Mostrar mensagens com a etiqueta Encontros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Encontros. Mostrar todas as mensagens

11 junho 2010

Olhar


Olhar esta pintura de Darocha, de há tanto tempo, 1965, creio, e encontrar já os traços que nele são tão particulares, os brinquedos com que enche a tela, coisas que ninguém ousaria juntar.
Brinquedos que se simbolizam e nos interrogam, vivências pueris e sábias, mascotes, como quem vai à praia buscar conchinhas e as semeia no areal, feliz. Ao fundo, o farol da nossa juventude, a magia da luz no olhar da menina que centra o quadro.
E depois tudo voa, se sobrepõe, se transcende.

Vamos legendá-lo?
Eu sei que ele lê e aprecia muito.
Vá lá, eu começo: 
Um olhar, um farol.

02 fevereiro 2010

O Caçador


É uma pessoa agradável, conhece bem um vinho, balança o copo com destreza, a ver o tom, a sentir o perfume, senta-se com elegância, pega bem nos talheres, não põe os cotovelos na mesa, sabe contar uma graça a propósito, levanta-se quando chega uma senhora, se for casada ou viúva saberá beijar-lhe a mão, aflorando simplesmente, usa bem um lenço de seda, talvez com o colarinho aberto, oscila entre a calça de bombazine com bota alentejana, ou prefere a fazenda .cinzenta e o blazer azul escuro,ah,, sim, os botões de metal, já me esquecia.
Sim, gosta de carros antigos, ou então do jipe, porque com os cães, quando há batidas, ou caçadas, já se sabe como é.
Eu vou olhando, comparando, os homens da minha terra são do mar, passeiam na avenida como se fora no convés de um navio, as mãos atrás das costas, boné na cabeça e um andar balanceado,
por causa da nortada.
Este não, pisa terra firme e tem olhar certeiro, na mira, cofiando o bigode retorcido.
À saída, veste a samarra com pele de uma belo animal.
-De que é essa gola, pergunto.
-De raposa.
E remata, orgulhoso:
-Fui eu que a matei.
Abre-me a porta do carro, solícito.


(imagem do Google, sem autor)

24 setembro 2009

Ah... e tal, queria assistir a uma sessão e calhou entrar.

Lobo Xavier, Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes juntos em iniciativa do PSD.
....
José Manuel Fernandes partilhou o jantar-debate com Pacheco Pereira (cabeça-de-lista do PSD por Santarém), António Lobo Xavier, Vasco Cunha, (líder distrital do PSD) e ainda com Isaura Morais, candidata da coligação que confessou no final do jantar a surpresa pela presença na mesa principal do director do Público, que não fez qualquer intervenção, limitando-se a seguir a discussão.
Aqui

Foto: Diane Arbus

24 junho 2009

Homenagem a Botticelli


O lenço branco na parede
pedra
esplendor em dança
vendaval em seda
aragem
do tempo pousado nos
gestos longos

O fogo lânguido por dentro
de si
como se um anjo cego
pintasse
cores escritas em carne
viva
na palavra de água
na dança imóvel
nas flores penduradas em
pássaros verdes

Meninas Botticelli com
vozes de silêncio
uma canção de veludo
luz e ouro na dança lenta
flutuantes tecidos
aparentes
transparentes

Lúcia diz Luz.

(pintura de Lúcia Maia)

06 maio 2009

Era uma vez...

*


imagem do Google

A história começa onde começa a vida a escrevê-la.
Sê bem-vinda, Catarina!

* Numa uma ocasião tão especial, a interpretação fabulosa de Nigel Kennedy para a Primavera, de Vivaldi.

16 abril 2009

Post para dois amigos

O poema do post anterior e a voz de Barbara, que se pode ouvir aqui, trouxeram a melancolia doce que têm alguns passos de dança. Porque o corpo e a voz são sempre feitos de vida que, no próprio gesto, são já saudade do que foi. Do que se ouviu. Voz e gesto são presenças sempre ausentes.
Em ambos - poema e voz -, o ritmo é de uma enorme beleza .

13 abril 2009

Momentos

- Dr., olhe pra mim. Olhe bem pra mim e diga-me que eu não estou a ficar cinzenta e… feia. Diga nos meus olhos se não lhe pareço uma moribunda a cair aos bocados…
- Não acho isso. Está emagrecida…
-
Não diga nada… Já nem a caixinha de pó de arroz e a sombra verde que ponho nos olhos conseguem disfarçar. Feia, feia é como me sinto…
- Não vejo isso no olhar do seu marido…
-
Hoje nem quis entrar, preferiu ficar na sala de espera… e inchada, é como me sinto. Olhe bem, pareço um peru antes do Natal… nada me serve, nem os sapatos. Veja, tive de vir de chinelos…
- São efeitos dos medicamentos. Vão passar e depois sente-se melhor…
-
… e o que é melhor? Diga-me! Melhor é não estar inchada e vomitar tudo, até a alma? Ou melhor é não vomitar, mas ter dores que me fazem querer nunca ter nascido? Ou melhor é ter cabelo? Quando chegamos a isto… de que estar “melhor” é ter uma coisa que qualquer um tem quando acorda de manhã… e depois, sabe, é fácil, é tão fácil falar e prometer que vai tudo melhorar… mas quanto tempo? … até quando vão as suas promessas desta vez?
- Bem sabe que é imprevisível….
-
Sabe o que me tem custado mais agora, o que é que me faz sentir pior? É a falta de ânimo… estou a perder o ânimo. Eu nunca fui bonita, a minha beleza era o ânimo, a alegria de viver.
Era isso o que transformava tudo. Fazia-me sentir bem, tinha força, conseguia coisas porque transformava aquilo que via em mim e o que queria que os outros também vissem… e foi assim que conquistei aquele padecente que está ali fora com as flores na mão…
M.J. 60 A

26 março 2009

Momentos

-"Ainda não me dou por vencido. Tenho lido umas coisas sobre esta doença... sei que há outras medicinas alternativas... até podem ajudar.

Pode ser que me safe desta ... também tenho tido cuidado com a alimentação, bebo uns chás...

Não me julgue mal por isto. Um gajo tem de tentar tudo, entende? E ninguém deve julgar ninguém ... não acha?

... e muito menos quem não está a passar por isto."

H.L. 42 anos

(C.M. trabalho não publicado)

22 março 2009

Momentos

- Sr. Romeu, temos de pensar em fazer um tratamento mais agressivo… Vai, talvez, debilitá-lo bastante.
- O Dr. é que sabe, mas eu sinto-me bem. As dores quase desapareceram… mas acha que as coisas estão más?
- ... Piores, sim. Os exames indicam progressão, séria… esta será a melhor forma de tentar travar. Mesmo assim, mesmo com uma maior agressividade, não é garantido que se ganhe muito, mas é a única possibilidade. Por isso acho que temos de tentar. Quer que conversemos com a sua mulher? Toda a ajuda é útil, serão momentos difíceis… Ela não tem vindo…?
- Não, é melhor não. A conversa, quero dizer. Não tem vindo comigo porque está “desmemoriada”, confunde-se muito, tenho de estar sempre de olho nela, às vezes vou buscá-la à rua ou os vizinhos trazem-na a casa… um pouco perdida, sabe… Tem alturas em que me cumprimenta de manhã e logo de seguida diz: “então, e tu, quem és?” não serve de nada conversar com ela… tive de pôr etiquetas em muitas coisas da casa, para ela as reconhecer… escondi a torradeira…
- Já da última vez que a vi aqui me pareceu estranha… nem perguntou pelas suas análises.
- É…fechou-se naquele mundo. Às vezes vem “cá”, parece de novo o que era antes…mas é muito rápido. Volta de novo àquele falar esquisito, repete palavras, coisas sem nexo. Por isso, Dr., não sei se estou preparado para os tratamentos… como vê, não a posso deixar sozinha. Agora mesmo, tive de pedir à minha irmã que lá ficasse um bocado, mas ela não tem muita paciência e tem a vida dela. Mas também, na sua opinião, o tratamento não vai adiantar muito…
- Atrasa a evolução, na nossa opinião. Ganham-se alguns meses…talvez
- Sim, mas fico sem poder tomar conta dela durante esse tempo...
- Provavelmente…
- Então, já vê…
- E os filhos… ajudam?
- O meu rapaz faleceu naquele acidente na auto-estrada há 2 anos, lembra-se? A minha filha está longe…, foram viver para a Austrália. Falamos uma vez por semana ao telefone. Antes dela ficar assim, entusiasmámo-nos e comprámos um computador para estarmos ligados, falar com os netos mais vezes…, mas agora tenho arranjado desculpas para que não fiquem preocupados por sentirem a Avó neste estado. Mas estou contente com a decisão deles, têm uma vida boa, muito melhor do que aqui. Pena é não estarmos juntos….
Bom, vou ter de dar uma desculpa para adiar a nossa ida lá, que estava prevista para o fim do ano… Por ela, percebe?
R.V.C. (à conversa em Março 09)