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28 agosto 2012

Quando a chuva passar...



amanhecer cinzento, chuva mansa de agosto...


 

 

09 agosto 2012

Férias, tempo de viagens




....Baudelaire venerava os devaneios de viagem como um emblema de nobreza dos espíritos inquietos, que descrevia como "poetas" jamais satisfeitos com os horizontes familiares por mais que pudessem apreciar os limites de outras terras, e cujo humor oscilava entre a esperança e o desespero...
...Por vezes [Baudelaire] sonhava ir a Lisboa. Aí faria mais calor e ele, estendido ao sol como um lagarto, ganharia novo vigor. Era uma cidade de de água, mármore e luz, propícia ao pensamento e à serenidade....

Alain de Botton, A Arte de Viajar, Ed. D. Quixote,2010
Foto: C.

07 agosto 2012

N 37º 2' 9,95'' ,W 8º 2' 28,85 '' (hoje - 20h 01m)




















...Por caminhos de cabras descias
à praia, o mar batia
naquelas pedras, naquelas sílabas.
Os olhos perdiam-se afogados
no clarão
do último ou do primeiro dia.

Era a perfeição.

Eugénio de Andrade

Foto: Paulo

13 agosto 2010

Hoje


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só p'ra mim

Sophia de Mello Breyner Andresen
Foto: C.

18 agosto 2009

Aquele Agosto


 
 
Chegávamos à aldeia pelo lado da Portela, o Fiat 1400 ziguezagueando na castanha estrada poeirenta a que chamávamos, cheias de contentamento, "a estrada de canela". O cheiro dos pinheiros e a cor da terra diziam-nos que estávamos quase a chegar a casa da avó.
- Já aí estão, António! É a Nina.O súbito reencontro das lembranças - a leira com a latada, o musgo seco a romper nos degraus graníticos da casa, tão grandes... tão altos, até ao patim; a imensa cozinha sombria, o forro proibido.
- E os coelhos, avó, não tens coelhos? Mãe, é este ano que podemos ir ao baile? E podemos ir com a Sãozita para casa dela?O motor da rega longínquo, a tossir, por entre os feijoeiros.

Agosto era o mês das festas, das feiras, do casamento das afilhadas e da animação à volta do coreto, quase em frente da igreja. Era o mês da doçaria nas bancadas da estrada - os sonhos, os beijinhos de mil cores, o doce da Teixeira de sabor a canela.
Mas naquele ano... naquele ano havíamos de pôr a tocar o rock'n roll. Os que vinham de mais longe, das cidades, já traziam outros ritmos no ouvido. Alguns vinham estrangeirados e tinham até revistas coloridas com cantores na capa.
 
Então, um dos mais afoitos pediu emprestado o pátio da casa ao primo Heitor, que era o dono do café e da mercearia. Outro tratou de arranjar “o som” e não sei quem mais chegou com uma mão cheia de LP’s e 45 rotações que haviam de pôr a rapaziada a dançar.

A tarde já ia a meio, pachorrenta e morna, com o sol por trás das casas, o carro dos bois chiando ao longe, as sombras acolhendo o mulherio à beira dos tanques, na sossega da lavoura.
- Ei, malta, o Pinto já chegou. Que é do som? Tragam o som! Ide buscar umas cadeiras e a mesa, ali para o canto. Temos de puxar o fio da electricidade aqui para baixo. E quem é que vai chamar as moças? Vão buscar as raparigas!Nessa tarde, o coreto havia de esperar.
Escolhemos os vestidos de flores azuis, desprendemos o cabelo e deixámos soquetes e laços, que ficavam melhor com os sapatos de fivela para a procissão de domingo. Aos poucos lá nos fomos juntando – os irmãos Pinto, a Estelinha e a Zé, eu e a minha irmã, o Fernando que viera com a madrinha, o Carlos da moto, todo vaidoso do exame do liceu que havia de fazê-lo “o senhor engenheiro Carlinhos”. Era uma animação.

Hoje, tudo parece ridículo – as danças ritmadas de cotovelo à cintura, o corpo bamboleante, as músicas meladas de olhares cruzados, desviados para o largo da igreja, ali em frente. O risinho miúdo das raparigas. As graçolas sonoras dos rapazes, folgazões.
- A próxima música é para mim, Estelinha! Ouviste, ó Carlos?
A memória é improvável, mas sei que lá pela quinta ou sexta música, uma madeixa de cabelo se colou à testa no calor da dança, e uma mão trémula a desviou dos olhos, brevíssima, inaugurando sorrisos.
Nesse agosto que não voltaríamos a repetir. A saída de uma longa infância era já ali.

10 junho 2009

Nós, Europeus

Que vergonha, rapazes
Que vergonha rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no "diz que"
e a desnalgar a fêmea ("Vist'? Viii!")

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar a quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(" O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!")
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr O'Neill! E ...as varizes?

Alexandre O'Neill (1924-1986)