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28 agosto 2010

O Poema de Amor de Esteban Rojas

Esteban Rojas é um dos 33 homens que vivem hoje uma das mais dramáticas experiências a que um ser humano pode ser submetido. Encerrado com os seus companheiros, numa pequena galeria a 700 metros da superfície, prepara-se para a mais difícil prova: sobreviver as semanas necessárias (meses ?) até poder voltar a ver o céu e as estrelas.
Do fundo da Terra e da esperança escreve à companheira:...Y cuando salga compramos el vestido, y nos casamos...
Ficamos esmagados só de imaginar o que poderão ser os minutos que estes homens estão a viver.
Tem de nos emocionar a força indestrutível e a infinita capacidade de sobrevivência de alguém que, ali, coloca o amor no centro dos seus sonhos e do seu futuro.

Para Esteban e Jesica, as palavras de Neruda:

...Às vezes amanheço, e até a alma está húmida.
Soa, ressoa o mar ao longe.
Este é um porto.
Aqui te amo.

(Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor...)

06 julho 2010

A força do amor


O meu pai não se apercebeu de que quase não me tinha abraçado até perder o braço direito num acidente de trabalho que o fez estar quarenta dias hospitalizado. Sempre que ia visitá-lo, eu olhava para o braço que ele não tinha como se fosse mais visível do que o esquerdo. Mas a ausência, claro, carecia de volume. Era um braço de ar. Aquele empenho em observar o inexistente não me permitiu chegar a nenhuma conclusão, mas sim a uma enorme estranheza que de noite, na cama, tentava inutilmente digerir. Queria perguntar a minha mãe o que haviam feito com o braço amputado do papá, mas uma espécie de instinto dizia-me que se tratava de uma pergunta indecorosa.
Quando o meu pai voltou para casa, o vazio do seu braço ficou coberto pela manga das camisas ou dos casacos, que às vezes se mexia como se tivesse vida própria. Eu não podia deixar de olhar para ela porque me atraía fatalmente, tal como as cortinas que ondulam com a passagem do ar sugerindo a existência de alguém escondido atrás delas. A minha mãe disse-me num aparte que devia controlar aquela forma de olhar porque fazia o meu pai sofrer. O meu pai era dextro, pelo que teve de aprender novamente a fazer tudo com o braço esquerdo. Assisti, perturbado, ao seu processo de aprendizagem. Levar uma colher de sopa à boca obrigava-o a um esforço humilhante e brutal. Durante esta época, decidi ser ambidextro e passava os dias a treinar com o braço esquerdo para não padecer o sofrimento do meu pai no caso de sofrer uma desgraça como a dele.
O que era mais difícil para o meu pai era a recordação de que pouco me havia abraçado enquanto pudera fazê-lo. Não sei em que momento nem por que razãose apercebeu de que tinha esta dívida para comigo, mas transformou-se numa obsessão. Quando estávamos sozinhos, pedia-me que me aproximasse dele, rodeava-me o corpo com o braço esquerdo e colocava a manga direita do casaco de modo a parecer que tinha um braço dentro.
- Arrependo-me tanto de não te ter abraçado... - dizia-me ao ouvido enquanto eu tentava libertar-me dele.
Mas não podia, não me era possível libertar-me porque me segurava com força, com força, e não com o braço esquerdo, como seria de supor, mas com aquele que lhe faltava, o direito. Por esse braço inexistente me sentia eu agarrado. Ainda continuo a estar.

Juan José Millás
Foto Willy Ronis

23 março 2010

Marcelas Owens, um herói do nosso tempo



Esteve, por direito próprio, ao lado de Barack Obama no momento da assinatura da Lei que consagrou o acesso a cuidados médicos para 36 milhões de americanos.
Marcelas Owens, o menino de 11 anos, foi um dos rostos visíveis do combate para aprovação da Lei.
Enfrentou com exemplar coragem uma miserável campanha de calúnias e provocações, apenas por querer que mais ninguém tivesse o destino de sua mãe, falecida aos 27 anos sem poder ser tratada por não ter dinheiro.

13 março 2010

Refazer o puzzle

Ana, a mãe, fala-nos de si e da sua batalha contra essa indescritível dor de perder Inês, a filha,antes de completar os 16 anos.
Sem ti, Inês (Ed. Caderno, LeYa, 2010) é uma narrativa profunda, dolorosa e sentida, escrita na primeira pessoa por uma mulher de 46 anos obrigada a viver e a sobreviver ao que todos mais tememos, a perda de um filho.
Um diário da mãe que diz que foi em luta e agora se sente em luto. Um diário onde Ana procura encontrar sentido para os dias seguintes na poesia, nas canções e nas viagens. Uma intensa e dolorosa reflexão sobre o que fazer da memória, onde encaixar esta perda absoluta no futuro dos que a ela sobrevivem.

Quando entrávamos numa loja de roupa entretinha-me
a adivinhar as peças que escolherias. O tempo
encarregava-se de me confirmar a minha pontaria certeira.
Sabes uma coisa, Inês? Não consigo abandonar esse velho hábito…
Em cada nova colecção continuo a antecipar
as tuas escolhas, e embora não as confirmes, tenho a certeza
de que continuam certeiras…
Sempre contrariaste a lógica uniformizadora dos adolescentes.
Lembro-me como ficavas irritada quando as tuas amigas teimosamente
te imitavam a forma de vestir. Gostavas de ser diferente
e procuravas lojas que satisfizessem essa necessidade de exclusividade.
Havia entre nós uma cumplicidade estética
(sensatamente contrariada pela diferença de idades) que não me deixava dispensar
os teus conselhos. Lembro-me de ti, ainda com 10/11 anos,
sentada no meu quarto enquanto eu desfilava as várias opções
até tomares a decisão final. Foi essa cumplicidade que alimentou a paixão
que ambas sentimos por “aqueles” sapatos verdes. Em conjunto,
tentamos encontrar pretextos (patetas) para os comprar,
que contrariassem os argumentos (lógicos) para o não fazer.
Ambas sabíamos que os saltos eram excessivamente altos para a tua pouca idade,
e o design demasiado ousado para a minha.
Quem me dera que a sensatez não tivesse levado a melhor…
Quem me dera que tivéssemos comprado “aqueles” sapatos verdes,
marca da nossa cumplicidade que já não podemos alimentar…
Quem me dera ter no meu quarto (ou no teu) “aqueles” sapatos verdes,
apenas como objecto de pura fruição estética… (quem disse que os sapatos são para usar?)

Foto: C.

23 fevereiro 2010

Rui

Auf Widersehen

Dificilmente poderiamos ser mais diferentes.
Eu de direita, ele de esquerda;
eu católico praticante, ele sem Deus nem transcendência;
eu pró-vida, ele liberal;
eu com 41, ele com 63;
eu casado militante, ele solteirão inveterado;
eu falador compulsivo, ele calado e reservado.
Partilhamos o mesmo escritório oito horas por dia, durante dezassete anos.
De manhã cumprimentavamo-nos invariavelmente em japonês ou em chinês,
encerravamos o dia com um sonoro e bem disposto auf wiedersehen.
Pelo meio discutiamos projectos, trocavamos ideias,
discordavamos abundantemente e respeitavamo-nos sempre,
sem excepção.
Lentamente ficamos amigos.
Lentamente, aprendi a apreciar o seu espirito delicado,
a admirar a sua inquebrantável verticalidade,
a compreender a sua rebelde independência.
Compreendia a amizade que me tinha quando,
aqui e ali,
se permitia partilhar o orgulho embevecido que sentia
com os sucessos do sobrinho,
a admiração com que seguia discreto a vida da irmã.
Não lhe era fácil esta partilha, mas confiava em mim a esse ponto.
Quando me trazia um livro ou um disco, deixava-o silenciosa e discretamente na minha secretária.
Quando eu lhe agradecia, murmurava: pensei que pudesse interessar-lhe...
Era o meu amigo Rui.
Partiu hoje, discreto como só ele, com a voz sumida, mas com o espirito indomável, como sempre.
A esta hora acredito que o meu Deus esteja impaciente, confuso, quase a duvidar da sua própria existência, é que o Rui não é para brincadeiras, nem cederá.
O Rui recusar-se-á a aceitar, mas estará no sitio dos rectos, dos dignos e dos justos; de lá, olhará pelas suas ovelhas
e seguirá a vida dos que sem saberem lhe importam muito.
Vai fazer-me falta.
Como nos bons tempos,
Sayonara Sacramento San!

Este o testemunho de um homem digno, falando de outro que foi livre e dono do seu destino como nenhum. (Aqui).
Com o Rui, aprendi eu o encanto da Ria nos verões da adolescência, a dureza do exílio quando ainda tanto se sonhava e, agora na sua última lição, como se enfrenta a morte com os olhos abertos, um cigarro nos lábios e o jazz a tocar em fundo.
Foto: "Amanhecer na Ria" Aqui

24 janeiro 2010

Amor Amoras



   Nasci no tempo de amoras bravas
   no tempo de silvas em brancos muros
   de borboletas gentis e abelhas rápidas
   de fontes frescas em verdes campos

   Nasci no tempo em que amoras sangram
   é por isso que me encanto
   quando me ofereces assim
   um cesto de amor
   do tempo em que amoras sangram
   
   
   
   

03 janeiro 2010

Lhasa




Morreu Lhasa de Sela.

Lhasa nasceu em 1972, em Big Indian, estado de Nova Iorque.
De origem mexicana, americano-judaica e libanesa. O pai, professor e escritor, a mãe fotógrafa. Com as suas três irmãs, cresceria num meio culto e irreverente. Numa carrinha, com toda a família, percorreu o espaço entre o México e os Estados Unidos, onde os pais espalhavam a sua multifacetada cultura. Neste ambiente informal, erudito, multilinguístico, Lhasa tornou-se, desde os treze anos, uma cantora diferente, expressando-se em espanhol, francês e inglês. Dos blues à música cigana, dos ritmos sul-americanos à música country, Lhasa, com a sua voz sem fronteiras, trazia-nos o mundo, todos os sons, perfumes e cores. Às vezes era como Billie Holiday, outras BjorK, outras ainda, Brell. Dava-nos poesia, conversava connosco, contava histórias.
Faleceu hoje, no Quebec, Canadá.

25 novembro 2009

e é assim que nos sentimos de alma lavada

Lemos a notícia, velha como o mundo. Passamos ao lado da boçalidade dos frequentadores de um Café com nome arrepiante, ou da incredulidade das Cassildas das terras de Basto. Fixamos, então, o olhar neste homem e nesta mulher. Órfãos ambos, ele de um sentido para a vida que julgava definitivo; ela, de um colo e de um abraço que a vida lhe roubou quando mais precisava. Sentimos o encontro, adivinhamos o sorriso, percebemos os corações que só abrigaram tristeza, deciframos a escolha e chega-nos a irreprimível vontade de ler um poema de Eugénio ou ouvir uma música de Chet Baker.
Reconciliados com a vida.