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11 junho 2011

vadiagem em letra minúscula

 

corto uma fatia da tarde e dou-me ao luxo da preguiça.

curiosa dessas portas meio abertas, navego, mas todo o jogo de reflexos é próximo da miragem: há muito que não me encontro com as leituras de auster, e cansada dos trabalhos de babel, vou adiando a catharsis dos meus dramas filosóficos.
abro a janela. por ela entram ainda paisagens salvíficas para o meu olhar breve que, enublado de teimosa melancolia, viaja no tempo, caminha por entre abencerragens, falcoeiros e castelos mouriscos, como quem limpa o aos livros ou refaz a trama de um velho agasalho .  

regresso à natureza do meu mal: dou corda a um relógio parado no tempo de vermeer; limpo do texto os excessos e risco símbolos, ruídos de horas extraordinárias que ensurdecem qualquer pensamento musical. desço por vezes à matriz de outros sonhos, descubro outros lugares, novos mundos povoados de fantasmas ou barcos com flores, perfeitos para as minhas provas de contacto com a realidade que me importa.

Tornei-me desgraçadamente sensível à anarquia do riso por entre todas as dúvidas metódicas. dizem-me alguns que há vida noutros planetas, mas eu descubro nessa ronda dos astros a irónica comédia de todos os cais de partida em amsterdam.

[devaneio estranho, este, pois o que interessa mesmo é irmos andando, num thriller de mortos-vivos e salmos de david.
com ou sem arrastão, e a jugular exposta ao golpe, sentar-nos-emos à direita de deus pátria, sem  meditação à esquerda que nos reflicta, ou brumas de avalon que nos encantem.]

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11 abril 2011

Mutatis mutandis...*


Foi nos idos de 80, os jovens já não são os mesmos, e há aqueles com quem o sistema conta, que ele apadrinha.
E, todavia, *há que mudar o que tem de ser mudado.

22 março 2011

Redacção para o exame da ludoteca: xeque-mate de rei e dama


É uma técnica simples, que apenas requer um trabalho de conjunto e dinamismo, por parte do rei e da dama atacantes, para restringir o rei adversário. Nunca se deve desprezar a chamada “jogada de espera”. Entretanto, há que limitar as filas de alcance do rei atacado (não sei como se faz, mas já vi que resulta noutros tabuleiros).

Para viabilizar (o que eu gosto deste termo!) a execução deste mate, o Rei precisa de apoiar a dama - tanto para forçar o movimento do Rei adversário para as bordas do tabuleiro, quanto para efectuar o mate.
Para que a dama tenha poder estratégico, deve estar colocada em L ou posição de cavalo com o rei adversário.
Quando o Rei estiver sem saída é só gritar bem alto "XEQUE-MATE!". Se disserem "vai-te embora antes que o cheque te mate", não vale. Não queremos cheques sem cobertura. 

Alguns peões, que neste jogo nunca podem retroceder, estão agora nos bastidores, com cara de parvos, porque nunca aprenderam jogos estratégicos - só se lembram do anelzinho e do jogo do ringue nas avenidas, idas, de restritas liberdades, quando ainda se cantava Ó-ai-ó-linda e não havia carros nem buzinas. Pensavam que era um jogo a brincar e estão quase a dar-se conta de que vai ser tudo a sério depois do torneio.

E há também peões a dar de frosques porque não querem ser obrigados a PEC(ar) sem fazer batotice, coisa a que seriam obrigados em caso de empate.

Esta redacção não foi escrita ao abrigo do novo Acordo Ortográfico, mas deu-me um grande gozo, porque aprendi imenso sobre a técnica de copipeiste.

imagem: Final de Partida, obra de Andrea Conde (Buenos Aires)

23 outubro 2010

Lamento de um pai de família


Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma
ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas
sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser?
Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta
profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se revêem nele e o decepcionado dos polícias que com ele
não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante
de amigos e inimigos, para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus génios. Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
Antes reunir conferências de  S. Vicente de Paula, para roçar
o cu da virtude pelas distracções das sacristias escuras e
ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
se lhe verem os pêlos pelos rasgões da camisa ou algo de mais
impressionante para o subconsciente que sempre está nos olhos
que docemente se comovem com a miséria. Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra, matar os inimigos da conta corrente
e das fábricas de celofânicas bombas. Antes ser militar.
Ou marafona de circo. Ou santo. Ou demónio doméstico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-las aos filhos
da puta . Ou gato. Ou cão. Ou piolho. Antes correr os riscos do
DDT, das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos. Antes tudo isso que assistir a tudo,
sofrer de tudo e tudo, e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno e os sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas, ou as mandaram à parteira secreta e
elas quiseram ir. Antes morrer. (....)

Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, Edições 70, 1989
Fotografia: Misha Gordin

10 outubro 2010

Bug melancólico no meu software


A vida fica uma coisa chat quando penso na  minha face lunar, que nunca levaria para um book. Todavia, é com esse template que insisto no upload  e activação do script da minha memória. Já tentei o Esc, mas, sem  firewall, o plugin da versão trial teima em ficar, como um virus. O melhor será alterar as rotinas da  interface e procurar brevemente um novo hosting para as minhas coisas.

14 agosto 2010

O Que Diz Bolaño


Antanho,os escritores de Espanha (e da América Latina) entravam no redondel público para o transgredir, para o reformar, para o queimar, para o revolucionar. Os escritores de Espanha (e da América Latina) procediam geralmente de famílias acomodadas, famílias estáveis ou de uma certa posição, e, ao tomar eles a pluma, voltavam-se, ou revoltavam-se, contra essa posição: escrever era renunciar, era renegar, às vezes era suicidar-se. Era ir contra a família. Hoje, os escritores de Espanha (e da América Latina) procedem em número cada vez mais alarmante de famílias de classe baixa, do proletariado e do lúmpem-proletariado, e o seu exercício mais usual da escrita é uma forma de escalar posições na pirâmide social, uma forma de se acomodarem tentando o mais possível não transgredir em nada. Não digo que não sejam cultos. São tão cultos como os de antes. Ou quase. Não digo que não sejam trabalhadores. São muito mais trabalhadores do que os de antes! Mas são, também muito mais vulgares. E comportam-se como empresários, ou como gangsters. E não renegam nada, ou apenas renegam o que se pode renegar, e cuidam muito de não criar inimigos, ou de os escolher entre os mais inermes. Não se suicidam por uma ideia, mas sim por loucura ou raiva. As portas,implacavelmente, abrem-se de par em par. E assim a literatura está como está. Tudo o que começa como comédia acaba indefectivelmente como comédia.

Roberto Bolaño, através da personagem Pere Ordoñes, in " Detectives Selvagens", teorema

16 fevereiro 2010

Entrudo lusitano



O amor a Portugal e a mágoa, a dor e a melancolia incurável de ter visto a luz «neste país perdido», é um topos camoniano que percorre como um veneno, como uma maldição e às vezes como uma utopia regeneradora e uma visão futurante a literatura portuguesa, desde Garrett e sobretudo desde o tempo finissecular oitocentista até Pessoa, Torga, Manuel Alegre, Ruy Belo e outros autores, e que eu vivo dramaticamente. Um topos camoniano que se converte irremediavelmente num tropo do camonismo. Felizes, neste país cronicamente pobre, endividado, injusto, em estado permanente de «ruína cultural», como disse Pessoa, só alguns gestores e alguns economistas…


Victor Aguiar e Silva na Angelus Novus, em entrevista sobre Jorge de Sena e Camões, Janeiro de 2010
Desenho de C. - "Desolação"

21 outubro 2009

...depois vêm estes com a conversa do costume


O eurodeputado Mário David não gostou do que ouviu, sente-se insultado, e por isso escreveu no blog da Internet, tendo-o repetido depois à TSF, que Saramago devia renunciar à nacionalidade portuguesa. (aqui)

Um dos embustes mais marcantes da nossa democracia é a confusão entre liberdade e cidadania. A ideia de que, uma vez derrubada a ditadura, haveria uma democracia porque se votava e não havia censura, excluiu a noção de cidadania dos valores fundamentais que guiam o comportamento e as escolhas dos homens e mulheres deste país.
Temos, assim, guindados aos mais altos cargos do regime gente com uma absoluta falta de valor. Estão onde estão, representam os seus concidadãos e o país, mesmo em areópagos internacionais, com o nível e a elevação que a sua formação, feita a abrir portas nos corredores dos ministérios, lhes deu.
Depois, olhem, dá nisto.

Gravura: João Abel Manta

25 setembro 2009

Vamos lá!


...golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado, feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neil, Portugal (fragmento), in Feira Cabisbaixa, 1965

23 setembro 2009

Entre nós e as palavras há metal fundente

 *

Ruhrpottlady - Light Spot

Não, não me devias ter mentido acerca do mundo – (e eu, que só queria acreditar em tudo o que dizias.)
Devias ter-me ensinado a inclinação perfeita do gume, ter-me treinado no golpe contido e certeiro nas asas das vespas (os brinquedos eram de madeira, seriam perfeitos).
Devias ter insistido comigo no ajuste das receitas: metade mel, metade cicuta. Aprenderia a arder um fósforo na falange, sem gemidos, sem vacilação das pálpebras, sem paixão.
Em vez da lógica de todas as demências, em vez da geografia dos êxitos, em vez da fuga aprazada, ensinaste-me a dormir sobre a consolção da alma, esse interstício insaciavelmente obscuro.
Devias ter-me dito a verdade acerca do choro dos homens e do riso das bestas. Sempre achei incrível como os cães podiam sorrir às ameaças dos donos. Nunca acreditaste que isso era possível. E ensinaste-me que nunca se jura sobre o que não se sabe. Mas juravas pelos anjos e arcanjos das pagelas e santinhos que havia uma bondade natural no coração dos homens.

Não, não me devias ter mentido sobre o mundo. Eu teria aprendido a desconfiar da minha própria condição de humano e não seria incauto viajante ou obstinado pescador de estrelas. Devias ter-me dito a verdade: que ninguém escapa, ninguém escapa à sedução da posse da palavra soberana. Que ninguém avisa da vilania e que ninguém... ninguém tem o coração puro.
Devias ter-me dito: a alma é um intestino que se enche - nuns dias frango gourmet noutros paté e vinho maduro; e o mais é trabalho de fotógrafo em dias de feira. Devias ter-me dito, eu ia perceber tudo. Eu tinha os olhos sempre acesos noite dentro, como se ela trouxesse a verdade insofismável da brancura.

O que me devias ter ensinado – hoje sei – é do silêncio dos livros e do labor das rosas.

E eu apenas venho aprendendo a morrer esse amor.

Título: transcrição do primeiro verso do poema You are welcome to Elsinore, de Mário Cesariny
* Nick Cave & Warren Ellis - The Road, do álbum White Lunar, 2009

08 setembro 2009

Cartões Vermelhos

Fomos desafiados, pelo Bicho Carpinteiro, a atribuir cartão vermelho a dez atitudes, pessoas ou factos que nos incomodassem. Ora, como vivem nesta casa vários inquilinos, se calhar temos de fasear a arbitragem. Começo eu? Então, aí vai cartão vermelho para:

1. Toda e qualquer atitude de prepotência ou despotismo. Fico logo com brotoeja.
2. O exercício obscuro e moroso da justiça em Portugal (e no mundo, em geral). Uma mão lava sempre a outra e etc e tal... e não se encontra nunca os verdadeiros responsáveis.
3. As famílias que não cuidam dos seus idosos. Sei de casos em que as pessoas são literalmente abandonadas nos hospitais, após o internamento, por exemplo.
4. As chamadas de call centers para oferecer, questionar sobre, propagandear produtos e serviços. Já me aconteceu ter chamadas dessas de madrugada...
5. Os homens (nunca me apercebi disto nas mulheres... mas eu sou distraída) que escarram para o chão. E aquela tossezinha ruidosa no fim... a arranhar a traqueia. Nhaaque!
6. Os encontrões (reais e simbólicos) infligidos por todo o xico-esperto que "tem de chegar primeiro" a todo o lado. Basta ver a condução nas auto-estradas ou as filas de espera onde não há senhas de prioridade.
7. As pessoas que passam a vida a dizer: “olha que não fui eu quem disse, eu até concordo contigo”, e blá, blá, blá. E ainda fazem menção de nos tocar no ombro a sublinhar a verdade da afirmação. Que arrepio!
8. A nossa proverbial queda lusitana para acreditar num D. Sebastião que nos há-de valer, quer seja ele o pai, a mãe, o estado ou a divina providência.
9. O lixo nas ruas, a céu aberto.
10. A arrogância, acompanhada, não raramente, por um excessivo culto de uma imagem de juventude a qualquer preço.

E, seguindo as regras do jogo, aqui fica o desafio para cinco outros blogues:

Vá andando
Há vida em Marta
Vida Abstracta
Paços d'Água
Da janela

Fim do primeiro jogo amigável da Liga Bloguista!

14 agosto 2009

O dia vem com as sombras

--*


















Nesse tempo somos cegos
pelas manhãs e os sonhos
tão suaves como amoras

_______leva-me a ver a lua
o que é um homem na noite
no silêncio, quando chora?

Nesse tempo somos cegos
e em tudo a vida demora
o tempo – uma rosa a arder

Nesse tempo
___________________
um dia descubro
que a casa sou eu


* The Cinematic Orchestra - To build a home

22 julho 2009

Saída de emergência...

O mais longo eclipse total do Sol deste século (6 minutos e 39 segundos, um recorde que apenas será superado no ano de 2132 !!!) não foi visível em Portugal.
Sete novos casos de gripe A (H1 N1) aumentam para 161 o número de infectados em Portugal.
As taxas de juro da Euribor continuam em queda.
O carro de James Bond foi vendido por 122 mil euros.
Reforma da saúde desgasta Obama, que enfrenta oposição no seu partido.
Os peixes europeus estão cada vez mais pequenos, devido ao aumento da temperatura das águas.
O défice do Estado quase duplicou no espaço de um mês.
Os nativos do signo Caranguejo devem fazer marcha atrás para resolver assuntos pendentes, sem se deixarem vencer.
Dificuldades financeiras levam uma jovem equatoriana de 28 anos a leiloar, na net, a sua primeira experiência sexual.
A Helena Roseta conseguiu enfiar-nos uma grande peta.
Romário passou uma noite na prisão.
Dez em cada cem internamentos hospitalares têm danos para o doente.
Homens que lavem a loiça têm melhor vida sexual, mas passar mais tempo com os filhos prejudica a intimidade do casal e diminui o número de momentos românticos.
Três pessoas foram acusadas de terem deixado que ratos comessem dedos do pé de uma bébé de seis meses.
Beber vinho tinto dá mais cinco anos de vida.
O último Harry Potter é agora a saga de dezenas de hormonas andantes.
Duas mulheres foram colhidas por um comboio da Linha do Oeste.
O descrédito na justiça é um dos maiores problemas da democracia portuguesa.
etc., etc., etc,.

Como diria o Mário-Henrique Leiria*: Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato! Vou atrás do próximo eclipse. . . da lua.

* in Contos do Gin-Tonic, 1976