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26 agosto 2012

Samia


Na manhã de 19 de Agosto de 2008  Samia Yusuf Omar, 17 anos, competia nas eliminatórias dos 200m nos Jogos Olímpicos de Pequim. Foi a mais lenta das 52 atletas em prova. Nas suas palavras: Foi uma experiência espectacular. Levei a bandeira da Somália, desfilei com os melhores atletas do mundo.
Quatro anos depois, ninguém deu pela sua falta em Londres 2012.
Segundo o seu  treinador, Samia continuou sempre a treinar-se no Estádio Olímpico de Mogadíscio para conseguir um lugar em Londres 2012. Falhado esse objectivo, apostou em chegar à Europa de maneira a ter condições de treino. 
Agora, chega a notícia de que morreu quando tentava atravessar o Mediterrâneo, de barco, a caminho de Itália.

Contam os jornais que a mãe de Samia vendera um pequeno terreno que tinha para pagar a viagem à filha.
E, assim, disseram tudo..

10 fevereiro 2011

Victoria, a bebé dos fios azuis



...Perante a revelação da minha verdadeira identidade, tive de aprender pouco a pouco a aceitar uma nova história, uma nova família e novas origens. E durante essa aprendizagem, senti-me muitas vezes paralizada, forçando-me a rejeitar subitamente uma parte das minhas ideias e da minha própria pessoa. Este processo alcançou o seu ponto culminante em 2007 e acabou por me permitir resolver as minhas contradições e aceitar todo o meu percurso passado: o bem e o mal, a verdade e a mentira. Sou um produto da ditadura, mas sou também o produto do carinho que Raúl e Gaciela me souberam dar. Reconheço-me neles tanto como em Cori e no "Cabo", os quais sinto que amo, apesar de nunca os ter conhecido. Não sou menos a sobrinha do antigo chefe dos serviços de informação da ESMA, o assassino do seu irmão e da sua cunhada, do que a adolescente extasiada diante dos Caballeros de la Quema. Assim, não sou menos Analía do que Victória..

Victoria Donda, O Meu Nome é Victoria, Editorial Bizâncio, 2011

Victoria Donda é hoje a mais jovem deputada da Argentina. Nasceu durante a ditadura militar, em 1977, em Buenos Aires no centro de detenção clandestino da Escola Superior de Mecânica da Marinha (ESMA).
Como outras centenas de bébés, Victória foi retirada à mãe pouco depois de nascer. 
A mãe, Cori, antes da filha lhe ser roubada, coseu-lhe dois fios azuis nas orelhas para que pudesse ser identificada como a sua filha. Este gesto foi, depois, essencial para a descoberta do percurso seguido pela menina.
Cori foi mais tarde lançada (viva) de um avião  com outros companheiros no rio de La Plata. O pai teve o mesmo destino, ambos denunciados e, provavelmente, executados  sob responsabilidade de um seu irmão.
Aos 27 anos, Victoria descobre, através da organização das Avós da Praça de Maio, que Analía é o nome que a família a quem foi entregue lhe deu na sequência do assassínio da mãe. Raúl, o "pai", é um torcionário da polícia.

O livro, é um relato intenso do colapso brutal da vida de Victória / Analía e da necessidade de reconstruir toda a sua história e identidade. Escrito com uma autenticidade e uma maturidade que impressiona pela lucidez, Victoria Donda elabora uma narrativa que nos agarra na primeira página e onde está presente a história da Argentina desde os anos 70 até aos nossos dias. Nele estão retratados os actores essenciais do seu percurso pessoal e, de forma mais ampla, os responsáveis pelos caminhos do país nos últimos 30 anos.
Um livro que nos revela o combate heróico duma geração torturada e assassinada, e nos ensina como o ódio e a indignidade em que se alicerçam as ditaduras existe e germina dentro de gente capaz de tudo no combate aos seus adversários.

12 agosto 2010

Josefa

Josefa, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante de Engenharia Biomédica, trabalhadora de supermercado em part-time e bombeira voluntária. Acumulava trabalhos e não cargos - e essa pode ser uma primeira explicação para a não conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que frequentamos nas revistas de consultório, arranja forma de chamar os holofotes. Se é futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; se é cantora, mostra o futebolista com quem namora; e se quer ser mesmo importante, é mandatário de juventude. Não entra é na cabeça de uma jovem dispersar-se em ninharias acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, talvez, que um colega mais experiente dissesse dela: "Ela era das poucas pessoas com que um gajo sabia que podia contar nas piores alturas." Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um azar... Aconteceu: anteontem, Josefa morreu em Monte Mêda, Gondomar, cercada das chamas dos outros que foi apagar de graça. A morte de uma jovem é sempre uma coisa tão enorme para os seus que, evidentemente, nem trato aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela nos disse: que há miúdos de 21 anos que são estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem nós sabermos. Como é possível, nos dias comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar das Josefas que são o sal da nossa terra?
Ferreira Fernandes, AQUI

13 junho 2010

Legados


Durante os meus anos de infância desenhou-me dezenas e dezenas de giríssimas caricaturas de gatos. Eram inventadas por ele e coloridas a lápis de cores de boa qualidade, daqueles que se diluem como aguarelas se lhe passarmos um pincel molhado por cima. O humor era fantástico, com gatos a patinar ou a tocarem guitarra numa banda de rock. Os gatos tinham uns olhos expressivos e bigodes a "abanar ao vento".

Ana Cunhal, entrevista ao Diário de Notícias por ocasião dos 5 anos da morte do pai.

13 março 2010

Refazer o puzzle

Ana, a mãe, fala-nos de si e da sua batalha contra essa indescritível dor de perder Inês, a filha,antes de completar os 16 anos.
Sem ti, Inês (Ed. Caderno, LeYa, 2010) é uma narrativa profunda, dolorosa e sentida, escrita na primeira pessoa por uma mulher de 46 anos obrigada a viver e a sobreviver ao que todos mais tememos, a perda de um filho.
Um diário da mãe que diz que foi em luta e agora se sente em luto. Um diário onde Ana procura encontrar sentido para os dias seguintes na poesia, nas canções e nas viagens. Uma intensa e dolorosa reflexão sobre o que fazer da memória, onde encaixar esta perda absoluta no futuro dos que a ela sobrevivem.

Quando entrávamos numa loja de roupa entretinha-me
a adivinhar as peças que escolherias. O tempo
encarregava-se de me confirmar a minha pontaria certeira.
Sabes uma coisa, Inês? Não consigo abandonar esse velho hábito…
Em cada nova colecção continuo a antecipar
as tuas escolhas, e embora não as confirmes, tenho a certeza
de que continuam certeiras…
Sempre contrariaste a lógica uniformizadora dos adolescentes.
Lembro-me como ficavas irritada quando as tuas amigas teimosamente
te imitavam a forma de vestir. Gostavas de ser diferente
e procuravas lojas que satisfizessem essa necessidade de exclusividade.
Havia entre nós uma cumplicidade estética
(sensatamente contrariada pela diferença de idades) que não me deixava dispensar
os teus conselhos. Lembro-me de ti, ainda com 10/11 anos,
sentada no meu quarto enquanto eu desfilava as várias opções
até tomares a decisão final. Foi essa cumplicidade que alimentou a paixão
que ambas sentimos por “aqueles” sapatos verdes. Em conjunto,
tentamos encontrar pretextos (patetas) para os comprar,
que contrariassem os argumentos (lógicos) para o não fazer.
Ambas sabíamos que os saltos eram excessivamente altos para a tua pouca idade,
e o design demasiado ousado para a minha.
Quem me dera que a sensatez não tivesse levado a melhor…
Quem me dera que tivéssemos comprado “aqueles” sapatos verdes,
marca da nossa cumplicidade que já não podemos alimentar…
Quem me dera ter no meu quarto (ou no teu) “aqueles” sapatos verdes,
apenas como objecto de pura fruição estética… (quem disse que os sapatos são para usar?)

Foto: C.