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08 novembro 2012

Ondjaki, o mágico

(    ....  )    -  ainda me diz qual e a cor desse fogo

o Cego falou em direcção á mão do miúdo que lhe segurava o corpo pelo braço, os dois num medo de estarem quietos para não serem engolidos pelas enormes línguas de fogo que saiam do chão a perseguir o céu de Luanda

- se eu soubesse explicar a cor do fogo, mais-velho, eu era um poeta desses de falar poemas.
    com voz hipnotizada o VendedorDeConchas acompanhava as tendências da temperatura e guiava o Cego por entre caminhos mais ou menos seguros onde a agua jorrante dos canos rebentados fazia corredor para quem se atrevia a circular por entre a selva de labaredas que o vento açoitava

-  te peço, vê você que tens vistas abertas, eu estou sentir na pele, mas quero ainda imaginar na cor desse fogo
     O Cego parecia implorar numa voz habituada a dar mais ordens que caricias, o VendedorDeConchas sentiu que era falta de respeito não responder áquela duvida tão concreta que pedia, numa voz de carinho, uma simples informação cromática,
   embora difícil e talvez impossível 
  O miúdo puxou de dentro de si umas lagrimas quentes que o levassem até á infância porque era aí , nesse reino desprevenido de pensamentos, que uma resposta florida podia nascer, viva e fiel ao que via

- não me deixe morrer sem saber a cor dessa luz quente...
as labaredas gritavam com  força e mesmo quem fosse cego de ver devia sentir uma sensação amarela de invocar memórias, peixe grelhado com feijão de óleo de palma, um sol quente de praia ao meio dia, ou o dia em que o ácido da bateria lhe roubou a animação de ver o mundo

-   mais-velho, estou a esperar um voz de criança para lhe dar uma resposta  (.....) 

Ondjaki, Os Transparentes , Ed. Caminho, 2012

04 novembro 2012


.....Vitória era uma mulher tão poderosa como se um dia tivesse encontrado uma chave. Cuja porta, é verdade, havia anos se perdera. Mas, quando precisava, ela podia se pôr instantaneamente em contato com o velho poder. Já sem nomeá-lo, ela por dentro chamava de chave aquilo que sabia. Não se indagava mais o que tanto soubera; mas vivia disso.

Foi, pois, procurando o auxílio de tudo o que sabia que ela mais tarde olhou absorta o prato de comida que o homem esvaziara na cozinha. Tentou também imaginá-lo a instalar a porta do depósito de lenha. Ela lhe dera a porta do depósito, grande e estranho objeto a se dar. Como a vinda totalmente imprevisível do homem já tinha quebrado um certo círculo de ordem em que ela se movia como dentro de uma lei, com relutância foi obrigada pelo menos a reconhecer que alguma coisa sucedera, embora não soubesse dizer o quê. Então pensou, um pouco constrangida com seu próprio ato livre, e de algum modo curiosa: “é a primeira vez que dou uma porta a alguém”. O que a enraizou numa sensação sem saída. Era a segunda vez que o homem a perturbava....

(Clarice Lispector, A Maçã no Escuro)
Pintura Fernando Botero

22 outubro 2012

Não é Escritor Quem Quer



...e a minha mãe a tremer com mais força, assoando-se por engano à minha saia, não à dela   e, para ser honesta, até me agradou, operaram-me um peito, que se assoasse em mim, não vou para o estrangeiro, não vos deixo, as palmas na minha cara, o nariz quase encostado ao meu, os olhos, assim tão perto, só um, comigo curiosa, um peito

- É castanho ou preto?

o meu pai amansava o homem dos refrigerantes com uma garrafa, ambos sentados no degrau da cozinha onde se escutava o mar, o crucifixo no espelho retrovisor, abalado, dançaricava ainda, um peito e a axila, disfarço o soutien com um enchumaço que se desprende e eu a corrigi-lo, de cotovelo erguido, por cima da roupa, a minha mãe dois olhos de novo, castanhos, o meu irmão mais velho a examinar as ondas que de quando em quando se esquecem e recomeçam, culpadas

- Perdoem

para além dos arbustos, das casas, a anestesista, e eu nua e consciente que nua debaixo do lençol, não vou estender-me sobre isso

- É alérgica a alguma coisa?

não por senhora doutora, qualquer pessoa nua você, arrumei os búzios, comi uma bolacha que me soube a pó, teria podido conhecer a Tunísia e sacrifiquei-lhes a Tunísia, a ordem dos búzios errada na mesa e eu a trocá-los sem achar as posições, que eu saiba não sou alérgica a não ser, que eu saiba não sou alérgica, a minha mãe de feições ainda ao acaso....

António Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, 2012

Pintura de Mark Rothko, aqui

Entre uma sexta feira e o domingo seguinte, uma mulher de 52 anos, que teve um cancro da mama, perdeu um filho e vive um casamento falhado, despede-se da casa de praia da família, num longo adeus em que revive a infância, as amizades e os amores, num desconsolo sem fim, onde se cruzam personagens e vozes riquíssimas, como o irmão não surdo que vem louco da guerra, o pai que lhe chama sempre "menina," ou a mãe constantemente enraivecida com a vida. 
Por mim, reconciliei-me com A Lobo Antunes de quem andava distante desde o Fado Alexandrino e só lia as Crónicas. Este é um fantástico romance.

14 outubro 2012

Ian McEwan


Antes de ser um escritor, McEwan era um leitor apaixonado ( entrevista Ipsilon, 5 Out).
Informação preciosa para se entender o seu fascínio por conduzir o leitor em caminhos apaixonantes, numa leitura que se torna imparável.
A consciência que tem "dos inúmeros romances que todos começamos a ler e não acabamos" (Ipsilon), leva-o a ser capaz de uma clareza e de uma intensidade narrativa absolutamente únicas.
Um romance imperdível, pois.

23 agosto 2012

Excerto 2


"Guten Tag", digo a Herr Schroeder quando o encontro. "Tag", acena ele com a cabeça e sorri vagamente. Herr Schroeder é o nosso carteiro. Embora não fale com ele com muita frequência, é a única pessoa que vejo todos os dias
Herr Schroeder colecciona selos. "Guarde-me todos os que forem interessantes, sobretudo aqueles novos, croatas" diz ele. "Basta que mos deixe em cima da sua caixa do correio".
E eu deixo, quase amorosamente.
Herr Schroeder vem todos os dias exactamente às 10h,30. Da minha varanda do primeiro andar, monitorizo a sua pontualidade. Se sinto que há alguma hipótese de me ver - basta-lhe olhar para cima - delizo par trás da cortina. E sinto uma vaga excitação ao fazê-lo.
Assim que ele se vai embora, corro até ao rés-do-chão, para ver se há algum correio. Do cimo das escadas vejo logo, com inexplicável satisfação, que ele levou os selos que lhe deixei na véspera.
Aquela sequência - o movimento da minha mão segurando a cortina fina enquanto deslizo para trás dela para me esconder, baixando a cabeça, e um pouco mais tarde a nuca cinzenta de Herr Schroeder enquanto avança pelo caminho para a direita ( sempre para a direita!) - aquela sequência vem-me muitas vezes à cabeça, como se estivesse a vingar. É a medida integral da minha solidão berlinense.

Dubravka  Ugresic, O Museu da Rendição Incondicional, Ed. Cavalo de Ferro, 2011

Foto: Nathalie Mohadjer, Weimar Paradies


11 agosto 2012

Excerto 1


.....Mais ou menos a meio de Fevereiro de 1988, respondendo aos seus apelos implorantes, apanhei um avião para Munique onde ele por acaso estava por um período curto. Encontrei-o no átrio do Opera Hotel, sentado num cadeirão de vime entre ramos de orquídeas brancas e violeta, que caíam, em cascata, de jarras gigantescas. Quando me viu no átrio, levantou-se, avançámos na direcção um do outro como se estivéssemos num palco, cobrindo ao mesmo tempo uma distância muito superior à daqueles poucos passos. Íamos passar dois dias fechados num quarto de hotel, não nos tocaríamos, diríamos apenas as palavras mais essenciais. Ele olharia fixa e aborrecidamente para a televisão, sem perceber alemão, e eu iria de tempos a tempos para a varanda esfregar os meus dedos nervosos na pequena placa na balaustrada que, por uma razão qualquer, tinha gravado o número treze ( o secreto cenógrafo da vida arranjara aquela coincidência “kitsch”). Eu tomaria frequentes duches longos para ele não me ouvir chorar. Debaixo da água quente, sentiria uma agradável languidez molhada misturada com uma poderosa sensação de perda. Tomei várias vezes a decisão me levantar, chamar um táxi, pegar na mala, bater a porta e deixá-lo para sempre, mas fiquei, presa por um inultrapassável sentimento agridoce de infelicidade....

Dubravka Ugresic, O Museu da Rendição Incondicional, Cavalo de Ferro Editores 2011

29 junho 2011

Gonçalo M. Tavares

Mas não se aprende a ser sábio como se aprende
a resolver uma equação.
Nas duas aprendizagens exige-se atenção total, é certo,
mas há no caminho para a sabedoria mais obstáculos,
como se algures, deuses de voz rouca tivessem assumido o
                                                                  [compromisso
de não deixar a filosofia sensata
ocupar por completo os homens.
E talvez a causa seja puramente egoísta, pois se todos
                                                           [fossem sábios
quem precisaria de templos?

(Gonçalo M. Tavares,Uma Viagem à Índia, Ed Caminho, 2010)

Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2010

08 maio 2011

Roth

Nada fazia prever - principalmente porque Pegeen Mike Stapleford vivia como lésbica desde os vinte e três anos - que quando ela tivesse quarenta anos e Axler sessenta e cinco se tornassem amantes que se telefonariam todas as manhãs ao acordar e sofregamente passariam juntos o tempo livre em casa dele, onde, para gáudio dele, ela se apropriou de dois compartimentos para seu uso, um dos três quartos de dormir no primeiro andar para as roupas e o escritório do rés-do-chão, ao lado da sala de estar, para o portátil. Havia lareiras em todos os compartimentos do rés-do-chão, mesmo na cozinha, e quando Pegeen estava a trabalhar no escritório tinha sempre a lareira acesa. Vivia a pouco mais de uma hora de distância dali, percorrendo estradas de montanha sinuosas e onduladas, por entre campos de cultivo, que a traziam até à propriedade dele, vinte e dois hectares de campo aberto e uma grande e antiga casa de campo branca com portadas pretas, emoldurada por plátanos antigos e grandes freixos, e muros altos de pedra tosca. Não vivia ninguém, além deles, nas redondezas. Durante os primeiros meses raramente saíam da cama antes do meio-dia. Não conseguiam estar um sem o outro.
E no entanto, antes de ela chegar, ele tinha a certeza de estar acabado: acabado para o teatro, acabado para as mulheres, para as pessoas, definitivamente acabado para a felicidade. Estava há mais de um ano com graves problemas físicos, mal conseguindo dar dois passos ou estar muito tempo de pé ou sentado, por causa das dores da coluna que tinha conseguido suportar durante toda a idade adulta mas cuja evolução debilitante se tinha acelerado com a idade - e portanto tinha a certeza de que estava arrumado em todos os aspectos.

Philip Roth, A Humilhação, Ed. Dom Quixote, 2011
Pintura: Eric Fischl

10 abril 2011

Sobre a Fé


"Às oito da manhã, o padre Duncan, o padre Heriberto e o padre Luis começam a insuflar o templo, isto é, estão na orla de um rio ou numa clareira na selva ou numa aldeia qualquer quanto mais tropical melhor e, com a ajuda da bomba instalada no camião, começam a insuflar o templo enquanto os índios das redondezas os contemplam de longe e um pouco estupefactos porque o templo que a princípio era como uma bexiga esmagada começa a endireitar-se, arredondar-se, esponja-se, no alto aparecem as três janelinhas de plástico colorido que vêm a ser os vitrais do templo, e por fim salta uma cruz no ponto mais alto e já está, plop, hossana, soa a buzina do camião à falta de sino, os índios aproximam-se assombrados e respeitosos e o padre Duncan incita-os a entrar enquanto o padre Luis e o padre Heriberto os empurram para que não mudem de ideias, de maneira que a missa começa assim que o padre Heriberto instala a mesinha do altar e dois ou três adornos com muitas cores que portanto têm de ser extremamente santos, e o padre Duncan canta um cântico que os índios acham extremamente parecido com os balidos das suas cabras quando um puma anda perto, e tudo isto acontece numa atmosfera extremamente mística e uma nuvem de mosquitos atraídos pela novidade do templo, e dura até um indiozinho que se aborrece começar a brincar com a parede do templo, isto é crava-lhe um ferro apenas para ver como é aquilo que se insufla e obtém exactamente o contrário, o templo desinsufla precipitadamente e na confusão todo o mundo se atropela à procura da saída e o templo envolve-os, esmaga-os, abriga-os sem lhes fazer mal algum claro mas criando uma confusão nada propícia à doutrina, principalmente quando os índios têm ampla ocasião de ouvir a chuva de coños e caralhos que os padres Heriberto e Luis distribuem enquanto se debatem debaixo do templo à procura da saída".

Julio Cortazar, Papéis Inesperados, Ed. Cavalo de Ferro, 2010

Pintura: Antonio Berni

06 abril 2011

A essencialidade da escrita


...O comboio arrancou. Logo a seguir começaram a desfilar pelas janelas o relógio, o chefe da estação, o vulto de um velhote sacudindo uma lanterna, as sentinas HOMENS, SENHORAS; e, pronto, a luz recortou-se nas vidraças, correu por terrenos baldios.
"Vai assim o cabo". O revisor fez um gesto com os dedos a explicar a que ponto o outro ia encolhido. "Assim", disse ele. "A esta hora nem um feijão lhe cabe no rabo".
Foi assim, neste quadro, que o Oito-Correio partiu da estação de Pinhal Novo, levando na carruagem da cauda um revisor de terceira, um negociante e três correços sentados no banco fundeiro, conduzidos por uma escolta de seis praças e um cabo. E todos eles, passageiros e militares, iam envolvidos numa poeira pesada de fumo de tabaco e de luz bacienta, e todos gingavam os corpos aos solavancos da carruagem..."

José Cardoso Pires, Carta a Garcia in Jogos de Azar, Ed. Leya 2011

A escrita depurada de José Cardoso Pires transporta  o leitor  em viagens fascinantes.
A reedição da coletânea de contos Jogos de Azar coloca-nos nas mãos alguns dos melhores textos do género escritos no século XX em Portugal.
É uma escrita com fortíssimos traços cinematográficos, adoptando um ritmo e sequências narrativas vigorosas que nos prendem desde as primeiras linhas. 
Acresce a excelente Introdução (A Charrua entre os Corvos), onde Cardoso Pires, em 1963, defende a importância da abordagem literária de alguns fenómenos de exclusão social, traduzida na maioria destes contos sobre os  desocupados, "gente destituída de autoridade e, por isso, condenada a tropeçar a cada passo nos caprichos daqueles que a detêm como exclusivo".
A sua análise, apesar da linguagem cifrada dado o contexto em que foi escrita, não podia ser mais actual.

04 fevereiro 2011

Os Meses Anteriores


LUIS EDUARDO DE ABREU E LIMA RAMOS

Nasceu em Coimbra em 1950. Viveu a infância e juventude no Caramulo e depois em Aveiro.
É Engenheiro Químico e doutorado em Química. Enquanto estudante, fez parte da direcção-geral da Associação Académica de Coimbra (1970-1971) e da direcção da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (1972-1974). É actualmente professor do Instituto Piaget.
Tem visto algumas histórias curtas da sua autoria premiadas em diversos concursos (“Palavras”, RDP Antena 2, 1996; concurso “Semanas Portuguesas”, revista DNA, 2001; História Devida, RDP e Jornal “Público”, 2008, entre outras).
Esta é a sua primeira incursão na área do romance.

Este livro, "Os Meses Anteriores", será apresentado sábado, dia 5, na LIVRARIA MiNERVA, em Coimbra. pelas 17 horas.

Luís Ramos, grande amigo de juventude, faz parte do lado bom da vida, nas opções, na justeza dos princípios, no olhar bondoso mas firme, no entusiasmo.
Sendo um homem de ciência, sempre o vi atento aos acontecimentos da cultura e do desporto.

Estaremos lá, Luis, para te retribuir o abraço.


05 dezembro 2010

A magia dos dias

  

...Vivíamos então em Esposende numa pequena casa de praia que comprámos à senhoria, uma senhora não sei se dinamarquesa. Foram quatro anos em que escrevi muito e conheci dias bons com o mundo e comigo mesma. Minha filha estava no colégio interna, meu marido advogava no Porto e saía de tarde, voltando à noite, ficando eu e os gatos numa espécie de encantamento, a ouvir o suspiro do mar. Vinha à porta o carrinho da fruta, e a mulher que vendia dizia: " não sei como se dá nesta pasmaceira". Para ela toda a boa fruta era do Douro, inclusive as bananas. Não passava ninguém na rua, os tamarindos vergavam com o vento. A peixeira Cravelha ensinou-me a tirar a pele às azevias...

Agustina Bessa-Luis, O Livro de Agustina Bressa-Luis, Guerra e Paz, 2007
Música: Erik Satie, Gnossienne nº5 (Reinbert De Leeuw)
Foto: C.

04 dezembro 2010

A aprendizagem do medo


 Conheci o medo assim que dei por que existia. No entanto, adultos debruçavam-se, informando de que "um homem não tem medo".
"E se tiver?", perguntei.
"Nesse caso, não é um homem, é um cobarde".
Cobarde: esta palavra assustava-me, não fosse eu merecê-la. Ao que parece, abundavam na família exemplos de coragem. Tios robustos, socadores. Bisavós remotos, frenéticos de audácias variadas. E eu?
Uma manhã, cruzei-me com outros dois garotos. Inesperadamente, recebo nas feições um bochecho de água volumoso, que um dos rapazes sorvera sabe-se lá aonde. Fez isto e ficou na minha frente, a rir-se. Pensei: esta é a prova. Não encontrei em mim qualquer capacidade de agressão, paralisado que ficara com receio de chumbar, por muito que soubesso de cor o catecismo de como um homem age quando insultado. Pelo que retomei o meu caminho.
Deliberadamente não limpei a cara até chegar a casa. Fui direito ao primeiro espelho, e só pensava: "Sou um cobarde". Fui ver-me ao espelho. Percebo agora como era novíssimo, porque fiquei sinceramente estupefacto ao me reconhecer. Ao perceber que continuava a ser o mesmo. Bom. Cobarde? Porque não?
Depois tive uma outra discussão na praia com outro garoto mais novo mas  mais robusto.
"Prega dois selos se te atreves", disse-me ele. Pregar dois selos consistia em molhar os dedos médio e indicador com saliva, e esfregá-los no rosto do oponente. Era um insulto dos mais graves.
"E se eu não pregar dois selos?", perguntei.
"Então és um cobarde".
Fiquei imóvel. A gozar um sossego interior de maravilha, que se acentuou quando ele pregou dois selos na minha face direita.
"És um cobarde", disse o tipo.
"Eu sei que sou", disse eu. "E tu?" Lembro-me da calma maré baixa desse fim de tarde  como de algumas pequenas grandes coisas que vivi ( as ondas de encontro aos tornozelos, reboladinhas e suaves, como gatos às voltas com pernas de peixeira). Sem perder um átomo dessa paz total, molhei os meus dois dedos na língua com um vagar de ritual. Depois preguei na cara do rapaz, não dois selos, mas uma bofetada colossal. Também nunca mais esquecerei o espanto furioso, bolachudo, daquele rosto, no segundo decorrido entre a estalada e a multidão de socos que acertámos um no outro antes que um guarda fiscal nos separasse chamando-nos selvagens.
Este segundo incidente não veio estragar oa experiência do primeiro, sublinhou-a. Relembro-os ambos como um só passo dos primeiros que me foi dado dar na direcção da inteligência. O que me paralisara da primeira vez fora a dúvida absurda de ser ou não ser. A segunda experiência de confronto foi o que foi porque eu perdera o medo de ter medo. Dali em diante aceitei a possibilidade de ter medo como aceitaria muitas outras coisas naturais (...).

Nuno Bragança, O Tempo e o Modo, Revista de Pensamento e Acção - Antologia,
Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Nacional de Cultura pp. 140-1

Pintura de Gaugin

15 novembro 2010

A vida sonhada


O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça há um paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
Pintura: De Chirico

03 novembro 2010

A espera

Esperei trinta e cinco anos por este dia. Nunca o toque a finados me tinha alegrado tanto. O filho da puta morreu. Até já parecia que a morte se havia esquecido dele. Não que ele me tenha feito qualquer mal. Ele apenas casou, sem o saber, com a mulher que eu amava.
Estive na Guerra de 14-18 e fui dado como morto. Quando voltei, ela tinha casado e, durante estes anos, contentei-me em vê-la de longe, sabendo que ela esperava por mim, como eu esperava por ela. Vivíamos os dois à espera que ele morresse. Qualquer doença, por simples que fosse, uma constipação, uma gripe, um resfriado, uma tosse, fazia-me rejubilar de esperança. Quando sabia que ele estava doente, dizia para mim próprio: "Será que é desta?" Mas o filho da puta enganava sempre a morte.
O tanger do sino, hoje, apenas veio confirmar aquilo que eu já sabia. Levantei-me e fiz o que faço religiosamente desde há trinta e cinco anos. Abri a gaveta da cómoda para cheirar a rosa seca e delida que ela me ofereceu em tempos, com o compromisso de só casar comigo. Olhei e nem queria acreditar, a flor reverdescera, como se tivesse acabado de ser colhida. Tanto tempo que eu esperei por isto, pensei, sorrindo.
Talvez seja já um pouco tarde, mas a minha mãe dizia-me sempre: "Mais vale tarde do que nunca". Por isso, vesti o fato que tinha comprado havia muito tempo para me casar com ela, calcei os sapatos pretos, pus a gravata, penteei os cabelos e coloquei a rosa na lapela do casaco. Depois, saí de casa, com a certeza de que nessa noite ia dormir com ela.
E foi mesmo isso que aconteceu.

Joaquim Mestre, Breviário das Almas, Oficina do LIvro, 2009

14 agosto 2010

O Que Diz Bolaño


Antanho,os escritores de Espanha (e da América Latina) entravam no redondel público para o transgredir, para o reformar, para o queimar, para o revolucionar. Os escritores de Espanha (e da América Latina) procediam geralmente de famílias acomodadas, famílias estáveis ou de uma certa posição, e, ao tomar eles a pluma, voltavam-se, ou revoltavam-se, contra essa posição: escrever era renunciar, era renegar, às vezes era suicidar-se. Era ir contra a família. Hoje, os escritores de Espanha (e da América Latina) procedem em número cada vez mais alarmante de famílias de classe baixa, do proletariado e do lúmpem-proletariado, e o seu exercício mais usual da escrita é uma forma de escalar posições na pirâmide social, uma forma de se acomodarem tentando o mais possível não transgredir em nada. Não digo que não sejam cultos. São tão cultos como os de antes. Ou quase. Não digo que não sejam trabalhadores. São muito mais trabalhadores do que os de antes! Mas são, também muito mais vulgares. E comportam-se como empresários, ou como gangsters. E não renegam nada, ou apenas renegam o que se pode renegar, e cuidam muito de não criar inimigos, ou de os escolher entre os mais inermes. Não se suicidam por uma ideia, mas sim por loucura ou raiva. As portas,implacavelmente, abrem-se de par em par. E assim a literatura está como está. Tudo o que começa como comédia acaba indefectivelmente como comédia.

Roberto Bolaño, através da personagem Pere Ordoñes, in " Detectives Selvagens", teorema

31 julho 2010

Diálogos de Verão...


- Querida Bárbara, não seria bem tua amiga se não te pusesse ao corrente. Ele tem outra...
- O meu Arnaldo? Achas?
- Fatal como o destino

Mário de Carvalho, A Arte de Morrer Longe, Caminho, 2010
Foto: Diane Arbus

Um "cronovelema" centrado em Arnaldo e Bárbara, um casal em vias de separação, os donos de um cágado que os une, separa e arrasta para situações inesperadas e absolutamente surrealistas.
Mário de Carvalho dá-nos a conhecer uma galeria de personagens e situações apresentados com a ironia e sarcasmo em que é mestre, levando-nos numa aventura fascinante de vidas vazias numa cidade onde se acumulam solidões.
Não só Arnaldo e Bárbara, como a amiga Clarinda, a mãe de Arnaldo e o namorado polícia são personagens fascinantes com quem, talvez, nos cruzamos todos os dias.
Lê-se de um fôlego.

27 julho 2010

Quando o assentimento habita Matilde...

Às vezes as pessoas não entendem a forma como fala Matilde, mas a mim parece-me muito clara.
- O escritório vem às nove - diz-me - e por isso às oito e meia o meu apartamento sai-me e a escada resvala-me rapidamente porque com os problemas do transporte não é fácil que o escritório chegue a tempo. O autocarro, por exemplo, na esquina o ar está quase sempre vazio, a rua passa depressa porque eu a ajudo atirando-a para trás com os sapatos; por isso o tempo não tem de esperar por mim, chego sempre primeiro. Por fim, o pequeno almoço põe-se em fila para que o autocarro abra a boca, vê-se que gosta de nos saborear até ao último. Tal como o escritório, com aquela língua quadrada que vai subindo as sanduíches até ao segundo e ao terceiro andar.
- Ah - digo eu, que sou tão eloquente.
- Claro - diz Matilde, - os livros de contabilidade são o pior, mal me precato e já saíram da gaveta, a lapiseira salta-me para a mão e os números apressam-se a pôr-se debaixo dela, por mais devagar que escreva estão sempre ali e a lapiseira nunca lhes escapa. Dir-lhe-ei que tudo isso me cansa bastante, de maneira que acabo sempre por deixar que o elevador me agarre (e juro-lhe que não sou a única, muito pelo contrário), e apresso-me a ir para a noite que às vezes está muito longe e não quer vir. Menos mal que no café da esquina há sempre uma sanduíche que quer enfiar-se na minha mão, isso dá-me forças para não pensar que depois vou ser eu a sanduíche do autocarro. Quando o "living" da minha casa acaba de me empacotar e a roupa vai para os cabides e para as gavetas para deixar espaço para o roupão de veludo que tanto terá estado à minha espera, coitado, descubro que o jantar está a dizer qualquer coisa ao meu marido que se deixou prender pelo sofá e pelas notícias que saem como bandos de abutres do jornal. Em todo o caso o arroz ou a carne adiantaram-se  e só resta deixá-los entrar nas caçarolas, até que os pratos decidem apoderar-se de tudo embora isso pouco dure porque a comida acaba sempre por subir até às nossas bocas que entretanto se esvaziaram das palavras atraídas pelos ouvidos.
- É um dia em cheio - digo.
Matilde assente; é tão bondosa que o assentimento não tem qualquer dificuldade em habitá-la, em ser feliz quando está em Matilde.

Julio Cortázar, Papéis Inesperados, Cavalo de Ferro, 2010

A descoberta em 2006 de centenas de páginas inéditas de J.Cortázar possibilitou a publicação deste magnífico Papéis Inesperados. São quase quinhentas páginas de textos que vão do conto ao poema, de textos chamados "de emergência" a outros ditos inclassificáveis (Fundos de gaveta), que se lêm de forma quase compulsiva e onde transparece toda a genialidade do grande escritor. Uma excelente leitura de férias.