Chegávamos à aldeia pelo lado da Portela, o Fiat 1400 ziguezagueando na castanha estrada poeirenta a que chamávamos, cheias de contentamento, "a estrada de canela". O cheiro dos pinheiros e a cor da terra diziam-nos que estávamos quase a chegar a casa da avó.
- Já aí estão, António! É a Nina.O súbito reencontro das lembranças - a leira com a latada, o musgo seco a romper nos degraus graníticos da casa, tão grandes... tão altos, até ao patim; a imensa cozinha sombria, o forro proibido.
- E os coelhos, avó, não tens coelhos? Mãe, é este ano que podemos ir ao baile? E podemos ir com a Sãozita para casa dela?O motor da rega longínquo, a tossir, por entre os feijoeiros.
Agosto era o mês das festas, das feiras, do casamento das afilhadas e da animação à volta do coreto, quase em frente da igreja. Era o mês da doçaria nas bancadas da estrada - os sonhos, os beijinhos de mil cores, o doce da Teixeira de sabor a canela.
Mas naquele ano... naquele ano havíamos de pôr a tocar o rock'n roll. Os que vinham de mais longe, das cidades, já traziam outros ritmos no ouvido. Alguns vinham estrangeirados e tinham até revistas coloridas com cantores na capa.
Então, um dos mais afoitos pediu emprestado o pátio da casa ao primo Heitor, que era o dono do café e da mercearia. Outro tratou de arranjar “o som” e não sei quem mais chegou com uma mão cheia de LP’s e 45 rotações que haviam de pôr a rapaziada a dançar.
A tarde já ia a meio, pachorrenta e morna, com o sol por trás das casas, o carro dos bois chiando ao longe, as sombras acolhendo o mulherio à beira dos tanques, na sossega da lavoura.
- Ei, malta, o Pinto já chegou. Que é do som? Tragam o som! Ide buscar umas cadeiras e a mesa, ali para o canto. Temos de puxar o fio da electricidade aqui para baixo. E quem é que vai chamar as moças? Vão buscar as raparigas!Nessa tarde, o coreto havia de esperar.
Escolhemos os vestidos de flores azuis, desprendemos o cabelo e deixámos soquetes e laços, que ficavam melhor com os sapatos de fivela para a procissão de domingo. Aos poucos lá nos fomos juntando – os irmãos Pinto, a Estelinha e a Zé, eu e a minha irmã, o Fernando que viera com a madrinha, o Carlos da moto, todo vaidoso do exame do liceu que havia de fazê-lo “o senhor engenheiro Carlinhos”. Era uma animação.
Hoje, tudo parece ridículo – as danças ritmadas de cotovelo à cintura, o corpo bamboleante, as músicas meladas de olhares cruzados, desviados para o largo da igreja, ali em frente. O risinho miúdo das raparigas. As graçolas sonoras dos rapazes, folgazões.
- A próxima música é para mim, Estelinha! Ouviste, ó Carlos?
A memória é improvável, mas sei que lá pela quinta ou sexta música, uma madeixa de cabelo se colou à testa no calor da dança, e uma mão trémula a desviou dos olhos, brevíssima, inaugurando sorrisos.
Nesse agosto que não voltaríamos a repetir. A saída de uma longa infância era já ali.