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03 agosto 2012

(somos) escritos no tempo


"Um ramo fértil tem origem no livro:
a escrita e a leitura são tarefas inacabadas. Demoradas.
Uma linha atravessa o livro, reinventa-se em cada página
e transita para outros: como se de um mesmo livro se tratasse.
Uma linha imemorial que vem de trás e que nos ultrapassará.
Linha infinita que atravessa a História. Os autores contaminam-se.
As personagens, citações e ideias migram de uns livros para outros.
As leituras cruzam-se criando novos sentidos.
Abrem-se estradas, propõem-se passeios e deambulações.
O livro exige de nós tempo."

Tarefas Infinitas, Quando a Arte e o Livro se Ilimitam,
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

Imagem

02 agosto 2012

Com o Infinito nas mãos

"Abrir um livro é correr o risco de encontrar o infinito.
 Ter ao alcance da mão, nos limites da página, o sem-limites.
     E que de outro modo poderíamos nós encontrar o infinito senão no finito?
Mensurável, palpável, visível. Nesse espaço aberto e branco da página,
nas suas dobras, pode surgir o sem princípio, nem fim, nem centro: o Livro infinito.
Liberdade de leitura que é também desorientação: perdem-se as certezas e as referências habituais; os caminhos e os sentidos bifurcam-se; a noite cerca-nos.
Uma espécie de cegueira: o livro abre uma obscuridade essencial.
    A dos novos começos."

Tarefas Infinitas, Quando a Arte e o Livro se Ilimitam 
(Fundação Calouste Gulbenkian,o livro como lugar de uma expressão estética única).

Imagem: "Les Illuminations", Sonia Delaunay,1885-1979; Arthur Rimbaud, 1874-1891

11 junho 2010

Olhar


Olhar esta pintura de Darocha, de há tanto tempo, 1965, creio, e encontrar já os traços que nele são tão particulares, os brinquedos com que enche a tela, coisas que ninguém ousaria juntar.
Brinquedos que se simbolizam e nos interrogam, vivências pueris e sábias, mascotes, como quem vai à praia buscar conchinhas e as semeia no areal, feliz. Ao fundo, o farol da nossa juventude, a magia da luz no olhar da menina que centra o quadro.
E depois tudo voa, se sobrepõe, se transcende.

Vamos legendá-lo?
Eu sei que ele lê e aprecia muito.
Vá lá, eu começo: 
Um olhar, um farol.

19 abril 2010

A expressão das emoções


Em 1872, um ano depois de Proust nascer, Claude Monet exibiu uma tela intitulada Impressão: Nascer do Sol. O quadro representava o porto de Le Havre ao amanhecer, deixando entrever, através de um denso nevoeiro matinal e uma amálgama de pinceladas invulgarmente espessas, o contorno de uma orla marítima industrial, com um conjunto de guindastes, chaminés fumarentas, edifícios. A tela pareceu uma confusão desconcertante para a maioria das pessoas que a observaram e irritou particularmente os críticos da época que apelidaram pejorativamente o seu criador e o grupo disperso a que pertencia de “impressionistas”, referindo que o domínio que Monet tinha da vertente técnica da pintura era tão limitado que só conseguia produzir uma representação infantil, com muito poucas semelhanças com as verdadeiras manhãs de Le Havre.
O contraste com o julgamento feito, alguns anos depois, pela elite do mundo da arte, não podia ter sido maior. Afinal de contas, parecia que os Impressionistas não só sabiam usar o pincel, como a técnica que usavam era extraordinária para captar uma dimensão da realidade visual ignorada por contemporâneos menos talentosos.
O que poderia explicar uma reavaliação tão díspar? (…).
A resposta proustiana começa com a ideia de que todos temos o hábito de atribuir ao que sentimos uma forma de expressão que difere tanto da realidade e que, ainda assim, após algum tempo, acabamos por tomar como sendo a própria realidade.(...)
Se Monet é um herói neste contexto, é porque se libertou das representações tradicionais e, em certos aspectos, tradicionais do Le Havre, para se concentrar mais de perto nas suas próprias e incorruptas impressões da cena.
Numa homenagem aos pintores Impressionistas, Proust incluiu um deles no seu romance, o fictício Elstir, que partilha características com Renoir, Degas e Monet.(...) Nas paisagens de Elstir não existe demarcação entre o mar e o céu, o céu parece-se com o mar, o mar parece-se com o céu.(...)
Tal como Proust disse: a nossa vaidade, as nossas paixões, o nosso espírito de imitação, a nossa inteligência abstracta, os nossos hábitos estão em actividade há muito tempo e a tarefa da arte é desfazer essa actividade, fazendo-nos recuar na direcção de onde viemos para as profundezas onde o que existiu verdadeiramente permanece desconhecido dentro de nós.
E o que permanece desconhecido dentro de nós inclui coisas tão surpreendentes como navios que atravessam cidades, mares que não se distinguem momentaneamente dos céus e sentimentos intensos desencadeados pelo contacto de uma pele macia.

Alain De Botton, Como Proust pode mudar a sua vida, D.Quixote, 2009

22 dezembro 2009

Bom Natal


Com este lindíssimo postal enviado por Luís Darocha, um desenho expressivo, cheio de alegria e significado, como é hábito na sua pintura:
Um abraço a todos, o desejo de Paulo, C. e Clara de um Bom Natal, isto é , um bom renascimento.

05 dezembro 2009

E como seria... se uma casa sonhasse?



Parece que o conceito do 555 KUBIK project se baseou exactamente na ideia de responder a esta pergunta. No intuito de romper com as rígidas tradições da arquitectura alemã, a Urbanscreen, sob a direcção artística de Daniel Rossa, criou uma incrível projecção sobre a fachada do Kunsthalle de Hamburgo, na Alemanha. Conjugando a constituição do interior do próprio museu com gráficos e movimentos projectados em 3D, sobre a fachada, foi criado um efeito de transparência e reflexibilidade que descreve o espaço e nos leva a percepcioná-lo por meio do próprio edifício. Como se desvelasse a alma. Ou falasse do que sonha enquanto dorme e ninguém o vê.
Um must da capacidade criativa.

21 novembro 2009

O corpo como objecto de design

A criação artística tendo como tema e objecto a biotecnologia ou a utilização da investigação científica como expressão artística é o tema da exposição presente na Cordoaria Nacional, até 24 de Novembro - Inside (arte e ciência).
O tema tem ali algumas intervenções muito interessantes, como a de Leonel Moura: Criatividade Artificial; Miguel Chevalier: Flores Fractais ou Philip Ross: Plantas Cibernéticas, todas em torno da utilização dos avanços tecnológicos na criação artística.
Outras obras são, no mínimo, inquietantes, como a de Sterlac, defensor da ideia de que o corpo já não é só um espaço de expressão de ideias ou intervenção social, mas passou a ser também uma estrutura modificável ("the body not an object of desire but an object of designing"). É dentro deste conceito que surge a sua última obra, ainda inacabada, de criação duma terceira orelha no antebraço esquerdo. Quando terminada, esta orelha terá um equipamento que, por bluetooth, coloca na internet todos os sons por ela "ouvidos".


24 julho 2009

Prelúdio matinal

O criador da nova composição nas artes é um fora-da-lei até que ele seja um clássico.

Gertrude Stein

16 junho 2009

Encanto


A música é a única arte que nos causa uma profunda inquietude: donde vem "aquilo"? A técnica nada explica.
Um grande músico italiano,Puccini,deu a uma ária das suas óperas, a Tosca, o título: Recôndita Harmonia. Acertou em cheio. Deus nunca existiu, minha querida! São pesoas como eu e tu (desde que estudes até desfalecer) que dão um sentido à vida.
Sebastião Alba, in Albas




Recondita armonia
di belleze diverse!...E bruna Floria,
l'ardente amante mia.
E te, beltade ignota, cinta di chiome bionde!
Tu azzuro hai l'occhio, Tosca ha l'occhio nero!
L'arte nel suo mistero
le diverse belleze insiem confonde:
ma nel ritrar costei
il mio solo pensiero,
ah! il mio solo pensier, sei tu,
Tosca, sei tu!
(Luciano Pavarotti)

18 abril 2009

"...Com mãos tudo se faz e se desfaz..."

- Magia -

E quem dirá
- seja qual for o desencanto futuro -
que esquecemos a magia,
ou que pudemos atraiçoar
na terra amarga
a macieira,
a canção
e o ouro?

Thomas Wolfe

in Herberto Helder,Poesia Toda [As Magias, poemas mudados para português], Assírio & Alvim, 1990

06 março 2009

Figurações do olhar

In memoriam -Vieira da Silva, falecida a 6 de Março de 1992. Teria agora cem anos. A música é de Sérgio Assad.

Maria Helena não tem a simpatia pronta, por isso as entrevistas que dá embatem contra uma superfície lisa, um espelho onde tremem reflexos, onde se procuram teoremas. O repórter tenta desdobrá-la como um pano cuidadosamente enrolado, e sucedem-se os espaços neutros e, de certa maneira, as evasivas. Ela não confia nesse intuito de divulgação, porque o espírito humano não se divulga. A paz e o sofrimento não se divulgam; são fluidos depois de usados, e, no momento em que se praticam, não têm rosto e, assim, não se podem descrever.

Todas as vezes em que procurei Maria Helena porque eu estivesse doente, ou desanimada (como foi o caso, em 1965, de eu pensar em deixar o País), aí deparei com a verdadeira presença que não se distrai, não vagueia, não ilude. Maria Helena reage às coisas concretas e essenciais com uma prontidão admirável.
É raro que as pessoas tenham esse respeito pelo essencial. Costumam escapar ao essencial e ocupar-se pormenorizadamente do acessório. E a vida parece nelas um tumulto de confabulações e artes, sem nada de resistente ou de culto. Aproximamo-nos da Maria Helena e ela pode olhar-nos como se fôssemos um objecto mais ou menos preciso mas que não atrai a curiosidade nem o afecto. Mas se tocamos esse registo do essencial, se houver em nós um risco, um alarme, ela actua e torna-se de repente incansável; algo mais do que amizade e incorrupção da aliança humana surge, como uma flor.


Agustina Bessa-Luís
Longos Dias Têm Cem Anos - Presença de Vieira da Silva, INCM, 1ª edição,1982

05 março 2009

A sedução da cor

No vale do Omo, Etiópia, a 800 Kms de Adis Abeba, perto da fronteira com o Quénia, existe um dos locais mais selvagens do continente africano. Aí se encontram várias tribos - Surma, Mursi, Hamer e outras - em que homens, mulheres, crianças e velhos são verdadeiros génios na arte da decoração corporal. Durante seis anos, Hans Sylvester fotografou alguns desses extraordinários corpos–telas com cerca de dois metros de altura.

A força da sua arte está em três palavras: dedos, rapidez e liberdade. Desenham com as mãos espalmadas, a ponta das unhas, por vezes com um pedaço de madeira, uma cana, um caule partido. São gestos ágeis, rápidos, espontâneos, para além da infância, nesse movimento essencial que os grandes mestres contemporâneos procuram quando, depois de muito saberem, tentam esquecer tudo o que aprenderam. Pintam(-se) apenas pelo desejo de se decorarem, de seduzirem, de serem belos, em jogo e prazer permanentes.

(de uma recensão ao livro Les Peuples de l’Omo, tradução do marcas.)