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26 janeiro 2010

Pandemias, medos e enganos

Quadro: String of Lies, Tad Lauritzen Wright

Não era necessário estar munido de grande informação (científica ou outra) para se ter sido mais cauteloso. Bastava bom senso, acrescido da dignidade ética de governar sem ser pelo ritmo da abertura dos telejornais.
O caso da chamada Pandemia de Gripe A/H1N1, agora em vias de esclarecimento, mostra à evidência duas coisas: a absoluta irresponsabilidade com que certa gente gasta o dinheiro de todos e a capacidade manipuladora que a comunicação social pode ter na sociedade actual, podendo ser (consciente ou inconscientemente) colocada ao serviço dos interesses mais obscuros.
Há neste processo objectivas cumplicidades: os governantes que precisavam ter visibilidade em período eleitoral - houve conferências de imprensa diárias no Ministério da Saúde para dizer apenas que nesse dia nao havia nada para dizer -, as cadeias noticiosas que necessitam vender notícias (mesmo que sejam não-notícias) e os pequenos e grandes beneficiários de toda a trama: desde os vendedores das máscaras, luvas, gel de limpeza e outros gadgets que hoje jazem, comprados e pagos, em arrecadações, até às multinacionais que facturaram os milhões que tinham planeado. Em todo este plano a criação dos "medos" é sempre a peça fundamental e, aí também, as agências noticiosas intrevêm com profundo conhecimento.
Dois textos noticiosos esclarecedores, um de Outubro de 2009 e o outro com 2 ou 3 dias.

Aos 45 milhões de euros gastos pelo Ministério da Saúde na compra de seis milhões de doses da vacina Pandremrix, produzida pela farmacêutica GlaxoSmithKline, juntam-se os 22,5 milhões de euros aplicados desde 2007 na aquisição do fármaco Oseltamivir (Tamiflu) à Roche. As contas são avançadas pela agência Lusa. Excluindo os custos indirectos, cujo apuramento será determinado pela progressão do vírus H1N1, o Estado já desembolsou mais de 67 milhões de euros.
Uma projecção elaborada pela Deloitte, com a colaboração da Intelligent Life Solutions, apontava, há cerca de três meses, para um impacto directo de 330 a 500 milhões de euros nos cofres do Estado. A previsão assenta nas quebras expectáveis em sede de IRS, nos descontos para a Segurança Social e nos subsídios de doença.
A estimativa da consultora aponta ainda para um recuo do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,3 a 0,45 por cento, levando em linha de conta o absentismo laboral. Em suma, a redução do PIB pode ir de 490 a 740 milhões de euros.
Vacinas chegam a Portugal a 20 de Outubro
O Ministério da Saúde havia previsto receber os primeiros lotes da vacina sintetizada pela GlaxoSmithKline na próxima segunda-feira. A entrega, adiantou uma fonte da farmacêutica citada pela Lusa, foi adiada para 20 de Outubro.
A campanha de vacinação contra a Gripe A vai estar em marcha a partir do dia 26. Numa primeira fase serão administradas 49 mil vacinas aos grupos considerados prioritários. Desde logo os profissionais de saúde que, "pela especialização e especificidade das suas funções", sejam "dificilmente substituíveis", na terminologia da tutela.
Quanto ao grupo das grávidas, as vacinas destinam-se às mulheres que se encontrem no segundo ou no terceiro trimestres de gestação e sofram de doenças graves associadas. O terceiro grupo prioritário abarca os trabalhadores que têm a cargo "actividades essenciais" em sectores como a distribuição de gás, electricidade, saneamento, segurança, comunicações e órgãos de comunicação social.
Empresas identificam "indispensáveis"
Várias entidades empresariais contactadas pela agência Lusa revelaram que já têm em prática os respectivos planos de contingência para a nova variante do vírus da gripe. Parte das empresas já fizeram chegar à Direcção-Geral da Saúde a lista de trabalhadores considerados prioritários no âmbito da campanha de vacinação.
Na TAP, por exemplo, existe um programa de vacinação "integrado no plano de contingência", enquanto a EPAL, responsável pelo abastecimento de água em Lisboa, dá prioridade a funcionários "afectos a áreas operacionais e técnicas".
O Metropolitano de Lisboa dispõe, por sua vez, de "reservas de material de protecção pessoal", designadamente "máscaras e medicamentos para os seus trabalhadores". A empresa garantiu ainda o "aprovisionamento de materiais de limpeza e de desinfecção, bem como o reforço da higiene e a limpeza nos locais de trabalho, zonas de acesso e circulação, balneários, instalações sanitárias e comboios".
Também o Ministério da Justiça indica que já definiu "os grupos assinalados para vacinação". No domínio da segurança, a PSP atribui a prioridade aos agentes com funções de atendimento ao público.
10/10/09, Aqui

O presidente da Comissão da Saúde da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, Wolfgang Wodarg, acusou esta segunda-feira a Organização Mundial de Saúde de conivência com a indústria farmacêutica e de ter obrigado os Governos a comprarem vacinas por causa do que considera ter sido a “falsa pandemia” da gripe A/H1N1. A correspondente da Antena 1 em Estrasburgo, jornalista Fernanda Gabriel, registou as críticas do responsável europeu.
25/10/2010, Aqui

Entretanto, dizem os engravatados, que não sei quê da despesa e que é preciso cortar nos gastos para termos a confiança dos da Europa que nos vão emprestando o que não temos.

10 maio 2009

Significados

"As concepções punitivas da doença têm uma longa história e são particularmente activas no caso do cancro. Trava-se um "combate" ou uma "cruzada" contra o cancro; o cancro é uma doença "assassina"; as pessoas que sofrem de cancro são "vítimas" de cancro. Ostensivamente, aponta-se a doença como um culpado. Mas é também o doente que se torna culpado. As bem aceites teorias psicológicas da doença atribuem ao infortunado doente a responsabilidade final, tanto pela sua doença como pela sua cura. E as convenções que querem que se trate o cancro não como uma mera doença, mas como um inimigo diabólico, tornam-no não apenas uma doença letal, mas também vergonhosa.
(...) Nada é mais repressivo do que atribuir um significado a uma doença - sendo tal significado invariavelmente moralista. Qualquer doença importante cujas causas sejam obscuras e se mostre rebelde a qualquer tratamento, tende a tornar-se objecto de um significado que a envolve. A principio, os aspectos que inspiram maior terror (corrupção, podridão, poluição, fraqueza) são identificados com a doença. (...). Depois, em nome da doença (ou seja, usando-a como metáfora) esse horror transmite-se a outras coisas. A doença passa a adjectivo.
Em francês, uma fachada degradada é ainda hoje qualificada de "lépreuse". As epidemias são uma figura comum para designar a desordem social. Em inglês, "pestilence" (peste bubónica) deu origem a "pestilent", que em sentido figurado, quer dizer (...) "prejudicial à religião, à moral, ou à paz pública"; e "pestilential" tem o significado de " moralmento funesto ou pernicioso".
Os sentimentos em relação ao mal projectam-se na doença. E a doença (enriquecida com tal significado) projecta-se no mundo."

Susan Sontag, in A Doença como Metáfora... Queztal Editores,1998
Pintura: Christina's World, Andrew Wyeth

17 abril 2009

O uso dos preservativos...

Creio que passou na RTP1 ou RTPN, não sei, em Janeiro. Lembro-me de ter pensado que me teria dado um jeitão este filme para abordar questões sobre a publicidade pedagógica, ou educativa, a criatividade como factor determinante de persuasão, etc. e tal.
É um excelente exemplo de simplicidade e eficácia, de 4:41 minutos imperdíveis. O filme faz parte de um conjunto de vídeos do Steps for the Future, cujo maior objectivo é o de educar e formar gentes em regiões afectadas pela pandemia do HIV. Esta curta-metragem de Orlando Mesquita foi galardoada com vários prémios, entre os quais:
Prémio Especial do Júri Festival de Cannes Júnior, 2002
Prémio Especial do Júri Internacional de Estudantes de BANFF para melhor programa infantil - Canadá 2002
Melhor Filme Africano no Apollo Film Festival d, S.A. 2002
Prémio Instituto Camões para a melhor Curta Metragem de Expressão Lusófona – Festival Internacional de Curtas Metragens de Évora – Histórias Comunitárias, Portugal, 2003.