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27 outubro 2012

... da solidão


.... A minha casa, ou lá o que é, assenta, entre outros, sobre dois duvidosos pilares: Nietzsche e Groucho Marx.... E sobre a sabedoria das nações correcta e aumentada: mais vale só do que acompanhado (mesmo que bem acompanhado). Pelo menos às vezes.
Nietzsche tem-me chegado por muitos lados, até directamente. Desta vez chegou-me por Visconti, via Burt Lencaster, na cozinha de um velho palácio veneziano, em "Violência e Paixão": as águias planam solitárias, os corvos é que andam em bandos. E Groucho orgulhosamente por ele próprio: "Nunca farei parte de um clube que aceite tipos como eu como membros".
Tudo isto a propósito de outro dia ter lido em "O Comércio do Porto", e em prosa, Eugénio de Andrade, um grande e generoso poeta, queixar-se da sua solidão. Porque ai de nós, acho eu, se não tivéssemos para nos recolher esse imenso país, a solidão; e esse outro país, igualmente único e imenso, o esquecimento. Compreendo, julgo que compreendo, e no fundo do coração, o que sente Eugénio de Andrade.(...) Mas viver sempre, e acompanhado, rodeado de gente, mesmo dos melhores e mais amados amigos, do ruído das vozes, do moroso calor dos corpos, da presença das coisas e dos sentidos, da imperiosa vida e do imperioso tempo, cansa também tanto! (...).
Os homens precisam (acho eu, que sou jornalista já vai para mais de 20 anos) da solidão, da sua pura e irreparável comida. Eu é que sei e, como eu, sabem-no os homens condenados ao ruído e à luz intolerável dos dias e das coisas comuns, dos telefonemas, das notícias, das exclamações, das escolhas, dos nomes, do comércio triste das palavras. 
Eugénio de Andrade nunca passará um dia na redacção de um jornal, mas sabe (eu sei que sabe) o que quero dizer.
Nem Frei Luis de Léon ( a crónica hoje virou-se definitivamente para os poetas ) penou o inferno quotidiano dos escritórios, das salas de espera, dos cafés, das gares ou de outras metáforas do obscuro vampiro da vida lá de fora. Mas também saberia (eu sei que saberia) o que quero dizer.
Conta Borges que Poe ( e Poe também saberia o que quero dizer!) conhecia de cor um poema juvenil de Frei Luis de Léon : "Vivir quiero conmigo / gozar quiero del bien que debo al Cielo / a solas, sin testigo / libre de amor, de celo / de ódio, de esperanza, de recelo ". 
Não queria pouco, o bom augustiniano : o Paraíso!

Manuel António Pina, JN 4/12/91

25 outubro 2012



A infância é um lugar de exílio. Se não tivermos, em qualquer sítio do coração, uma infância, onde nos refugiaremos quando os ladrões vierem para nos roubar a inocência e os sonhos e quando os assassinos baterem à porta? Se não tivermos uma pequena infância que seja  (um jardim longínquo, um vago quarto de dormir perdido), onde guardaremos os segredos mais secretos e onde brincaremos ainda? E quem nos responderá quando, diante do nosso rosto no espelho, nos virmos e não nos reconhecermos, ou quando, nos dias de infelicidade, chamarmos pelo nosso nome? (...) 
As estatísticas não falam disso, mas na nossa sociedade há uma enorme e perigosa carência de infância. Nos homens, nas instituições na vida de todos os dias. E uma enorme carência de sonhos e de coisas verdadeiramente grandes, razões ou desejos. Os sonhos, que pertencem a uma frágil e excessiva espécie, foram as principais vítimas da mortandade liberal dos últimos anos, substituídos por monstros gélidos chamados "planos", "programas", "projectos",. ( Que coração - de homem ou sociedade - sobreviverá alimentando-se, não do desmesurado sangue dos sonhos, mas de "programas" e "projectos"?).
Com o fito de receber o prémio do sucesso (intrigante e inquietante palavra !) muitos de nós procuraram, viva ou morta a infância dentro de si e entregaram-na, amarrada de pés e mãos, aos carrascos. E pior: vista daqui, parece que a própria sociedade, no seu conjunto, fez o mesmo.....

Manuel A. Pina, JN 29/1/92 

Foto Diane Arbus

24 outubro 2012

O Poeta que habitava os dias

...Outro dia caiu-me nas mãos um velho exemplar do "Diário de Notícias", também ele cheio de nomes de gente importante (ministros, deputados, militares, comerciantes), de tragédias, de "fait divers". E, todavia, o único acontecimento que, em todo o jornal, me dizia ainda alguma coisa, umas poucas dezenas de anos depois, era uma pequena nota de duas ou três linhas numa página interior: um certo "sr. Mário de Sá-Carneiro" tinha publicado um livro de versos! 
Daqui a 50 ou 100 anos, o mais que algum rato de Universidade conseguirá provavelmente sobre Cavaco Silva, depois de ter vasculhado em todos os arquivos, é que foi um primeiro-ministro do tempo de Eugénio de Andrade...

(Manuel A. Pina, JN, 2/9/92)

Manuel António Pina foi um Poeta maior. 
Foi-o, igualmente, na escrita diária, sofrida, exigente e comprometida das Crónicas. 
Dizia ele que as crónicas de jornal duram um dia e morrem. Enganou-se. 
Porque, como também escreveu: Às vezes, no fundo das páginas onde jazem e amarelecem, algo parecido com uma réstea de vida (será alguma misteriosa forma de alma, terão as crónicas alma?) nelas continua a pulsar.
 Aqui no Marcas faremos prova disso. Durante as próximas semanas tentaremos, diariamente, dar a conhecer a alma e o pulsar das Crónicas do Poeta.
Vai fazer-nos bem a todos.

22 outubro 2012

Não é Escritor Quem Quer



...e a minha mãe a tremer com mais força, assoando-se por engano à minha saia, não à dela   e, para ser honesta, até me agradou, operaram-me um peito, que se assoasse em mim, não vou para o estrangeiro, não vos deixo, as palmas na minha cara, o nariz quase encostado ao meu, os olhos, assim tão perto, só um, comigo curiosa, um peito

- É castanho ou preto?

o meu pai amansava o homem dos refrigerantes com uma garrafa, ambos sentados no degrau da cozinha onde se escutava o mar, o crucifixo no espelho retrovisor, abalado, dançaricava ainda, um peito e a axila, disfarço o soutien com um enchumaço que se desprende e eu a corrigi-lo, de cotovelo erguido, por cima da roupa, a minha mãe dois olhos de novo, castanhos, o meu irmão mais velho a examinar as ondas que de quando em quando se esquecem e recomeçam, culpadas

- Perdoem

para além dos arbustos, das casas, a anestesista, e eu nua e consciente que nua debaixo do lençol, não vou estender-me sobre isso

- É alérgica a alguma coisa?

não por senhora doutora, qualquer pessoa nua você, arrumei os búzios, comi uma bolacha que me soube a pó, teria podido conhecer a Tunísia e sacrifiquei-lhes a Tunísia, a ordem dos búzios errada na mesa e eu a trocá-los sem achar as posições, que eu saiba não sou alérgica a não ser, que eu saiba não sou alérgica, a minha mãe de feições ainda ao acaso....

António Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, 2012

Pintura de Mark Rothko, aqui

Entre uma sexta feira e o domingo seguinte, uma mulher de 52 anos, que teve um cancro da mama, perdeu um filho e vive um casamento falhado, despede-se da casa de praia da família, num longo adeus em que revive a infância, as amizades e os amores, num desconsolo sem fim, onde se cruzam personagens e vozes riquíssimas, como o irmão não surdo que vem louco da guerra, o pai que lhe chama sempre "menina," ou a mãe constantemente enraivecida com a vida. 
Por mim, reconciliei-me com A Lobo Antunes de quem andava distante desde o Fado Alexandrino e só lia as Crónicas. Este é um fantástico romance.

14 outubro 2012

Ian McEwan


Antes de ser um escritor, McEwan era um leitor apaixonado ( entrevista Ipsilon, 5 Out).
Informação preciosa para se entender o seu fascínio por conduzir o leitor em caminhos apaixonantes, numa leitura que se torna imparável.
A consciência que tem "dos inúmeros romances que todos começamos a ler e não acabamos" (Ipsilon), leva-o a ser capaz de uma clareza e de uma intensidade narrativa absolutamente únicas.
Um romance imperdível, pois.

09 agosto 2012

Férias, tempo de viagens




....Baudelaire venerava os devaneios de viagem como um emblema de nobreza dos espíritos inquietos, que descrevia como "poetas" jamais satisfeitos com os horizontes familiares por mais que pudessem apreciar os limites de outras terras, e cujo humor oscilava entre a esperança e o desespero...
...Por vezes [Baudelaire] sonhava ir a Lisboa. Aí faria mais calor e ele, estendido ao sol como um lagarto, ganharia novo vigor. Era uma cidade de de água, mármore e luz, propícia ao pensamento e à serenidade....

Alain de Botton, A Arte de Viajar, Ed. D. Quixote,2010
Foto: C.

21 maio 2011

A fazedora de ilusões

Como lá em casa o dinheiro andava a cavalo e nós a pé, quando chegava à Mina algum filme que o meu pai – só pelo nome do actor ou actriz principal – achava que era bom, juntavam-se as moedas uma a uma, à justa para o bilhete, e mandavam-me ir vê-lo.
Depois, à vinda do cinema, eu tinha de o contar à família reunida em pleno na divisão do "living".

Era lindo, depois de ver o filme, encontrar o meu pai e os meus irmãos à espera em casa, ansiosos, sentados em fila como no cinema, penteadinhos de fresco e com a roupa mudada.
O meu pai, com uma manta boliviana sobre as pernas, ocupava o único cadeirão que nós tínhamos, e era aí a plateia. No chão, ao lado do cadeirão, reluzia a sua garrafa de vinho tinto e o único copo que restava em casa. A galeria era o banco comprido, de madeira bruta, onde os meus irmãos se instalavam por ordem, do mais novo ao mais velho. Depois, quando alguns amigos deles começaram a assomar à janela, passou a ser aí o balcão.
Eu chegava do cinema, bebia depressinha uma caneca de chá (que já tinham preparado para mim) e dava início à sessão. De pé diante deles, de costas para a parede caiada, branca como o ecrã do cinema, punha-me a contar-lhes o filme “de pé a pá”, como dizia o meu pai, procurando não esquecer nenhum pormenor, nem do argumento, nem dos diálogos, nem das personagens.
A propósito, devo esclarecer aqui que não me mandavam a mim ao cinema por ser a única mulher da família e eles – o meu pai e os meus irmãos -, uns cavalheiros com as damas. Não, senhor. Mandavam-me porque eu era melhor do que eles todos a contar filmes. É como digo: a melhor contadora de filmes da família. Depois passei a ser a melhor da correnteza e, daí a pouco tempo, do acampamento. Que eu soubesse, não havia ninguém na Mina que me ganhasse a contar filmes. De qualquer género: de "cow boys", de terror, de guerra, de marcianos, de amor. E, claro está, mexicanos, que eram os que o meu papá, como bom sulino, mais apreciava.
E foi precisamente com um mexicano, daqueles bem contados e chorados que ganhei o título. Porque o título, foi preciso ganhá-lo.
Ou julgam que fui eleita pelo meu físico?....

Hernán Rivera Letelier, A Contadora de Filmes, Ed. Presença, 2011

06 abril 2011

A essencialidade da escrita


...O comboio arrancou. Logo a seguir começaram a desfilar pelas janelas o relógio, o chefe da estação, o vulto de um velhote sacudindo uma lanterna, as sentinas HOMENS, SENHORAS; e, pronto, a luz recortou-se nas vidraças, correu por terrenos baldios.
"Vai assim o cabo". O revisor fez um gesto com os dedos a explicar a que ponto o outro ia encolhido. "Assim", disse ele. "A esta hora nem um feijão lhe cabe no rabo".
Foi assim, neste quadro, que o Oito-Correio partiu da estação de Pinhal Novo, levando na carruagem da cauda um revisor de terceira, um negociante e três correços sentados no banco fundeiro, conduzidos por uma escolta de seis praças e um cabo. E todos eles, passageiros e militares, iam envolvidos numa poeira pesada de fumo de tabaco e de luz bacienta, e todos gingavam os corpos aos solavancos da carruagem..."

José Cardoso Pires, Carta a Garcia in Jogos de Azar, Ed. Leya 2011

A escrita depurada de José Cardoso Pires transporta  o leitor  em viagens fascinantes.
A reedição da coletânea de contos Jogos de Azar coloca-nos nas mãos alguns dos melhores textos do género escritos no século XX em Portugal.
É uma escrita com fortíssimos traços cinematográficos, adoptando um ritmo e sequências narrativas vigorosas que nos prendem desde as primeiras linhas. 
Acresce a excelente Introdução (A Charrua entre os Corvos), onde Cardoso Pires, em 1963, defende a importância da abordagem literária de alguns fenómenos de exclusão social, traduzida na maioria destes contos sobre os  desocupados, "gente destituída de autoridade e, por isso, condenada a tropeçar a cada passo nos caprichos daqueles que a detêm como exclusivo".
A sua análise, apesar da linguagem cifrada dado o contexto em que foi escrita, não podia ser mais actual.

30 março 2011

Samanta Schweblin


Tego fez uns ovos mexidos mas quando finalmente se sentou à mesa e olhou para o prato, descobriu que era incapaz de os comer.
- O que é que se passa?- perguntei-lhe.
Demorou a tirar os olhos dos ovos.
- Estou preocupado - disse, - acho que estou a perder velocidade.
Mexeu o braço de um lado para o outro, de uma forma lenta e exasperante, suponho que de propósito, e ficou a olhar para mim, à espera do meu veredicto.
- Não faço a menor ideia do que estás a falar - disse, - ainda estou demasiado a dormir.
- Não viste o tempo que eu demoro a atender o telefone? A ir até à porta, a beber um copo de água, a escovar os dentes... É um calvário.
Houve um tempo em que Tego voava a quarenta quilómetros por hora. O circo era o céu; eu arrastava o canhão até ao centro da pista. As luzes ocultavam o público, mas ouvíamos o clamor. As cortinas aveludadas abriam-se e Tego aparecia com o seu capacete prateado. Levantava os braços para receber os aplausos. O seu fato vermelho brilhava sobre a arena. Eu encarregava-me da pólvora enquanto ele trepava e enfiava o seu corpo magro no canhão. Os tambores da orquestra pediam silêncio e ficava tudo nas minhas mãos. Nessa altura, as únicas coisas que se ouviam eram os pacotes de pipocas e uma ou outra tosse nervosa. Eu tirava os fóforos dos bolsos. Levava-os numa caixa de prata que ainda conservo. Uma caixa pequena, mas tão brilhante que podia ver-se do útimo degrau da bancada. Abria-a, tirava um fósforo e encostava-o à lixa da base da caixa. Nesse momento todos os olhares estavam sobre mim.Com um movimento rápido, o fogo surgia. Acendia a mecha. O som das faíscas expandia-se em todas as direcções. Eu dava alguns passos teatrais para trás, dando a entender que algo terrível ia acontecer - o público atento à mecha que se consumia -, e de repente: Bum. E Tego, uma seta vermelha e brilhante, saía disparado a toda a velocidade.
Tego afastou os ovos e levantou-se com esforço da cadeira. Estava gordo e estava velho. Respirava com um ronco pesado, porque a coluna lhe apertava não sei o quê nos pulmões, e deslocava-se pela cozinha usando as cadeiras e a bancada para se aparar, parando a cada instante para pensar, ou para descansar. Às vezes suspirava simplesmente e proseguia descansado. Caminhou em silêncio até à porta da cozinha e parou:
- Eu acho mesmo que estou a perder velocidade - disse.
Olhou para os ovos
- Acho que estou à beira da morte.
Encostei o prato ao meu lado da mesa, apenas para o irritar.
- Isso acontece quando uma pessoa deixa de fazer bem o que sabe fazer melhor - continuou -. Foi nisso que estive a pensar, que uma pessoa morre.
Provei os ovos mas já estavam frios. Foi a última conversa que tivemos; depois disso deu três passos torpes em direcção à sala e caiu morto no chão.

Uma jornalista de um jornal diário vem entrevistar-me alguns dias depois. Assino-lhe uma fotografia para a notícia, na qual estamos, eu e Tego, ao lado do canhão, ele com o capacete e o seu fato encarnado, eu de azul, com a caixa de fósforos na mão. A rapariga fica encantada. Quer saber mais sobre Tego, pergunta se há alguma coisa especial que eu queira dizer sobre a sua morte, mas já não tenho vontade de continuar a falar disso, e não me ocorre nada.
Como não se vai embora, ofereço-lhe algo para beber.
- Café?- pergunto
- Claro! - diz ela. Parece estar disposta a ouvir-me uma eternidade. Mas risco um fósforo na minha caixa de prata, para acender o lume, várias vezes e não acontece nada.

Samanta Schweblin, Pássaros na Boca, Ed.Cavalo de Ferro, 2011

15 novembro 2010

A vida sonhada


O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça há um paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
Pintura: De Chirico

07 julho 2010

... pelo que me tenho rodeado de silêncios


«Já reparaste que tens o mundo inteiro
dentro da tua cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça
é o teu mundo
e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro
dentro da minha cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça
é o meu mundo
o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos
mas através dos nomes
pois o que tu tens dentro da tua cabeça
e o que eu tenho dentro da minha cabeça
são os nomes do mundo em brutal compressão
como um filtro ou coador
de forma que nem és tu que conheces o mundo
nem sou eu que conheço o mundo
mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo
e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo
o qual entra em ti e o qual entra em mim
através dos nomes que já tem...»

«a manifestação estética integral terá que ocorrer no domínio do silêncio, porque para aquém ou além dele é tudo em última análise compromisso».

Alberto Pimenta, O Silêncio dos Poetas, 1978. (Livros Cotovia, 2004)
O mundo todo na cabeça (de C.)

26 abril 2010

Uma valsa para dançar

Américo, eu te amo, Américo. Você tem uma loja de tecidos, uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar o meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Américo, tem tudo para me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos.Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar conversa: "Leva também um metro de amorim". Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro não tens? Uma colecção de marcas de cigarro e o retrato de sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida pra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.
Você passa e eu digo: boa tarde, Américo.

Adélia Prado, in solte os cachorros, Livros Cotovia
Quadro: Fernando Botero

27 março 2010

Para os que gostam de jazz e boa literatura (e para os outros, claro)

Sugestão: Leia o texto, veja e ouça o videoclip e leia de novo
(depois, volte a ouvir e a ler as vezes que apetecer).


...Quando Thelonious se senta ao piano, toda a sala se senta com ele e produz um murmúrio colectivo do tamanho exacto do alívio, porque o percurso tangencial de Thelonious pelo palco tem qualquer coisa de rigorosa cabotagem fenícia com prováveis encalhamentos nas Sirtes, e quando a nave de mel obscuro e capitão barbudo chega ao porto, é recebida pelo cais maçónico do Victória Hall com um suspiro como que de alas apaziguadas, de cais alcançado. Então é o Pannonica ou o Blue Monk, três sombras como espigas rodeiam o urso entretido a investigar as colmeias do teclado, as garras toscas e bondosas vão e vêm por entre abelhas desconcertadas e hexágonos de sustenido, passou apenas um minuto e já estamos na noite fora do tempo, a noite primitiva e delicada de Thelonious Monk.(...)Depois, quando Charles Rouse dá um passo na direcção do microfone e o seu saxo desenha imperiosamente as razões pelas quais ali está, Thelonious deixa cair as mãos, ouve por um instante, pousa ainda um leve acorde com a esquerda, e o urso levanta-se e abana-se, farto de mel ou à procura de um musgo propício para a modorra, sai do tamborete e apoia-se na ponta do piano, marcando o ritmo com um sapato e o barrete (...) dando imperceptivelmente início a um safari de dedos pela borda da caixa do piano enquanto se balança cadenciadamente porque Rouse, o contrabaixista e o percussionista estão enredados no próprio mistério da sua trindade, enquanto Thelonious viaja vertiginoso sem se mover (...) Charles Rouse está a deixar as últimas, veementes, largas e admiráveis pinceladas de roxo e vermelho, sentimos o vazio de Thelonious,(...) a interminável diástole de um só coração imenso onde latem todas as nossas dores, e é exactamente nesse momento que a sua outra mão se apropria do piano, regressa nuvem a nuvem até ao teclado, passeia os dedos indecisos pelo ar, deixa-os cair e estamos salvos, temos Thelonious capitão, há rumo para um bom bocado, e o gesto de Rouse ao recuar, enquanto desprende o saxo do suporte, tem algo de entrega de poderes, de legado que devolve ao Doge as chaves da sereníssima.

Julio Cortázar, A Volta ao Piano de Thelonious Monk

A fantástica descrição de J. Cortázar do Concerto de Telonious Monk no Victória Hall de Genebra (Março de 1966), de que transcrevi um fragmento, é uma peça literária que mostra e sublinha o valor de um dos maiores escritores do século XX. Aqui

09 março 2010

O perigo da história única e dos machos alfa

Confesso que os chamados "dias internacionais de" [qualquer coisa] não me empolgam por aí além. De resto, muitas dessas datas comemorativas trazem acoplada uma série de técnicas de marketing que apelam ao consumo de ocasião e me fazem descrer da eficácia "da coisa". Bem sei que por um dia, por um diazito apenas, a nossa atenção é canalizada especialmente para o tema em celebração. Mas quanto do conteúdo se dilui na superficialidade dos celofanes e laços com que se embrulha o presente?

Vem isto a propósito de eu ter recebido hoje, via email, num dia que já não é especificamente o da mulher, a indicação destes vídeos. Talvez por este facto eles tenham ainda mais força e sentido. Por serem vistos num dia qualquer.
São as palavras de duas mulheres que partilham, se não outras qualidades, pelo menos uma inteligência sensível, uma fina ironia e uma inegável paixão pela vida. São duas mulheres lindíssimas. Ambas escritoras. E só pelo facto de serem "contadas" é que as suas histórias ficam a dever à realidade.

Adorei esta bonita homenagem. Feita por um homem que, contrariamente ao que afirma, parece ligar, afinal, a estas comemorações. Obrigada, Paulo Mendes.

[Em baixo, à esquerda, podem facilmente accionar as legendas.]


06 março 2010

Yo Leo en el Bar


Amo desparramarme en la mesa de un bar, bien típico de Buenos Aires, y quedarme leyendo horas junto a un café con leche. Esto sólo se puede hacer en algunos bares, los de mesa de fórmica, mozos de más de 40, dueño generalmente gallego, AM de fondo -a veces muy fuerte-. Allí donde pasan con dos jarras metálicas, en una leche, en otra café, y te lo sirven frente a tus ojos. (Recomiendo la esquina de Azcuenaga y Paraguay, el bar del gallego. Pedir un café con leche con un CAMPERO, si les preguntan… Sí! con huevo, completo)
Me dejé llevar, perdón. El Gobierno de la Ciudad lanzó el programa “Yo leo en el bar” una propuesta que incluye la instalación, en 15 bares, de bibliotecas con la obra completa del Jorge Luis Borges.
Algunos de los libros que se podrán leer son: El Aleph, Atlas, El libro de arena, El libro de los seres imaginarios, Fervor de Buenos Aires, Los mejores cuentos policiales y las Obras Completas I, II, III y IV, donados por la editorial Planeta.
Los 15 bares son:
TORTONI, Av. De Mayo 825, 4342-4328
EL GATO NEGRO, Av. Corrientes 1669, 4371-6942
EL PROGRESO, Av. Montes de Oca 1700, 4301-0671
MAR AZUL, Tucumán 1700, 4374-0307
CONFITERIA SAINT MORITZ, Esmeralda 894, 4311-7311
MARGOT, Boedo 857, 4957-0001
36 BILLARES, Av. De Mayo 1048, 4381-5696
BAR HOTEL CASTELAR, Av. de Mayo, 1152, 4383-5001/9
BARoBAR, Tres Sargentos 415, 4311-6856
LA GIRALDA, Av. Corrientes 1453, 4371-3846
LOS LAURELES, Av. Iriarte 2290, 4303-3393
LA POESÍA Chile 502, 4300-7340
IBERIA Av. de Mayo 1196, 4381 6300
EL FEDERAL, Carlos Calvo 395 / 99, 4300 4313
EL QUERANDI, Perú 302, 4345-1770
Texto "roubado" AQUI
Buenos Aires continua a exercer o seu fascínio. O Ministério da Cultura lança na cidade o projecto Yo Leo en el Bar, que consiste na instalação de Bibliotecas com obras de Jorge Luis Borges em cafés e bares da cidade. A proposta foi anunciada ontem e tem a adesão da maioria dos cafés com tradição nas tertúlias culturais da cidade.
É seguramente uma das melhores homenagens que poderia ser feita ao escritor, à leitura e ao livro.
E mais uma (boa) razão para ir ou voltar a Buenos Aires: são tantos os cafés para visitar.
Ler também AQUI e AQUI

16 fevereiro 2010

Entrudo lusitano



O amor a Portugal e a mágoa, a dor e a melancolia incurável de ter visto a luz «neste país perdido», é um topos camoniano que percorre como um veneno, como uma maldição e às vezes como uma utopia regeneradora e uma visão futurante a literatura portuguesa, desde Garrett e sobretudo desde o tempo finissecular oitocentista até Pessoa, Torga, Manuel Alegre, Ruy Belo e outros autores, e que eu vivo dramaticamente. Um topos camoniano que se converte irremediavelmente num tropo do camonismo. Felizes, neste país cronicamente pobre, endividado, injusto, em estado permanente de «ruína cultural», como disse Pessoa, só alguns gestores e alguns economistas…


Victor Aguiar e Silva na Angelus Novus, em entrevista sobre Jorge de Sena e Camões, Janeiro de 2010
Desenho de C. - "Desolação"

04 novembro 2009

caminhando sozinha pela berma da estrada


Fui ao quarto fazer-lhe umas festas na cabeça, mas ela nem se mexeu. "Não tinhas aulas, hoje? Não queres tomar o pequeno almoço? Queres que te vá buscar o comprimido?" A minha mulher está com umas olheiras roxas, já nem consegue chorar, fica de olhos abertos a seco toda a noite. "Fizeste o exercício que te ensinei?" Os dardos ainda estão em cima da mesinha-de-cabeceira e a fotografia pregada na parede. Devagar virou-se para mim, pegou-me na mão, pediu numa vozinha sumida: "Não me obrigues a ir à escola, tiozinho, eu não aguento mais ir à escola!" Quando é que acaba o atestado, desta vez?" Já tinha acabado há uma semana. "Não queres atirar uns dardos, que te sentes logo melhor?" Ela gemeu. "Não consigo pôr-me agora a atirar dardos à fotografia do 8ºC! Como é que vou ter cara para os enfrentar?" "Eles não sabem que tu atiras dardos à fotografia". "Nem podem saber!" disse ela. "É completamente antipedagógico." O "antipedagógico" já foi dito num guincho, porque a pedagogia é uma coisa que inquieta a minha mulher. Abracei-a e dei-lhe o comprimido. "Não consigo enfrentar as aulas da tarde" disse ela. E voltou a deitar-se. "Nem sequer estou afónica!" (...) Tapou-se e ficou a olhar para a janela. Era um molusco, a minha mulher, uma esquiva trouxa mole, escorregadia, que se ia embora sozinha, com apenas um par de meias lavadas, numa jornada impossível. Era isso que eu via, quando chegava a casa e a encontrava deitada e tapada até às orelhas: uma trouxa de roupa espetada num pau caminhando sozinha pela berma da estrada, peregrina. Era uma maldita viagem interior à escuridão dela, onde não podia acompanhá-la. Naquele momento senti-me tão abandonado que fiquei capaz de lhe bater. Fui eu mesmo que atirei um dardo à fotografia da turma-problema. Cheguei-me à parede e vi que a minha mulher tinha escrito em letras muito pequeninas nas testas dos miúdos: "amar o próximo como a nós mesmos e outros legítimos superiores". Era amor não correspondido o que ela sentia pelo 8ºC.
Luisa Costa Gomes, in Ilusão (Ou o Que Quiserem), D.Quixote,2009
Fotografia G. Crewdson


Ilusão ( Ou o Que Quiserem), o romance de Luisa Costa Gomes, é a esplêndida narrativa de uma viagem de busca de projectos e de procura de sentido para a vida; de uma separação e de uma paixão. Afinal, um relato do quotidiano. Uma leitura necessária.

08 outubro 2009

Nobel

A escritora alemã, de origem romena Herta Müller recebeu o prémio Nobel da Literatura 2009.

Herta Müller nasceu em 1953 e, segundo a Academia Sueca tem uma escrita onde se "retrata o universo dos desapossados".
Müller está publicada em Portugal com “O homem é um grande faisão sobre a terra”, editado pela Cotovia, e “A terra das ameixas verdes”, publicado pela Difel.
Nascida na Roménia, aldeia de Nitzkydorf, que hoje já se declarou em festa, estudou alemão e literatura romena na sua terra natal e trabalhou depois como tradutora numa fábrica de Timisoara, antes de ser demitida das suas funções em 1979 por se ter recusado a colaborar com a polícia política de Nicolae Ceaucescu.
Vive na Alemanha desde 1987.
Pessoalmente teria preferido Roth ou Auster, mas isso sou eu que não estou na Academia Sueca. Agora, há que ler e conhecer Herta Müller.


31 agosto 2009

Uma insuportável aridez no conforto

Passar mais tempo na companhia dos residentes de Starfish Beach era outra possibilidade insuportável. Ao contrário dele, muitos conseguiam não só construir conversas inteiras que giravam à volta dos netos mas também encontrar na existência dos netos razões para eles próprios existirem. Apanhado na companhia deles, experimentava por vezes a solidão naquela que era talvez a sua forma mais pura. E mesmo com aqueles residentes que eram pessoas ponderadas e de conversa agradável, só era interessante estar de vez em quando. Na sua maioria, os residentes idosos tinham casamentos que duravam há décadas e continuavam de tal maneira ligados ao que restava da sua felicidade conjugal que raramente conseguia convencer um marido a ir com ele almoçar fora sem levar a mulher. Embora por vezes olhasse com nostalgia para aqueles casais quando descia a noite ou nas tardes de domingo, havia a considerar as restantes horas da semana, e aquilo não era vida que desejasse para si quando estava no auge da melancolia. A conclusão a tirar era de que nunca devia ter ido viver para uma comunidade como aquela. Tinha-se desenraizado precisamente na altura em que aquilo que a idade mais exigia dele era que estivesse enraizado como tinha estado durante todos os anos em que dirigiu o departamento criativo da agência. Sempre tinha sido revigorado pela estabilidade, não pela estase. E aquilo era estagnação. O que tinha agora era a ausência de todas as formas de consolação, uma total aridez a que chamavam conforto, e nenhuma hipótese de voltar ao que era antes. Tinha-se apoderado dele uma sensação de "alteridade", uma palavra que no seu léxico pessoal descrevia um estado que lhe era quase estranho até que a sua aluna de pintura Millicent Kramer a tinha usado em tom lancinante para lamentar o estado a que tinha chegado.Já nada lhe despertava a curiosidade ou satisfazia as necessidades, nem a pintura, nem os vizinhos, nada a não ser as mulheres jovens que de manhã se cruzavam com ele no passeio marítimo, a fazer jogging. Meu Deus, pensava, o homem que eu era! A vida que me rodeava! A força que eu tinha! Não sentia nenhuma "alteridade"! Em tempos que já lá vão fui um ser humano completo.


Philip Roth, Todo-O-Mundo, Dom Quixote, 2006