riso doce da fruta no verão, corríamos pelo outeiro e nadávamos no rio até ao fim do dia, sem ninguém saber onde estávamos. Sonhávamos futuros à sombra da velha figueira perto do fundão. Quando ela teve de partir, foi uma tristeza tão escura que chegámos a falar em ir até lá e deixarmo-nos ir ao fundo juntas. Faltou-nos depois a coragem.
A sua voz carrega agora um cansaço amargo, que torna ásperas as palavras e inunda de desilusão o olhar que continua preso na janela suja.
Vamos voltar. Hoje faço-lhe um almoço especial, talvez tomemos um vinho e ele queira fumar um cigarro na porta da oficina. Os comprimidos não lhe têm melhorado a memória, continua a perguntar-me quem eu sou a cada hora que passa, mas trouxeram-lhe de novo a vontade do cigarro, o que é bom.
Está a chegar o tempo da limpeza das árvores. Vamos fazê-la os dois, depois quando nascer um dia bem azul, vou levá-lo pelo outeiro, mostro-lhe a figueira e, juntos, ficamos por lá.
Foto: C.

27 janeiro 2010

Janelas para lugar nenhum



A vida pode ser muito perra, digo-lhe eu. E digo isto agora, mesmo sabendo que no próximo mês é o aniversário da primeira operação. Fixa o olhar por cima do meu ombro na janela suja com o vidro estalado.
A mulher que assim fala, carrega um olhar baço e triste nos ombros frágeis. Conta do homem que traz pela mão como se ele ali não estivesse, como se a sua presença fosse o espesso vazio que lhe enche o peito.
Acordou de madrugada, noite ainda, vestiu-lhe o fato gasto, escovou a caspa dos ombros do casaco e sentou-o à mesa, na cozinha húmida, em frente a uma caneca de cevada quente.
Antes viu-o, como sempre nos últimos meses, deitado na cama a seu lado, olhos abertos, fixos no tecto de madeira. Parece-lhe desperto, mas duvida. Imóvel apenas. Não sabe quando dorme.
Lembro-me sempre dessa operação porque foi no começo do ano em que ele fez os cinquenta e dois, estávamos juntos há cinco. Pensávamos ter um filho nesse ano.



O toque do telefone não lhe perturba a fala, e nem o facto de me ver desligá-lo, sem atender, a leva a inflectir o tom.
Demoram sempre mais de duas horas para percorrer os trinta quilómetros que separam a casa onde moram desta sala, da secretária que agora nos liga e da janela suja que continua a fixar enquanto fala.

Diz-se perdida na vida que tem agora, na casa e na aldeia onde vive e, sobretudo, dos sonhos que tiveram no princípio.
A lonjura foi uma necessidade para construir um amor proibido e reprovado. Por isso tinham vindo para a aldeia. O mesmo lugar de onde ela tinha saído para casar um ano antes. Arranjaram a velha casa com as próprias mãos, pois ninguém lhes dera mais do que olhares curiosos.
Conta que quem agora observar a casa de fora, com a oficina de carpintaria anexa, de porta escancarada, chão forrado de aparas e serradura, pode sentir ainda o respirar dos sonhos que a habitaram.

Era um artista, sabe, um marceneiro de primeira, lá no norte tinha encomendas de gente a mais de 100 quilómetros, do Porto e tudo, um homem bom em tudo o que fazia, mas do que eu gostava mais era do olhar que me trazia quando eu entrava na oficina e ele, inclinado na bancada, se virava para mim. Era um brilho de estrela e depois, o cigarro ao canto da boca dava-lhe um tal ar… não resisti.


A carpintaria está agora ocupada com restos de móveis nunca acabados, serve de abrigo a dois velhos cães e tem uma tristeza negra a escorrer das paredes.
A mãe da mulher olhou-a por trás da sua janela, manhã cedo, quando ela saiu com o homem. Moram casa com casa e mal se falam. Nem a doença dele fez recuar o marido na decisão de afastar a filha. Vê-os a caminharem para a paragem da carreira e nota como parecem dois bêbados em fim de festa.

Ao menos a minha mãe pensei que entendesse e me ajudasse. Bem sei que eu voltava à aldeia acompanhada dum homem que era o irmão mais velho daquele com quem tinha saído para casar. Para mais, o falatório tinha vindo antes de nós, este era casado, tinha deixado a mulher e os filhos para viver com a noiva do irmão. E o irmão era como um filho para ele... Mas a gente não manda no coração, não é?


Na casa da mãe, o silêncio de chumbo amplia a solidão que ali habita. A velha mulher, quando os perde de vista na curva, senta-se, mergulha o pão seco no café e come devagar as sopas. A filha toda a vida fora diferente das outras, sempre de se isolar, muita leitura, muito passeio sozinha, nunca de se preocupar com empregos, com dinheiro, nada. Ajudava, contrariada, no campo e pouco mais. Apenas lhe conheceu uma amiga, a Inês, vivia com os avós, os pais estão emigrados. Tinha um defeito numa perna, coxeava, houve um tempo que não se largavam. Estará com os pais na Suiça.
Foi uma surpresa quando um dia a filha apareceu com um namorado. Assim, sem aviso. E para mais, com a decisão de ir para a terra dele e casar. Deu cabo do pai, já se sabe. E do resto, claro.


A doença quase nos deitou abaixo. Valeu-nos o riso dele, a força que punha quando me falava do que sonhava, parece que os olhos mudavam de cor, ficavam mais azuis. São bonitos aqueles olhos, mesmo agora que não dizem nada.
Quatro vezes operado. Depois da primeira, nunca acreditei que recuperasse. Ele, sim, tinha força e ficava mais forte ainda quando vinha aqui. Consigo sentia-se bem, dizia: "este olha para mim quando fala e deixa-me fumar." Confiava sempre no que lhe falava da doença, confiava muito. Agora já não sei, este golpe foi tão inesperado, fiquei à deriva.
Não se estranha o discurso feito no passado, referido a alguém que está vivo e, mais ainda, presente. A nossa estranheza não desponta porque esta presença é uma dolorosa visão dum ausente.


(continua)

14 outubro 2009

Vertigem

A tarde vai entrando na noite quando D.Arlete Caldeira abre suavemente a janela e deixa o ar morno da rua penetrar na pele e no quarto. Debruçada no parapeito, prende o cabelo, oferecendo o pescoço húmido ao vento, deixa o olhar doce percorrer com vagar a rua detendo-se na porta envidraçada do stand. Ventura Bolhão, latejando de calor e anseio, deixa à vista a placa do "volto já" e voa sobre o chão quente, indiferente ao trânsito e ao perigo. A porta aberta do prédio recebe-o como um convite e uma promessa. O ar fresco, que agora lhe toca o rosto, não enfraquece o ardor que o puxa para cima e que cresce ainda mais quando, ao toque combinado, sente a voz rouca:
- Ventura?
(Imagem aqui )

27 setembro 2009

Sonho (de silêncio)



Vejo muitos turistas vestindo camisas da Nazaré. Dum grupo deles, à varanda de um grande hotel de luxo, digo: como estão pobres os que deveriam frequentar esses lugares. Estou com uma família inglesa. Vestem fatos de teweed de cores admiráveis. Pergunto: is it hand woven? Estou sentada a uma mesa com os turistas, falo do canto dos pássaros. Digo: sei imitar muito bem o melro. Então surge à janela um pásssaro fulvo, ruivo, que identifico com um falcão mas que na verdade era um pequeno faisão. Chama, parece pedir qualquer coisa. Parece cansado duma viagem. Dou-lhe pedacinhos de pão, mas ele não come. Surge então um gato preto que se atira ao pássaro e o mata. Vejo o gato agarrá-lo pelo pescoço. Vejo o sangue dele. O gato vai comer o pássaro. Num restaurante onde parece que faltou a luz, uma senhora turista manda tirar de cima da mesa o maior número de coisas possível e diz: é preciso deixar espaço para o silêncio.

Ana Hatherly, ANACRUSA 68 sonhos, Cosmorama Edições
Pintura Eric Fischl

21 julho 2009

O mistério da Senhora


Tinham passado meses desde o meu último trabalho. A crise ia alastrando e chegava agora à investigação privada. Tudo o que eu fazia nestes dias resumia-se a levantar tarde, beber litradas de café e fumar por todos os poros. Isto como actividade diurna; à noite tinha retomado, com esforço, as aulas de Forró no Paladium, onde destilava toxinas e produzia aminas compensadoras.
Dizem que é nestas horas difíceis que se sente a crença de cada um.
A minha era escassa mas, depois do que me sucedeu neste início de Primavera, tudo está em aberto.
........
Naquele meu primeiro contacto com a imagem reversível de Nossa Senhora não houve um caso de amor à primeira vista. Acabava de fazer a rotineira entrada no escritório, só para ver se havia muitas facturas pendentes no meio da espessa poeira do lugar, quando reparei na estatueta pousada na secretária.
O olhar que a Senhora me devolveu não tinha a doçura quente da confiança, mas a opacidade branca duma limonada gelada em dia de inverno. Mesmo na obscuridade amarelada do espaço, a expressão atingiu-me com dureza.
Porém, foi a reversibilidade da peça o que alimentou em mim a esperança de que, se a olhasse dum outro ângulo, poderia sentir algo próximo da confortável paz das divindades.
Nada mais falso: o que surgia, ao rodá-la como um pião, era uma vulgar azinheira em cima da qual caíam flocos algodonados de uma nata esfarelada, imitando neve, sempre que agitávamos a imagem.
Revendo o rosto da Santa, entendi-a e, sobretudo, fez-se claro para mim como, com uma carga destas sobre os ombros, o quente olhar de mãe arrefecia e gelava da mais negra tristeza.
Quem e porquê a teriam posto ali?
Talvez peregrinos, fumadores por supuesto, já que o maço de Ducados, aberto ao lado da imagem, não deixava dúvidas. O cheiro acre, corrosivo, que dele se desprendia tinha-me tocado à entrada e tornava-se cada vez mais organizado nos meus sentidos. Era bem a Espanha toureira, morena, andaluza, que agora em mim habitava. Naquele cheiro preto, quente e ácido havia o calor da Meseta, a secura dos campos de miséria de Las Hurdes e o árido chão Granadino tingido pelo sangue de Lorca. Senti-o ao esfarelar um cigarro deste tabaco grosso e difícil de queimar.
Teria sido deixado junto à imagem reversível de Nossa Senhora por acaso? Haveria ligação entre os dois objectos?
A resposta poderia estar na brancura enigmática dum post it colado no tampo da mesa. Escrito nele seis vezes o algarismo seis a seguir a um indicativo internacional, facilmente identificado por mim, que trabalhei nisto toda a vida, como sendo o da gélida cidade de Akureyri, na Islândia.
Assim, deslizava lentamente para aquela sala uma brisa árctica que tornava mais sombrio o rosto da Senhora e menos saleroso o fumo negro que saía do Ducados que eu, entretanto, tinha acendido.

15 julho 2009

A Avó

Fechou o portão da cerca e prendeu a cancela com o arame ferrugento. Não se afastou logo… ficou ali parada, a olhar as cabras que se juntavam no bebedouro e sorviam toda a água que podiam, numa luta de encontrões em que as maiores tomavam a primazia.
A brisa trouxe-lhe o cheiro quente do restolho e sorriu enquanto o olhar se estende para a lonjura do horizonte, onde o sol se deita, lá para os lados de Messejana e, mais longe, Odemira.
O pensamento voa agora com o olhar e traz uma sombra ao rosto, enquanto o peito é inundado por uma a angústia sem nome.
Por entre a água que lhe humedece os olhos, é como se Rosa visse, naquele segundo antes de escurecer, o castelo onde vivera a infância, embrulhada nos contos mágicos e nas lendas fantasiosas da avó. E lembra:

“Vocemecê dá-me com a miúda em doida” ralhava a mãe quando a vinha buscar depois das semanas de ceifa em Ferreira.
“Não ligues, Vó… não te importes com o que diz a Mãe…” Amanhã venho para ouvir a história da Moira e do Toiro. Contas, pois contas, Vó?” - perguntava Rosa, os olhos abertos e o rosto colado ao da velhota, sentada junto ao lume.
“ Rosa, Rosa, deixa de dar à língua, cachopa!”. “Tu apanhas, tu apanhas!” - gritava a Mãe a arrastá-la de novo.
Pela noite, na cama minúscula, antes do sono chegar, Rosa recordava as palavras da Avó e todas as histórias já ouvidas. Contos de princesas, alcaides e castelos…
“Era um castelo como o nosso, Vó?” - interrompia Rosa.
“Maior, muito maior” - dizia a velhota com os olhos brilhantes…. “Com muralhas até ao céu…”

Agora, a escuridão já ocupou o céu e trouxe Rosa à realidade, tão longe da Avó. Falou ao gado, desejando boa noite, e caminhou para a casa térrea.
Tinha de encher a lamparina antes de entrar. Quando se instalaram ali, depois do casamento, Toino dissera-lhe que a luz não lhes faria falta,
“ Isso são manias que te ficaram da tua Avó.” respondera com brusquidão, quando ela fizera a sugestão de ter electricidade. “ gastos de rico, mordomias”…
“Pra cozer a roupa, homem, ou chegar-te alguma coisa que precises depois da deita…”
“Gastos de rico, te digo! Quem se deita antes do sol se pôr e se levanta quando começa o dia, não tem precisão… fantasias daquela velha".

Era bem verdade que a luz a lançar sombras nas paredes lhe trazia a lembrança das histórias aprendidas em casa da Maria do Pranto, sua Avó.
Mulher conhecida em todos os lugares da freguesia de Messejana e até mesmo em Aljustrel. Fazia benzeduras, tirava mau-olhado, mas sobretudo punha gente no mundo.
Tantas vezes, de noite, acordara com o povo a bater à porta da Avó:
“Oh da casa, Maria do Pranto…venha depressa, mulher…”. E ela corria aonde a chamavam.
“Não me canso de pôr gente no mundo, filha” - dizia sempre que ela lhe perguntava se não se importava de sair da cama a toda a hora.

Nunca me habituei à sua ausência - pensa Rosa, sentada na mesa da cozinha. Olha a chama do candeeiro e sorri às memórias… Uma vida carregada de perdas. O Pai… Não, o Pai não é perda; nunca o viu, então não é perda.
“Um Ganhão, sem eira nem beira” - dissera-lhe a Mãe das poucas vezes que quis saber do Pai. “ Nunca soube o destino que levou…”
A Avó fora sempre prudente nos comentários, dali nunca apurou nada…
“Uma peça, filha, aquilo era uma peça… e levou a tua Mãe no seu canto… Desgraçou-a, foi o que foi”…
Depois Rosa casou. Nasceram os filhos, ainda com ajuda das mãos da Avó, e a Mãe morreu logo a seguir. Talvez fosse tudo isso o que lhe apagou a vontade de saber do Pai.
É verdade que, por vezes, sentira muito a sua falta. Sobretudo quando, já sem a Avó, tivera de enfrentar sozinha o grande desafio da sua vida. Uma provação bem mais difícil do que era esta de ter os dois filhos na guerra, lá longe, numa África que só conhecia de nome e de dor.
Por mais duros que fossem estes tempos, não tinham o perigo que tivera de enfrentar, dentro de casa, naquele inverno que não quer lembrar.

08 julho 2009

O noviço

O fresco da madrugada afagou-lhe o rosto ainda ensonado, enquanto se esforçava por abrir a pesada porta de madeira.
Deslizou suavemente no estreito espaço entre o umbral e correu pelo caminho de terra que, através das vinhas do mosteiro, descia até ao pequeno riacho, agora quase seco.
Nascia mais um dia do Verão de 1561. Sebastião Vaz, depois de muito hesitar e após uma longa e dolorosa reflexão, decidira abandonar o lugar onde, aos 9 anos, fora deixado por sua mãe, Beatriz.
Ali vivera os últimos cinco anos, aprendendo a ser um homem de Deus, como lhe repetia, vezes sem conta, o seu confessor e mestre João Salovino.
Hoje seria a primeira vez que faltaria às Laudes. Embora a sua ausência fosse notada de imediato, sabia que só muito mais tarde o iriam procurar.
Ao primeiro toque do sino, os frades viriam até à capela e depois de fazerem os louvores da manhã, entrariam no refeitório. Esse seria o momento em que Mestre João notaria um lugar vazio. Antes, estaria absorvido demais para olhar à volta, pois aquela hora na capela era de elevação e êxtase: braços em cruz, joelhos na pedra, Mestre João conseguia ver Cristo.
Mil vezes lho disse: - “se fechares os olhos durante a oração, vás a ver-Lo, cerra os olhos e guarda Sebastion, ali está Ele, eu sei que non é um sonho” dizia, com os olhos congestionados e todos os músculos rígidos por baixo do hábito negro.
Ao princípio o som aragonês fazia rir Sebastião, distraindo-o do que o frade dizia. Depois, com a ajuda de alguns puxões de orelhas, desligou do linguajar e passou a ouvir com interesse, quantas vezes com espanto e sempre com devoção.
“O início do dia está siempre ligado à ressurreiçon” dizia grave, “ sei que é o Seu rosto que vejo a sorrir. Ele aparece para nos compensar de tanta entrega”.
E se observava espanto no olhar do seu discípulo, acrescentava com um olhar perdido: “ só quem acredita O verá, Sebastion”. "Reza, jejua, sacrifica-te e verás o Seu sorriso. Então, com o Seu olhar a guiar tu camino, verás como serás recompensado e chegarás junto d’Ele”.

Nas longas conversas que tinham,às perguntas que Sebastião fazia, das simples às mais rebuscadas, fosse a dúvida sobre o facto de os patos voarem em bando, ou onde faziam ninho as andorinhas no Inverno, até à dolorosa questão de saber onde residia a sua culpa ao sentir vontade de conhecer o corpo e os seus mistérios, a todas as questões Mestre João respondia com a mesma fórmula: ajoelhar, rezar e jejuar. "As respostas viron depois con Sua graça".

A necessidade de compreensão obcecava Sebastião desde criança. Aprendera da mãe as estações do ano, a cíclica transformação das árvores e o milagre das ovelhas e das suas crias. Recordava o olhar gélido que o mestre lhe lançava quando ele questionava a intervenção divina nestes acontecimentos.

Agora tinha de chegar rápido, e sem ser visto, ao pequeno riacho, que no Verão era um fiozinho de água, correndo até ao rio grande que ia para Coimbra.
“Cidade mui grande, de muchos sábios”, dissera-lhe num outro Verão o Mestre. “A tua mãe deve por lá andar em busca de teu pai”, acrescentou.
Durante muito tempo sentiu a necessidade de sair do mosteiro e procurar a mãe e o pai. Depois decidira interessar-se mais pela vida espiritual. Tinha o sonho de ser cumpridor e virtuoso, de forma a conseguir também ver as barbas de Cristo e o seu rosto anguloso a sorrir-lhe, como Mestre João.
Tomara essa decisão depois de saber que seu pai não era um erudito nem um religioso, como chegara a acreditar, mas um tal Belchior Vaz, o algoz de Coimbra.
Só de recordar que muitas noites tinha adormecido abafando as lágrimas por nunca ter sentido no rosto as mãos do pai, ficava arrepiado ao imaginá-las a fazer correr o laço de corda no pescoço dos hereges, como lhe tinham contado.
Custava-lhe entender como o confessor se empolgava ao elogiar esse mister. Para ele, tudo o que sentia era medo.

Idêntico pavor era o que lhe invadia ultimamente o peito, quando mestre João o obrigava a cumprir castigos cada vez mais exigentes, como forma de corrigir a sua busca duma razão clara para as coisas.

Finalmente chegou, ofegante, ao riacho. Alcançaria a outra margem sem dificuldade, embora ainda molhasse as sandálias de couro que um mercador de passagem no mosteiro lhe trocara por duas dúzias de ovos e um saco de avelãs.
Tinha agora de atravessar vários casais e terras, pertenças de lavradores que conhecia, frequentadores do mosteiro, onde pagavam tributos.
Queria afastar-se rapidamente destes lugares sem que o vissem. Precisava chegar à estrada grande antes do sol subir.
Não podia perder tempo se queria encontrar o que procurava.

02 julho 2009

O hipergato na Torre de Blablabel


Foi o ingato, na suprarealidade um prégato e, em hiperrigor, um subgato.
O que sei é que a hiperdoideira trazida pela superpresença deste interfelino levou a que no meu pós olhar surgissem sobrenuvens que, num misto de interpaixão e prófúria, trouxeram à minha omnimemória multirecordações de um sobretempo há muito esquecido.
Era, na triverdade que as excoisas têm, um supratempo, no omnifundo, uma intemporalidade que fizera com que eu, exAlbertino, prolanterna de hiperfogo, possuidor duma pentagordura que não era hiperformosura, me tivesse subitamente tornado numa subchávena, algo entre uma pentafreira e um pós padre.
Isto dizia-me o meu tricapanga, dono do vicecão e tetramaestro da intermáfia: isto será sempre assim enquanto andares animado em torno de recomputadores que contêm hipersegredos, mantidos em proesconderijos onde proliferam infraalfazemas, o que impede a superreal proliferação.

Pintura: Fred Einaudi

A troca de opiniões que se deu a propósito do Post da Clara "Felicidade" (vide Comentários), fez-me procurar num velho baú este schizotexto, algures entre Wolfson, Deleuze e a Praça Camões. Aqui fica.

24 junho 2009

Espelhos (II)

(...Tentava não pensar neste vizinho, mas a curiosidade era superior à sua vontade… “Maria do Carmo, Maria do Carmo, não tens já problemas que cheguem?” dizia baixinho, enquanto preparava o barco para sair ao moliço… “”só queria dizer bom dia” desculpava-se, “só um cumprimento”)
...Os latidos do cão mexiam-lhe com os nervos desde que ali chegara e Jorge levantou a questão no primeiro encontro que tivera com o responsável pela instalação.
Os amigos garantiram que não há risco desse lado - respondeu Amílcar com a secura que lhe era habitual quando questionado sobre questões que punham em causa, ainda que vagamente, as suas decisões. A segurança de Jorge Serpa depois da saída da prisão, enquanto era preparada a sua ida para o exterior, fora uma indicação “vinda de cima”, pelo que dúvidas sobre aspectos funcionais do plano era admitir a possibilidade de um erro.
Nos poucos momentos de contacto que tiveram, foi fácil a Jorge conhecer-lhe alguns tiques. A primeira impressão fora logo perturbada por dois aspectos, para si essenciais: o aperto de mão - o de Amílcar era mole e sem energia, apenas pousava a mão na mão de quem cumprimentava, sem o olhar nos olhos. Depois, o cabelo: Amílcar tinha o crânio coberto com uma espécie de peruca tipo ninho de pássaro, mas que numa observação mais atenta mostrava uma rebuscada forma de pentear comum a alguns calvos, trazendo o cabelo da têmpora esquerda até ao lado direito, cobrindo toda a cabeça. Ficava com um ar ridiculamente cómico que impedia Jorge de perceber o que ouvia, absorvido que ficava naquela enigmática obra de engenharia. Usava um tom de voz baixo, com as vogais ciciadas, o que indicava uma origem Beirã. Quando queria sublinhar alguma afirmação procurava a atenção do interlocutor lançando um olhar aguado por cima dos óculos de massa pretos.
Fica tranquilo, Serpa, disse-lhe de novo; segundo o Amigo, a moça vive só, confinada a este espaço, donde raramente sai. Foi expulsa da Vila desde que enganou o marido. Um escândalo no Natal passado, o homem a chegar de Angola ao fim de 4 anos de tropa e uma antiga namorada foi-lhe contar da aventura da mulher com o irmão mais novo dele. Tinham casado no Verão, por procuração . Como vês, é seguro, ninguém lhe fala, excepto o nosso contacto.
Estavam sentados na cozinha, a porta entreaberta deixando entrar a brisa do início da noite e, terminada a reunião habitual, Amílcar achara melhor voltar a este assunto para tranquilidade do companheiro.
Por várias razões, as questões envolvendo relações amorosas eram agora, para Jorge, temas onde estava pouco à vontade.
O tempo passado na prisão tornara-o inseguro em tudo o que se relacionasse com assuntos sentimentais. Tinha vivido dois anos sem qualquer espaço de intimidade. Uma restrição total de sentimentos, a obrigatoriedade de partilhar um espaço fechado com três homens que desconhecia e não escolhera para companhia. Odiava a sala / camarata, estar aí fora mais doloroso do que a própria perda de liberdade.
E havia a Fátima. No momento da prisão planeavam viver juntos. Depois, até ao julgamento, sentiu sempre a sua proximidade. Mais tarde, começara a dar aulas e não tinha dias para as deslocações. Nos últimos seis meses apenas tinha vindo vê-lo três vezes e sempre em visitas com mais gente, o que impedia a proximidade.
Depois falamos, Jorge. Quando saíres e tudo estiver mais calmo falamos.
Afinal, tinha a aguardá-lo cá fora não a Fátima, mas uma carta da Fátima entregue pela irmã dela a sua mãe. Na carta, que nem era longa, dizia ter concluído que não tinha estofo para o acompanhar.
Encenara vezes sem conta o que fariam no momento do reencontro. Alimentara a saudade e o frémito do desejo com o sonho dos braços dela e o que tinha a esperá-lo, além da carta, era uma reunião de família com frango frio e espumante para celebrar a sua chegada....

Fotografia Pedro G. Prata

18 junho 2009

Espelhos

O brilho do sol encandeou-a quando abriu a porta da cozinha e olhou o quintal.
Despertado pelo ruído, o cão correu para ela, latindo…
-“Quieto, Fiel. Quieto!” - exclamou rindo… “Chega-te pra lá, tens as patas com terra e vais sujar-me a saia!”.
Foi buscar a tigela com os restos do jantar e despejou-a no prato do cão.
- “Come devagar! Vais engasgar-te”- disse, rindo de novo.
Despejou o tacho com a água num canteiro e, depois de lhe pôr água limpa, sentou-se na soleira da porta com um pão seco e uma caneca de cevada nas mãos, beberricando e sentindo o calor que os primeiros raios de sol do dia lhe traziam à pele.
Chovera toda a noite e o vapor saído da terra molhada trazia um cheiro intenso a erva que gostava de sentir bem. Passados uns minutos, descalçou as socas e, com os pés nus, avançou pelo quintal pisando com gosto o chão humedecido.
Na extrema do terreno ficou de olhar perdido, saboreando o pão molhado no café e olhando a Ria que, como um espelho, lhe devolvia o brilho intenso do sol.
A casa ficava dentro duma pequena propriedade, numa minúscula península que, na margem direita da Ria, fazia a terra chegar até ao meio da água.
Mexeu os dedos dos pés, enterrando-os na lama, e fechou os olhos saboreando um prazer imenso que lhe vinha da pele aquecida pelo sol, espalhando-se
pelo corpo todo, e a levava a afundar os pés na terra molhada.
Ficou perdida neste sentir doce e só os latidos do cão a fizeram regressar.
Olhou-o desinteressada, pois sabia que o seu sinal não era mais do que uma saudação ao vizinho que passava de bicicleta no estreito caminho junto ao portão.
Não fosse o padre da Vila tê-la vindo avisar deste vizinho e teria ficado assustada quando começou a notar as suas idas e vindas.
Um engenheiro do Porto, a recuperar da morte da mulher - dissera-lhe o padre - pessoa muito séria, apenas quer sossego e não ser perturbado… acrescentou. não é preciso ajudar em nada. Ele tem amigos no Porto que, de vez em quando, o virão visitar. Às vezes ficarão um ou dois dias com ele. Tu, fica à distância Maria do Carmo… rematou.

Depois do acontecido na aldeia no final do Verão, que tinha forçado a sua vinda para aquele antigo palheiro, o Padre era a única pessoa que a visitava.
Era, sobretudo, um amigo mas nunca deixava de a querer trazer de volta "para o rebanho", como dizia para sua irritação.
Durante algum tempo ignorou a presença do enigmático vizinho e das suas idas e vindas, mas na última semana pensou por mais de uma vez atravessar-se no seu caminho e saudá-lo. Só para o ver melhor…
Parecera-lhe bem apessoado, alto, magro, da sua idade, sempre com o mesmo casaco de pescador e umas calças largas.
Via-o de manhã cedo, quando saía na bicicleta e, por vezes, perto da hora do almoço, quando voltava, caminhando e transportando uma cesta de compras apoiada no selim.
A pequena casa onde estava instalado não se via muito bem do terreno dela, nem de lado nenhum a não ser de dentro da Ria e uma vez espreitara subindo a uma nogueira, mas não observou nada de interesse. Com estranheza, reparou que todas as janelas estavam com as portadas fechadas. Notou que havia uma luz acesa na cozinha apesar de ser dia.
Tentava não pensar no homem, mas a curiosidade era superior à sua vontade… “Maria do Carmo, Maria do Carmo, não tens já problemas que cheguem?” dizia baixinho, enquanto preparava o barco para sair ao moliço… “”só queria dizer bom dia” desculpava-se, “só um cumprimento e ver bem o seu olhar”....


Fotografia Pedro G. Prata