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23 abril 2010

Puro, claro e natural

A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos.

Mia Couto
Foto: R. Misrach

18 agosto 2009

Aquele Agosto


 
 
Chegávamos à aldeia pelo lado da Portela, o Fiat 1400 ziguezagueando na castanha estrada poeirenta a que chamávamos, cheias de contentamento, "a estrada de canela". O cheiro dos pinheiros e a cor da terra diziam-nos que estávamos quase a chegar a casa da avó.
- Já aí estão, António! É a Nina.O súbito reencontro das lembranças - a leira com a latada, o musgo seco a romper nos degraus graníticos da casa, tão grandes... tão altos, até ao patim; a imensa cozinha sombria, o forro proibido.
- E os coelhos, avó, não tens coelhos? Mãe, é este ano que podemos ir ao baile? E podemos ir com a Sãozita para casa dela?O motor da rega longínquo, a tossir, por entre os feijoeiros.

Agosto era o mês das festas, das feiras, do casamento das afilhadas e da animação à volta do coreto, quase em frente da igreja. Era o mês da doçaria nas bancadas da estrada - os sonhos, os beijinhos de mil cores, o doce da Teixeira de sabor a canela.
Mas naquele ano... naquele ano havíamos de pôr a tocar o rock'n roll. Os que vinham de mais longe, das cidades, já traziam outros ritmos no ouvido. Alguns vinham estrangeirados e tinham até revistas coloridas com cantores na capa.
 
Então, um dos mais afoitos pediu emprestado o pátio da casa ao primo Heitor, que era o dono do café e da mercearia. Outro tratou de arranjar “o som” e não sei quem mais chegou com uma mão cheia de LP’s e 45 rotações que haviam de pôr a rapaziada a dançar.

A tarde já ia a meio, pachorrenta e morna, com o sol por trás das casas, o carro dos bois chiando ao longe, as sombras acolhendo o mulherio à beira dos tanques, na sossega da lavoura.
- Ei, malta, o Pinto já chegou. Que é do som? Tragam o som! Ide buscar umas cadeiras e a mesa, ali para o canto. Temos de puxar o fio da electricidade aqui para baixo. E quem é que vai chamar as moças? Vão buscar as raparigas!Nessa tarde, o coreto havia de esperar.
Escolhemos os vestidos de flores azuis, desprendemos o cabelo e deixámos soquetes e laços, que ficavam melhor com os sapatos de fivela para a procissão de domingo. Aos poucos lá nos fomos juntando – os irmãos Pinto, a Estelinha e a Zé, eu e a minha irmã, o Fernando que viera com a madrinha, o Carlos da moto, todo vaidoso do exame do liceu que havia de fazê-lo “o senhor engenheiro Carlinhos”. Era uma animação.

Hoje, tudo parece ridículo – as danças ritmadas de cotovelo à cintura, o corpo bamboleante, as músicas meladas de olhares cruzados, desviados para o largo da igreja, ali em frente. O risinho miúdo das raparigas. As graçolas sonoras dos rapazes, folgazões.
- A próxima música é para mim, Estelinha! Ouviste, ó Carlos?
A memória é improvável, mas sei que lá pela quinta ou sexta música, uma madeixa de cabelo se colou à testa no calor da dança, e uma mão trémula a desviou dos olhos, brevíssima, inaugurando sorrisos.
Nesse agosto que não voltaríamos a repetir. A saída de uma longa infância era já ali.

13 maio 2009

O que poderíamos ter sido?

Sir Ken Robinson, especialista em criatividade, desafia a forma como temos vindo a educar as nossas crianças. Os seus trabalhos são mundialmente conhecidos e esta temática tem sido objecto de reflexão nos vários livros que tem publicado.
Quanto aos vídeos, apesar de o segundo ser mais explicativo, carece da introdução feita no primeiro, onde Robinson justifica a importância da criatividade. Bem inspirado e com humor inteligente. A tradução não é das melhores mas...
E estaremos mesmo a impedir a flor de crescer?



06 maio 2009

Era uma vez...

*


imagem do Google

A história começa onde começa a vida a escrevê-la.
Sê bem-vinda, Catarina!

* Numa uma ocasião tão especial, a interpretação fabulosa de Nigel Kennedy para a Primavera, de Vivaldi.

05 abril 2009

Metáforas

"Let us be lovers we'll marry our fortunes together"

I've got some real estate here in my bag

So we bought a pack of cigarettes and Mrs. Wagner pies

And we walked off to look for America

Kathy, I said ,as we boarded a Greyhound in Pittsburgh

Michigan seems like a dream to me now

It took me four days to hitchhike from Saginaw

I've gone to look for America

Laughing on the bus Playing games with the faces

She said the man in the gabardine suit was a spy

I said Be careful his bowtie is really a camera

Toss me a cigarette, I think there's one in my raincoat

We smoked the last one an hour ago

So I looked at the scenery, she read her magazine

And the moon rose over an open field

Kathy, I'm lost, I said, though I knew she was sleeping

I'm empty and aching and I don't know why

Counting the cars on the New Jersey Turnpike

They've all gone to look for America

All gone to look for America

All gone to look for America

Na primeira semana de Abril de 1968 foi lançado o Álbum Bookends de Simon & Garfunkel.

Foi um êxito termendo e as canções começaram a ser conhecidas entre nós (era regra na época) no Verão. Como teve composições muito divulgadas, como Mrs Robinson ou A Hazy Shade of Winter, a canção América tornou-se menos conhecida. É, no entanto, uma composição muito bela, descrevendo a viagem metafórica de uma geração em busca dos seus caminhos. No fundo, a viagem que, nas várias latitudes, os jovens fizeram naqueles anos. E que, felizmente, continuam fazendo.

25 fevereiro 2009

Mundos perfeitos



Quiseram para os filhos tudo o que lhes faltou ou tiveram de menos, e tarde.
Quiseram para eles caminhos de algodão e seda. Quiseram-nos imunes à dor e à contrariedade. Desfizeram-se em ternuras de fim-de-semana, apressadas e distantes, cheias de culpa pela ausência. Chamaram a isso mimos e carinho, pintando os gestos de afecto com as cores de Barbies, Nintendos e Playstations.
No sossego das casas vazias à chegada da escola, os filhos passaram a imitar-lhes os tiques, os gestos e as raivas de quem se vê a crescer sem interlocutor.
Adivinharam os seus desejos enquanto dormiam e, olhando-os amorosamente, fizeram de todos eles seus desejos também. E chamaram a isso o melhor dos bens, a melhor face do amor.
Sem se aperceberem, foram pequenos tiranos o que criaram. Têm-nos agora a exigir o que nunca será possível dar-lhes – um mundo sem lágrimas, sem esforço, sem morte.
Mas nem virtualmente – saberão as crianças isso? – o mundo é perfeito.