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30 maio 2010
12 maio 2010
Sobre difícil compreensão da (i)realidade
Todos nós começamos pelo "realismo ingénuo", isto é, a doutrina de que as coisas são o que parecem. Pensamos que a erva é verde, que as pedras são duras e que a neve é fria. Mas a física assegura-nos que a verdura da erva, a dureza das pedras e a frieza da neve não são a verdura da erva, a dureza das pedras e a frieza da neve que conhecemos pela nossa experiência, mas algo de muito diferente.
Bertrand Russell, An Inquiry into Meaning and Truth
Foto: Microcosm, Miao Xiaochun
21 fevereiro 2010
Das coisas da Natureza ou da natureza das coisas
Quando surgem cataclismos como o que ocorreu na Madeira, e que nos deixam sem palavras, chego a pensar que a Natureza se revolta em formas catastróficas de aviso. Bem sei que o retrocesso é impossível e que o futuro do homem é sempre o de um tempo a haver. Mas interrogo-me: que tempo será?
E só me vem à memória o Caeiro - natural, antimetafísico, simples como um girassol.
Ah querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes! Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol,
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais flores que estas flores –
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
Aquela coisa que está ali estava mais ali que ali está!
Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe.
Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia de quem vê pouco,
E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé.
Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.
E como a alma é aquilo que não aparece,
A alma mais perfeita é aquela que não apareça nunca —
A alma que está feita com o corpo
O absoluto corpo das coisas,
A existência absolutamente real sem sombras nem erros
A coincidência exacta (e inteira) de uma coisa consigo mesma.
Poesia de Alberto Caeiro, Colecção: "Obras de Fernando Pessoa", Assírio & Alvim, 2009.
21 janeiro 2010
Sobreviveremos?

Amamos porque somos uma espécie que nutre os filhos. A união sexual pode ser aleatória, tal como a dispersão do fruto dessa união. Muitas espécies que se reproduzem sexualmente põem os ovos e abandonam-nos, fundando a sua posteridade no acaso, na sorte, na contingência e no excesso de produção. No entanto a assistência paterna aos filhos tem as suas vantagens. Os pais podem proteger os filhos, dar-lhes o alimento que estes não são capazes de obter sozinhos, reservar território num mundo de território escasso e transmitir aos filhos uma série de conhecimentos, incluindo coisas que não devem fazer pois os animais jovens aprendem observando as trapalhadas dos mais velhos, tal como aprendem observando os seus sucessos. O comportamento paternal tem tantos aspectos positivos que pode ser encontrado em todo o espectro filogenético, entre os peixes e os insectos, bem como entre os peixes e os mamíferos, estes famosos por serem paternais.
Diz Cort Pedersen, da Universidade da Carolina do Norte A protecção paterna sustentada e a criação dos filhos até estes serem capazes de tomarem conta de si mesmos deram origem a uma taxa de sobrevivência muito mais elevada e proporcionaram um período de desenvolvimento cerebral muito mais longo. Os cuidados paternos foram, portanto, um pré - requisito para a evolução da inteligência superior. As espécies que tomam conta dos filhos têm vindo a dominar todos os nichos ecológicos que habitam. (...)
Um progenitor, uma mãe tem de se sentir ligada aos filhos, os quais, por sua vez, têm de sentir-se ligados à mãe, e o corpo e cérebro de uma espécie que nutre os filhos têm de saber amar e ser amados.
Natalie Angier, in Mulher, Uma Geografia Íntima, Gradiva 2001
Diz Cort Pedersen, da Universidade da Carolina do Norte A protecção paterna sustentada e a criação dos filhos até estes serem capazes de tomarem conta de si mesmos deram origem a uma taxa de sobrevivência muito mais elevada e proporcionaram um período de desenvolvimento cerebral muito mais longo. Os cuidados paternos foram, portanto, um pré - requisito para a evolução da inteligência superior. As espécies que tomam conta dos filhos têm vindo a dominar todos os nichos ecológicos que habitam. (...)
Um progenitor, uma mãe tem de se sentir ligada aos filhos, os quais, por sua vez, têm de sentir-se ligados à mãe, e o corpo e cérebro de uma espécie que nutre os filhos têm de saber amar e ser amados.
Natalie Angier, in Mulher, Uma Geografia Íntima, Gradiva 2001
(no texto paterno ou paternal tem, quanto a mim, o significado de parental, Paulo).
Esta a teoria. Parte do estudo dos biólogos, como a Autora, a que juntam conceitos vindos da antropologia e da sociologia, para obter uma caracterização científica da nossa espécie.
Esta a teoria. Parte do estudo dos biólogos, como a Autora, a que juntam conceitos vindos da antropologia e da sociologia, para obter uma caracterização científica da nossa espécie.
Um grupo, os Humanos, que se terá tornado dominante porque pensa, comunica e, sobretudo, ama. Segundo parece desde que nasce.
Como integrar hoje nesta marca de amor da espécie humana, inerente a partir do seu núcleo primordial, uma marca de onde vem a sua energia vital, como se pode considerar ser seu o desprezo crescente dos filhos pelos pais que deixam abandonados nos hospitais ou nos asilos, ou as brutais agressões a que são sujeitas algumas crianças por parte dos próprios pais, muitas vezes até lhes tirarem a vida, ou mesmo os genocídios em massa que fazemos uns aos outros, humanos como nós, também eles filhos e pais, mas com cor, ideias ou sonhos diferentes.
Não há ciência que explique.
Como integrar hoje nesta marca de amor da espécie humana, inerente a partir do seu núcleo primordial, uma marca de onde vem a sua energia vital, como se pode considerar ser seu o desprezo crescente dos filhos pelos pais que deixam abandonados nos hospitais ou nos asilos, ou as brutais agressões a que são sujeitas algumas crianças por parte dos próprios pais, muitas vezes até lhes tirarem a vida, ou mesmo os genocídios em massa que fazemos uns aos outros, humanos como nós, também eles filhos e pais, mas com cor, ideias ou sonhos diferentes.
Não há ciência que explique.
12 janeiro 2010
A modernidade e os equívocos
... Aceder assim a tão poderoso e antigo edifício simbólico (o casamento) pode parecer uma revolução, mas é uma revolução conservadora. Todos nos devemos regozijar com a resolução de problemas práticos e legais. Mas é preciso não esquecer que integrar a ordem do discurso a que pertencem as representações sociais do casamento significa uma submissão à linguagem que sempre procedeu pela violência e pelo poder discursivo de impor uma definição de homossexual.António Guerreiro, in Actual, suplemento do Expresso, 09/01/2010
29 outubro 2009
os medos, a dor e os outros
"...Os nossos antepassados, habituados a sentir medo dos ursos e das cascavéis, demoraram tanto ou mais tempo do que o que levou a invenção da matemática a perceber que a felicidade ou a infelicidade também podiam brotar das suas entranhas e não apenas do universo que os rodeava. À força de experimentarem sensações parecidas mas desencadeadas por estímulos diferentes, como um leão ou uma aranha, acabaram por reparar nas semelhanças e deduzir que sentiam o mesmo. No preciso momento em que um deles deu conta que a repentina aceleração do ritmo cardíaco era disparado por acontecimentos tão diferentes como a vertigem ao deparar com um precipício, a falta de respiração ao mergulhar uma e outra vez, exausto, para alcançar a outra margem do rio, ou as ameaças por um grupo de canibais pintados de vermelho; no preciso momento em que a diversidade mostra o seu denominador comum e, mediante um processo de abstracção,descobre-se o conceito que a define, nasce, sem querer, no interior do homem primitivo a consciência da emoção do pânico.
O que aqui foi resumido em poucas linhas demorou milhares de anos a acontecer.(...)
O que aqui foi resumido em poucas linhas demorou milhares de anos a acontecer.(...)
Se bem que as comparações sejam sempre odiosas, em termos emocionais estamos na fase equivalente ao número 2 na evolução da matemática; isto é, na pré - história. Continuamos a pensar que a felicidade ou infelicidade são induzidas pelas emoções desencadeadas pelos outros, por medos provocados pelo trabalho, pela segurança dada por uns bons estudos ou pelo dinheiro. Continuamos a acreditar que tanto a fonte da felicidade como a da desgraça depende de outros ou do resto da matilha. "
Eduardo Punset, in Viagem à Felicidade, D. Quixote, 2008
Foto: Gregory Crewdson
Eduardo Punset, in Viagem à Felicidade, D. Quixote, 2008
Foto: Gregory Crewdson
10 outubro 2009
26 setembro 2009
Escolher é sempre excluir
At night, when all the worlds asleep,
The questions run so deep
For such a simple man.
( ... )
Won't you please, please tell me what we've learned
23 setembro 2009
Entre nós e as palavras há metal fundente
*
Não, não me devias ter mentido acerca do mundo – (e eu, que só queria acreditar em tudo o que dizias.)
Devias ter-me ensinado a inclinação perfeita do gume, ter-me treinado no golpe contido e certeiro nas asas das vespas (os brinquedos eram de madeira, seriam perfeitos).
Devias ter insistido comigo no ajuste das receitas: metade mel, metade cicuta. Aprenderia a arder um fósforo na falange, sem gemidos, sem vacilação das pálpebras, sem paixão.
Em vez da lógica de todas as demências, em vez da geografia dos êxitos, em vez da fuga aprazada, ensinaste-me a dormir sobre a consolção da alma, esse interstício insaciavelmente obscuro.
Devias ter-me dito a verdade acerca do choro dos homens e do riso das bestas. Sempre achei incrível como os cães podiam sorrir às ameaças dos donos. Nunca acreditaste que isso era possível. E ensinaste-me que nunca se jura sobre o que não se sabe. Mas juravas pelos anjos e arcanjos das pagelas e santinhos que havia uma bondade natural no coração dos homens.
Não, não me devias ter mentido sobre o mundo. Eu teria aprendido a desconfiar da minha própria condição de humano e não seria incauto viajante ou obstinado pescador de estrelas. Devias ter-me dito a verdade: que ninguém escapa, ninguém escapa à sedução da posse da palavra soberana. Que ninguém avisa da vilania e que ninguém... ninguém tem o coração puro.
Devias ter-me dito: a alma é um intestino que se enche - nuns dias frango gourmet noutros paté e vinho maduro; e o mais é trabalho de fotógrafo em dias de feira. Devias ter-me dito, eu ia perceber tudo. Eu tinha os olhos sempre acesos noite dentro, como se ela trouxesse a verdade insofismável da brancura.
O que me devias ter ensinado – hoje sei – é do silêncio dos livros e do labor das rosas.
E eu apenas venho aprendendo a morrer esse amor.
Título: transcrição do primeiro verso do poema You are welcome to Elsinore, de Mário Cesariny
* Nick Cave & Warren Ellis - The Road, do álbum White Lunar, 2009
25 maio 2009
O fascínio da mente
"Os gémeos estavam sentados, juntos, a um canto, com um sorriso misterioso e secreto no rosto, um sorriso que nunca tinha visto. Gozavam um prazer e uma paz estranhos e inéditos neles. Aproximei-me com cuidado para não os perturbar. Pareciam estar isolados numa conversa singular, puramente numérica. John dizia um número de seis dígitos e Michael "apanhava-o", acenava, sorria e parecia saboreá-lo. Depois Michael"recebia-o" e apreciava-o profundamente. Pareciam, à primeira vista, apreciadores de vinho, partilhando sabores e aromas raros. Sentei-me, imóvel, sem que me vissem. Estava hipnotizado desconcertado. O que estariam a fazer? Não conseguia perceber. Talvez fosse uma espécie de jogo, mas tinha uma intensidade, uma gravidade, serenas e meditativas, quase sagradas, que nunca tinha visto em jogo nenhum e que, de certeza, nunca vira nos gémeos, normalmente tão agitados e distraídos. (...) Logo que cheguei a casa, peguei nas tabelas de potências, factores, logaritmos e números primos (...). Já tinha um palpite e confirmei-o : todos os números de seis dígitos que os gémeos tinha trocado entre si eram números primos, isto é, números só divisíveis por eles próprios e por um. Regressei à enfermaria no dia seguinte, com o meu precioso livro de números primos. Voltei a encontrá-los, isolados na sua comunhão numérica, mas desta vez sem dizer nada, juntei-me calmamente a eles.(...) Afastaram-se ligeiramente para fazer espaço para mim, um novo companheiro de jogos numéricos, um terceiro no seu mundo. Então John, que tomava sempre a dianteira, pensou durante muito tempo - pelo menos cinco minutos durante os quais não me mexi e mal respirei - e disse um primeiro número de nove dígitos; depois de pensar outros cinco minutos, Michael respondeu. Eu, depois de uma olhadela sub-reptícia ao livro, acrescentei a minha contribuição, um número de dez dígitos.
O silêncio e a surpresa duraram ainda mais tempo e então, John, após uma prodigosa contemplação interna, disse um número de doze dígitos. Não tinha maneira de confirmar se o número era primo ou não, porque o meu livro - que tanto quanto sei é único no género - não ia além dos números de dez dígitos. Mas Michael não se atrapalhou, embora tenha demorado outros cinco minutos.
Uma hora depois, os gémeos trocavam números primos de vinte dígitos..."
Oliver Sacks, in O homem que confundiu a mulher com um chapéu, Relógio d'Água 2002
Uma notável obra de divulgação sobre algumas alterações da mente, geralmente rotuladas como anomalias e aqui apresentadas duma forma fascinante por quem as estuda e sente a intensa maravilha que a mente contém.
13 maio 2009
O que poderíamos ter sido?
Sir Ken Robinson, especialista em criatividade, desafia a forma como temos vindo a educar as nossas crianças. Os seus trabalhos são mundialmente conhecidos e esta temática tem sido objecto de reflexão nos vários livros que tem publicado.
Quanto aos vídeos, apesar de o segundo ser mais explicativo, carece da introdução feita no primeiro, onde Robinson justifica a importância da criatividade. Bem inspirado e com humor inteligente. A tradução não é das melhores mas...
E estaremos mesmo a impedir a flor de crescer?
Quanto aos vídeos, apesar de o segundo ser mais explicativo, carece da introdução feita no primeiro, onde Robinson justifica a importância da criatividade. Bem inspirado e com humor inteligente. A tradução não é das melhores mas...
E estaremos mesmo a impedir a flor de crescer?
05 março 2009
A justiça... cega(?)
Uma mulher iraniana de 30 anos que em 2004 ficou cega quando um pretendente lhe atirou ácido à cara por não o ter aceite como marido, decidiu aplicar a lei de Talião autorizada pela legislação do Irão ao seu verdugo.
A lei de Talião, "olho por olho, dente por dente", exige um castigo igual ao crime cometido.
A jovem, Ameneh Bahrami, que vive na cidade espanhola de Barcelona, onde foi várias vezes operada aos olhos e ao rosto, revelou ter rejeitado o pedido de piedade do seu verdugo, um companheiro de faculdade, que lhe implorou para não o deixar cego.
A jovem recordou que ele não teve nenhuma compaixão quando a esperou durante horas à porta do trabalho para queimá-la na cara e deixá-la cega, e acrescentou que ele será pelo menos mais "afortunado" do que ela: "Será anestesiado antes de lhe serem atiradas cinco ou dez gotas de ácido nos olhos - "será fácil para ele" - disse, inflexível. (Lusa).
A lei de Talião, "olho por olho, dente por dente", exige um castigo igual ao crime cometido.
A jovem, Ameneh Bahrami, que vive na cidade espanhola de Barcelona, onde foi várias vezes operada aos olhos e ao rosto, revelou ter rejeitado o pedido de piedade do seu verdugo, um companheiro de faculdade, que lhe implorou para não o deixar cego.
A jovem recordou que ele não teve nenhuma compaixão quando a esperou durante horas à porta do trabalho para queimá-la na cara e deixá-la cega, e acrescentou que ele será pelo menos mais "afortunado" do que ela: "Será anestesiado antes de lhe serem atiradas cinco ou dez gotas de ácido nos olhos - "será fácil para ele" - disse, inflexível. (Lusa).
Há, por certo, momentos em que, para nós, ser justos é apenas apaziguar o ódio.
Mas manda a prudência, a justiça, e é um avanço civilizacional, que as vítimas não sejam juízes nem carrascos.
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