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08 setembro 2010

... ainda os serviços do "serviço público"

A entrevista "non stop" que, desde que foi condenado, Sua Inocência tem estado ininterruptamente a dar às TVs, teve o mais respeitoso e obrigado dos episódios na RTP1, canal que é suposto fazer "serviço público".
Desta vez, o "serviço" foi feito a um antigo colega, facultando-lhe a exposição sem contraditório das partes que lhe convêm (acha ele) do processo Casa Pia e promovendo o grotesco julgamento na praça pública dos juízes que, após 461 sessões, a audição de 920 testemunhas e 32 vítimas e a análise de milhares de documentos e perícias, consideraram provado que ele praticou crimes abjectos, condenando-o à cadeia sem se impressionarem com a gritaria mediática de Suas Barulhências os seus advogados, o constituído e o bastonário.
Tudo embrulhado no jornalismo de regime, inculto e superficial, de Fátima C. Ferreira, agora em versão tu-cá-tu-lá ("Queres fazer-lhe [a uma das vítimas] alguma pergunta, Carlos?"). O "Prós &Contras" só não ficará na História Universal da Infâmia do jornalismo português porque é improvável que alguém, a não ser os responsáveis da RTP, possa chamar jornalismo àquilo.

26 junho 2010

A voz de um homem livre

O que eu acho, então, é que há uma soma de pessoas (na Igreja), e digo-o com respeito, que ficaram perfeitamente analfabetas, cheias de complexos, de maldade, de sensualidade, quase castradas. Quem conhece o mundo e o adora, olha-o de forma límpida e feliz. Eu dou graças à vida e aos educadores que tive, por olhar para o mundo de forma descomplexada e desinibida...
Entrevista ao Jornal i 26/06/2010  

Num tempo de silêncio e múltiplas cumplicidades, um tempo difícil para quem quer uma cidadania exigente, é de saudar os homens que têm uma voz própria e se exprimem  com coerência, inteligência e liberdade. 
D. Januário Torgal Ferreira é um homem assim e a sua entrevista de hoje ao jornal i merece uma leitura atenta . AQUI

04 março 2010

Leandro

Agora sabemos todos.
Leandro, o menino feito saco de pancada pelos colegas.

"Humilde, tão humilde", conta a avó Zélia, "todos os dias vinha saber de mim".
Não custa imaginar Leandro, o quarto frio e o choro escondido nas noites sem fim. A busca diária do calor morno da avó.
Não custa imaginar o desespero do menino, sistematicamente insultado e ferido, a correr até ao rio gelado à procura do alívio para aquela dor sem nome. Sozinho.
Também não custa sentir, com orgulho, a coragem de Christian, o amigo, que se despiu indiferente ao frio e ao medo, e mergulhou no escuro em busca de Leandro. O que guarda dele é uma ténue presença no afago do canito.
Até já nem custa sentir que há um País esvaziado, frívolo e castrado, que assiste a tudo isto e deixa Leandro mergulhar, não tendo vergonha de que apenas Christian o queira salvar.
O que custa mesmo, é saber que no dia seguinte a Escola destes meninos abriu as portas como se não tivesse havido um crime.

Reportagem exemplar de Helena Teixeira da Silva Aqui
Foto: C.

18 fevereiro 2010

Eu sou o dono do meu destino

No mais recente filme de Clint Eastwood, Invictus, há um momento determinante para o futuro do jovem capitão da equipa de rugby sul africana: Mandela ensina-lhe, através da leitura de um poema, como encontrou a força necessária para vencer a adversidade, a dor e as constantes tentativas de humilhação do apartheid. Um poema "vitoriano" escrito por William Ernest Henley em 1875.
Pela oportunidade, pela beleza e pela homenagem a todos os que enfrentam o mal de frente e, com a força das convicções são donos dos seus destinos, aqui fica na voz de Alan Bates.
(esqueçam o patrocínio da UBS).




Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

01 fevereiro 2010

Avaliação, mérito e golpe de vista


Esqueçam o nome da pessoa mencionada no louvor. Vamos cingir-nos ao que é importante.
Os dirigentes são credíveis, quando pautam os seus comportamentos pela coerência. Já conhecíamos as inflexíveis exigências antitabágicas de alguém que fumava em transgressão à lei sempre que tinha oportunidade. Ou que não se importou de "dar o nome" para aparecer como responsável de projectos de marquises em vivendas de gosto duvidoso.

Com este despacho, ficamos a saber como avalia os seus colaboradores, aquele que, em tempos, foi o paladino das avaliações (dos outros) na função pública. Bastaram-lhe 4 (quatro?!) dias de (excelente) observação.
Notável.

14 janeiro 2010

O Haiti, agora, é só ali



Nos anos 90 decorria no Brasil uma campanha de ajuda humanitária ao Haiti, após um furacão ter devastado aquele país das Caraíbas.
Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram esta música (álbum Tropicália II) onde utilizavam a campanha para chamar a atenção da situação de miséria em que, também no Brasil, milhares e milhares de cidadãos viviam. Problema, aliás comum a milhões seres humanos no planeta inteiro, designadamente no hemisfério sul.
Hoje, entretanto,o Brasil está na primeira linha de apoiantes ao Haiti e toda a ajuda que o mundo ali fizer chegar será pouca para aquele povo martirizado. Porque, agora, o Haiti é ali...
Fica, no entanto, o grito de alerta para a necessidade de tirar da miséria extrema milhões de cidadãos que vivem noutros pontos do globo numa situação de intolerável indignidade para qualquer ser humano.
É que o Haiti não é só ali
(Entretanto, hoje mesmo um comentador com responsabilidades dizia na RTPN que na Tailândia o aparecimento do Tsunami - ao contrário do Haiti - tinha sido favorável já que tinha "limpo" o terreno de todos os feridos, ultrapassando assim as dificuldades de apoio logístico que, inevitavelmente, iriam surgir. .. Abjecto)

21 dezembro 2009

Hipátia de Alexandria

Hipátia nasceu em Alexandria por volta de 370 D.C.. Era filha de Theon, um matemático conhecido e respeitado.
Estudou em Atenas durante a adolescência e, quando voltou à sua cidade, tornou-se professora da Academia de Alexandria. Dedicava-se à matemática, à filosofia e à astronomia.
Vivendo numa época de grandes controvérsias e numa cidade que estava no centro de grandes debates religiosos, defendeu sempre o aprofundamento do conhecimento e ensinou os alunos a não permitirem que a crença fosse impeditiva da evolução da ciência.
Criou alguns instrumentos usados na Física e na Astronomia e desenvolveu fundamentadas críticas à teoria Geocêntrica de Ptolomeu, que considerava a Terra o centro do Universo em torno da qual rodavam todos os outros corpos celestes.
A obra de Hipátia, ou Hipácia, foi practicamente toda destruída com a Biblioteca de Alexandria.
O seu drama foi o de ter vivido num tempo de ascenção da intolerância e do obscurantismo nos lugares onde antes floresciam o pensamento e a cultura. Era uma intransigente defensora da liberdade do pensamento e do culto da dúvida num tempo de dogmatismo e ortodoxia religiosos.
Por ensinar que o Universo era regido por leis matemáticas, por ser livre e por ser mulher, foi considerada "herética" e condenada à morte por um bispo cristão que fora seu aluno na Academia.
Atacada na rua, foram-lhe arrancados os braços e as pernas e o seu corpo queimado numa pira .
O bispo Cirilo, mais tarde santificado, terá considerado que, assim, o Sol andaria à volta da Terra e tudo ficaria no seu lugar.

O filme Ágora, recentemente estreado, é uma fantástica narrativa que homenageia esta mulher, a filosofia e o pensamento livre.


20 dezembro 2009

God Bless The Dreamers!!!

--*















O sonhador pode ser tolo
pode ser estúpido
pode ser ingénuo.
Não aprende e erra,
recalcitra,
volta a sonhar.

O sonhador insiste,
resgata o que ficou
do sonho que lhe chega,
que não acabou.

Ah!, mas é aqui que quero estar. Com outros sonhadores do meu país.

* Supertramp - Dreamers
Pintura de Eric Fischl

03 dezembro 2009

Dudamel, fruto da Utopia



Nos anos 70 o maestro venezuelano José António Abreu iniciou um profundo trabalho cultural, criando orquestras nas zonas muito pobres de Caracas, de forma a promover integração social a jovens excluídos. Os resultados positivos foram tão grandes que hoje há cerca de 250000 jovens abrangidos por esta exemplar intervenção social e política (El Sistema).
A Orquestra Simón Bolívar é a face mais visível deste programa e a presença do maestro Gustavo Dudamel, ele próprio um "produto" deste programa, dá-lhe uma dimensão e visibilidade planetária.
O "Sistema" na Venezuela , que é, há 34 anos, uma rede de ensino musical gratuito após o horário escolar, com fornecimento de instrumentos, levou ao aparecimento de 30 orquestras profissionais (havia 2 antes do "Sistema" ser criado).





Gustavo Dudamel, foi retirado à rua pelo Sistema e é considerado um dos maiores maestros da actualidade. A forma como conduz as orquestras, sobretudo a "sua" Sinfónica Simon Bolivar, alia uma alegria contagiante com uma competência que o faz ser disputado pelas melhores Sinfónicas de todo o mundo.
Ontem ao fim da tarde dirigiu a Orquestra Juvenil Ibero-Americana, na Gulbenkian. Um concerto cujos lugares não foram suficientes para todos os interessados.

13 novembro 2009

entre dois sorrisos, uma declaração de amor


...Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros subia da base até à cúspide, desenhando uma colmeia tecida de túneis, escadarias, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma gigantesca biblioteca de geometria impossível. Olhei para o meu pai, boquiaberto. Ele sorriu, piscando-me o olho.
- Bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel.
Salpicando os corredores e plataformas da biblioteca, perfilavam-se uma dúzia de figuras. Algumas delas voltaram-se para cumprimentar de longe, e reconheci os rostos de diversos colegas de meu pai do grémio de alfarrabistas. Aos meus olhos de dez ano, aqueles indivíduos afiguravam-se uma confraria secreta de alquimistas a conspirar nas costas do mundo. O meu pai ajoelhou-se ao pé de mim e, sustendo-me o olhar, falou-me com aquela voz leve das promessas e das confidências.
- Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte.(...) Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui.(...) Na loja nós compramo-los e vendemo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós, Daniel. Achas que vais poder guardar este segredo?
O meu olhar perdeu-se na imensidade daquele lugar, na sua luz encantada. Fiz um sinal de assentimento e o meu pai sorriu.

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote, 2008
Foto: Trinity College Old Library, Dublin


A Sombra do Vento é um livro maravilhoso. Uma fantástica narrativa sobre livros, o encanto mágico que têm e nos trazem. No excerto, destaco a maravilha que é ser-se levado a amar os livros desde que se começa a olhar o mundo e os homens.
A leitura transforma-nos porque nos ensina e acrescenta.

11 novembro 2009

Os loucos...e os outros



«No primeiro capítulo (...) chego a uma definição de loucura que diverge da preconizada pela Psicologia e Psiquiatria oficiais. A perspectiva destas últimas limita-se a apreciar o comportamento humano apenas com base no respectivo relacionamento com a realidade, o que, obviamente, tem a sua razão de ser. Só que impede, assim, a aproximação a uma patologia menos evidente e mais perigosa, de cujo método próprio a dissimulação faz parte: a loucura que se encobre a si própria e se mascara de saúde mental. Essa não tem dificuldade em ocultar-se num mundo em que o engano e o ardil são comportamentos adequados à realidade.
Ao mesmo tempo que os que já não aguentam a perda dos valores humanos no mundo real são considerados "loucos", atesta-se a normalidade àqueles que se separaram das suas raízes humanas. E é a esses que confiamos o poder, permitindo que decidam sobre as nossas vidas e o nosso futuro. Pensamos que eles têm a atitude certa perante a realidade e sabem lidar com ela; mas o "relacionamento com a realidade" de uma pessoa não é o único critério para determinar a sua doença ou saúde mental.»

Arno Gruen, in A Loucura da Normalidade, Assírio & Alvim, 1995

08 novembro 2009

aqui está um texto que eu subscrevo sem hesitar







Os intocáveis
2009-11-02


O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

Mário Crespo , Jornal de Notícias

07 novembro 2009

Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação



Pede-se à escola que faça o que é do domínio da casa. Da família. Devia-se pedir-lhe que ensinasse, e bem, apenas. O resto já lá deveria estar quando as crianças chegassem ao portão de entrada. A escola é (foi sempre e será) um espaço formal. E quem não aprende, antes de chegar à escola, que há regras e disciplina próprias desse espaço, não terá, nunca, uma relação gratificante com ela, com os professores, com os seus agentes. Não terá memória de ter aprendido coisas que, só à escola devem ser pedidas. Que só ela pode dar ( um exemplo apenas, entre outros, é o da oportunidade de leituras que os alunos nunca fariam fora da escola). Independentemente de toda a facilidade com que hoje se tem acesso à informação. Estou a distinguir informação de conhecimento, de saber ou saberes. Falo da integração do que se lê, do que se escreve, do que se inventa, do que se discute, em cada um dos alunos. Falo de auto-sócio-construção. Diferente da que se faz (ou devia fazer) em casa.

Veio este post a propósito de um excerto de um livro interessantíssimo, diria irrecusável, onde George Steiner e Cécile Ladjali (professora de francês em escolas suburbanas e multiétnicas da grande Paris, onde, em geral, ninguém deseja ser colocado) dialogam sobre educação, escola e literatura.
Transcrevo apenas um parágrafo dos que, quanto a mim, mais instiga à reflexão:

«George Steiner: Paciência, hesitação, lentidão. Ouça, foi Pascal que, como sempre, disse tudo: 'Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação.' E é terrivelmente difícil.»

Elogio da Transmissão: O Professor e o Aluno, George Steiner e Cécile Ladjali, Lisboa: Dom Quixote, 2005.

31 outubro 2009

Com um nó na garganta

Por alguma razão dizemos frequentemente que os pais são a nossa casa.
Aqui, testemunhamos um encontro amoroso.
Pai e filho, afastados pela mais estúpida das razões, encontram na música toda a força do afecto e da ternura, num amor sem tempo, lugar ou distância.
Sente-se, como diz o autor do clip, com um nó na garganta.


29 outubro 2009

os medos, a dor e os outros

"...Os nossos antepassados, habituados a sentir medo dos ursos e das cascavéis, demoraram tanto ou mais tempo do que o que levou a invenção da matemática a perceber que a felicidade ou a infelicidade também podiam brotar das suas entranhas e não apenas do universo que os rodeava. À força de experimentarem sensações parecidas mas desencadeadas por estímulos diferentes, como um leão ou uma aranha, acabaram por reparar nas semelhanças e deduzir que sentiam o mesmo. No preciso momento em que um deles deu conta que a repentina aceleração do ritmo cardíaco era disparado por acontecimentos tão diferentes como a vertigem ao deparar com um precipício, a falta de respiração ao mergulhar uma e outra vez, exausto, para alcançar a outra margem do rio, ou as ameaças por um grupo de canibais pintados de vermelho; no preciso momento em que a diversidade mostra o seu denominador comum e, mediante um processo de abstracção,descobre-se o conceito que a define, nasce, sem querer, no interior do homem primitivo a consciência da emoção do pânico.
O que aqui foi resumido em poucas linhas demorou milhares de anos a acontecer.(...)
Se bem que as comparações sejam sempre odiosas, em termos emocionais estamos na fase equivalente ao número 2 na evolução da matemática; isto é, na pré - história. Continuamos a pensar que a felicidade ou infelicidade são induzidas pelas emoções desencadeadas pelos outros, por medos provocados pelo trabalho, pela segurança dada por uns bons estudos ou pelo dinheiro. Continuamos a acreditar que tanto a fonte da felicidade como a da desgraça depende de outros ou do resto da matilha. "

Eduardo Punset, in Viagem à Felicidade, D. Quixote, 2008
Foto: Gregory Crewdson

21 outubro 2009

...depois vêm estes com a conversa do costume


O eurodeputado Mário David não gostou do que ouviu, sente-se insultado, e por isso escreveu no blog da Internet, tendo-o repetido depois à TSF, que Saramago devia renunciar à nacionalidade portuguesa. (aqui)

Um dos embustes mais marcantes da nossa democracia é a confusão entre liberdade e cidadania. A ideia de que, uma vez derrubada a ditadura, haveria uma democracia porque se votava e não havia censura, excluiu a noção de cidadania dos valores fundamentais que guiam o comportamento e as escolhas dos homens e mulheres deste país.
Temos, assim, guindados aos mais altos cargos do regime gente com uma absoluta falta de valor. Estão onde estão, representam os seus concidadãos e o país, mesmo em areópagos internacionais, com o nível e a elevação que a sua formação, feita a abrir portas nos corredores dos ministérios, lhes deu.
Depois, olhem, dá nisto.

Gravura: João Abel Manta

09 outubro 2009

As mãos e os donos delas


Os cirurgiões, enquanto grupo, aderem a um igualitarismo curioso. Acreditam na prática, não no talento.
As pessoas frequentemente presumem que temos de ter grandes mãos para sermos cirurgiões, mas não é verdade. Quando fui entrevistado para entrar em programas de cirurgia ninguém me mandou coser, ou fazer um teste de destreza, ou verificar se as minhas mãos eram firmes. Nem sequer é preciso ter os dez dedos para se ser aceite. (…). Os professores dizem que a cada dois ou três anos vêm uma pessoa verdadeiramente dotada – alguém que atinge capacidades manuais complexas invulgarmente depressa, vê o campo operatório como um conjunto, apercebe-se de problemas antes que eles aconteçam. Mesmo assim, os Cirurgiões Assistentes dizem que o que é mais importante para eles é encontrar pessoas meticulosas, diligentes e suficientemente teimosas para continuarem a praticar uma coisa difícil dia e noite, anos a fio. Como me disse um professor de cirurgia, se tivesse de escolher entre um doutorado que tivesse clonado um gene com muito esforço e um escultor de talento, escolheria o primeiro. (…) A competência, acreditam os cirurgiões, pode ser ensinada, a tenacidade não. É uma estranha abordagem ao recrutamento, mas é sempre assim, até nas categorias profissionais mais altas, mesmo em serviços cirúrgicos excelentes. Pegam em alguns favoritos sem nenhuma experiência cirúrgica, passam anos a formá-los e depois estabelecem a maior parte da sua competência a partir dessas fileiras criadas por si.
E resulta. Actualmente, já existem muitos estudos sobre executantes de elite – violinistas internacionais, grandes mestres do xadrez, patinadores no gelo profissionais, matemáticos e por aí fora – e a maior diferença que os investigadores encontram entre eles e outros executantes de menor qualidade é a quantidade de prática que eles acumularam deliberadamente. Na verdade, o talento mais importante poderá ser o talento para a própria prática. K. Anders Ericsson, um psicólogo cognitivo e perito em desempenho, comenta que a manifestação mais importante do papel dos factores inatos pode ser a motivação que alguém tem para se lançar numa formação contínua. Descobriu, por exemplo, que os executantes de topo gostam tão pouco de praticar como os outros (é por isso que os atletas e os músicos desistem de praticar depois de se reformarem), mas possuem uma força de vontade para continuar a praticar superior à dos outros.

Atul Gawande, in A mão que nos opera, Lua de Papel, 2007

Uma visão puramente técnica do gesto, o de curar como o de criar, pode levar-nos a alguns exageros. O livro de Atul Gawande, que agora revisitei, prende o leitor, sobretudo se tem interesse pelo mundo médico, por dois aspectos principais: um, a clareza com que fala dos temas mais sérios e complexos. Outro, pela forma séria e empenhada com que trata a difícil questão do erro em medicina e, por consequência, da responsabilidade médica. No entanto, o texto acima transcrito é controverso. Sobretudo ao despir de qualquer envolvimento pessoal aquele que pratica o acto. Ou seja, reduz o cirurgião, que é, antes de tudo médico, a um mero executante - operador - que, desde que pratique o acto com rigor, tem o sucesso do seu gesto garantido. Ora, uma intervenção cirúrgica tem um tempo prévio de preparação e um tempo posterior de acompanhamento que exigem um forte envolvimento pessoal e, nestes vários momentos, como num concerto de piano ou na pintura duma tela, é preciso que, a par do rigor técnico,esteja presente a alma do artista.