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23 agosto 2012

Excerto 2


"Guten Tag", digo a Herr Schroeder quando o encontro. "Tag", acena ele com a cabeça e sorri vagamente. Herr Schroeder é o nosso carteiro. Embora não fale com ele com muita frequência, é a única pessoa que vejo todos os dias
Herr Schroeder colecciona selos. "Guarde-me todos os que forem interessantes, sobretudo aqueles novos, croatas" diz ele. "Basta que mos deixe em cima da sua caixa do correio".
E eu deixo, quase amorosamente.
Herr Schroeder vem todos os dias exactamente às 10h,30. Da minha varanda do primeiro andar, monitorizo a sua pontualidade. Se sinto que há alguma hipótese de me ver - basta-lhe olhar para cima - delizo par trás da cortina. E sinto uma vaga excitação ao fazê-lo.
Assim que ele se vai embora, corro até ao rés-do-chão, para ver se há algum correio. Do cimo das escadas vejo logo, com inexplicável satisfação, que ele levou os selos que lhe deixei na véspera.
Aquela sequência - o movimento da minha mão segurando a cortina fina enquanto deslizo para trás dela para me esconder, baixando a cabeça, e um pouco mais tarde a nuca cinzenta de Herr Schroeder enquanto avança pelo caminho para a direita ( sempre para a direita!) - aquela sequência vem-me muitas vezes à cabeça, como se estivesse a vingar. É a medida integral da minha solidão berlinense.

Dubravka  Ugresic, O Museu da Rendição Incondicional, Ed. Cavalo de Ferro, 2011

Foto: Nathalie Mohadjer, Weimar Paradies


19 agosto 2012

O Barco - A Aldeia


Uma traineira portuguesa, azul, enrola um bocado do Atlântico.
Bem ao longe, um ponto azul, mas eu estou lá - onde seis homens
  a bordo não veem que nós somos sete.

Assisti à construção de um barco destes, parecia um alaúde enor-
me sem cordas
na ravina de pobreza: a aldeia onde lavam e lavam sem parar, com
fúria, paciência, melancolia....


Tomas Tranströmer, 50 Poemas, Relógio D'Água, 2012
(Tradução Alexandre Pastor)

Foto: C.

05 agosto 2012




Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.

Ruy Belo

13 fevereiro 2011

Oui Non

... a fotografia é uma celebração do mundo, a perseguição de um puro prazer estético, a exaustiva pesquisa da essência das coisas, a misteriosa transferência para as suas imagens do que constitui o foro íntimo do fotógrafo: os seus sonhos, fantasmas, receios, pulsões, esperanças, recordações.

 Gérard Castello-Lopes



“Oui Non” é o título da exposição de fotografias de Gérard Castello-Lopes, patente no CCB até 25 de Abril.

13 agosto 2010

Hoje


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só p'ra mim

Sophia de Mello Breyner Andresen
Foto: C.

14 julho 2010

Notícias do reino onde as plantas são animais e os animais são flores


No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I

O Nuno tem uma paixão. O mar, espaço de silêncio, luz e pedra é o seu fascínio desde criança e, como todos os apaixonados, ele é um criador e um homem feliz que dá a ver aos outros coisas lindíssimas.
(chegou há pouco do fundo do mar e trouxe notícias daquele mundo. Vamos ver na SIC, domingo, dia 18, após o Jornal da Noite: Missão Selvagens)

23 dezembro 2009

...porque a única verdade é que vivemos

--------*

« [...] coisas como o sentido da vida, a busca de uma transcendência, a morte e a passagem do tempo, o conflito das gerações e por aí fora, não têm mais importância do que pôr e tirar o chapéu, beber um copo de água, fumar um cigarro, dar uma gorjeta, colher uma flor ou coçar o nariz. A vida passa-se a todos os níveis e porventura mais nos que não conseguimos nomear. Ninguém vale mais que o outro, tudo conta e de tudo depende cada destino. Cada silêncio tanto como o que se diz. O infinitamente grande só se vê com um microscópio. Porque a vida é assim. [...]
Eu ainda choro com esta sensação de vida. Ainda não desisti de ser apaixonado. Já sinto passar o tempo, mas ainda não quero chegar à idade da sabedoria. »

Luís Miguel Cintra
Foto de Stefano Corso
* John Firmin - Harlem Nocturne

24 outubro 2009

Uma nesga de luz


Foto:Paulo

A nave central do Museu de Arte Moderna de S. Francisco (SFMOMA) permite observar um fantástico jogo de luz e sombras aproveitando uma clarabóia cuja configuração, curiosamente, faz lembrar a cobertura da Bibliteca de Alexandria.
É um projecto dos anos 80 do século XX, do aquitecto italiano Mario Botta e é considerada uma das obras "pós modernas" mais marcantes da Costa Oeste dos EUA.

23 setembro 2009

Entre nós e as palavras há metal fundente

 *

Ruhrpottlady - Light Spot

Não, não me devias ter mentido acerca do mundo – (e eu, que só queria acreditar em tudo o que dizias.)
Devias ter-me ensinado a inclinação perfeita do gume, ter-me treinado no golpe contido e certeiro nas asas das vespas (os brinquedos eram de madeira, seriam perfeitos).
Devias ter insistido comigo no ajuste das receitas: metade mel, metade cicuta. Aprenderia a arder um fósforo na falange, sem gemidos, sem vacilação das pálpebras, sem paixão.
Em vez da lógica de todas as demências, em vez da geografia dos êxitos, em vez da fuga aprazada, ensinaste-me a dormir sobre a consolção da alma, esse interstício insaciavelmente obscuro.
Devias ter-me dito a verdade acerca do choro dos homens e do riso das bestas. Sempre achei incrível como os cães podiam sorrir às ameaças dos donos. Nunca acreditaste que isso era possível. E ensinaste-me que nunca se jura sobre o que não se sabe. Mas juravas pelos anjos e arcanjos das pagelas e santinhos que havia uma bondade natural no coração dos homens.

Não, não me devias ter mentido sobre o mundo. Eu teria aprendido a desconfiar da minha própria condição de humano e não seria incauto viajante ou obstinado pescador de estrelas. Devias ter-me dito a verdade: que ninguém escapa, ninguém escapa à sedução da posse da palavra soberana. Que ninguém avisa da vilania e que ninguém... ninguém tem o coração puro.
Devias ter-me dito: a alma é um intestino que se enche - nuns dias frango gourmet noutros paté e vinho maduro; e o mais é trabalho de fotógrafo em dias de feira. Devias ter-me dito, eu ia perceber tudo. Eu tinha os olhos sempre acesos noite dentro, como se ela trouxesse a verdade insofismável da brancura.

O que me devias ter ensinado – hoje sei – é do silêncio dos livros e do labor das rosas.

E eu apenas venho aprendendo a morrer esse amor.

Título: transcrição do primeiro verso do poema You are welcome to Elsinore, de Mário Cesariny
* Nick Cave & Warren Ellis - The Road, do álbum White Lunar, 2009

01 setembro 2009

05 agosto 2009

Fariseias


Gostam de ser cumprimentadas
nas praças
e de ter o primeiro lugar
à mesa dos banquetes
são calculistas
formigas carreiristas
cheias de sucesso
e tudo usam e tudo gastam
indistintamente
porque são altas as suas entropias
e depois não sabem dar
os bons-dias às mulheres-a-dias

Adília Lopes, in Caras Baratas, Relógio D'Água, 2004
Foto: Julia Fullerton-Batten

Adília Lopes (n.1960) é poeta, cronista e tradutora. O quotidiano, principalmente o universo feminino, os velhos, os diferentes e a "anormalidade" são temáticas recorrentes na sua obra. Fá-lo duma forma original, mesmo muito pouco comum: «há sempre uma grande carga de violência, de dor, de seriedade e de santidade naquilo que escrevo» (A.L.)

03 agosto 2009

Ver, Olhar e Sentir com Evgen Bavcar



É um artista de fotografia e é cego. Chama-se Evgen Bavcar .
Nasceu em 1946 na Eslovénia e deixou de ver aos 12 anos, depois de dois acidentes sucessivos.
Bavcar estudou História e Filosofia na Universidade de Ljubljana e Filosofia na Sorbonne.
Em Paris, iniciou uma carreira académica e intensificou a sua actividade fotográfica. Em 1988 foi nomeado Fotógrafo Oficial do Mês da Cidade Luz e a partir daí o seu trabalho tem tido grande divulgação, sobretudo na Europa.
O trabalho de Bavcar relaciona a visão, a cegueira e a invisibilidade: O meu objectivo é juntar o visível e o invisível, fotografar permite-me subverter a estabelecida divisão entre os que vêem e os que não vêem.
A imagem não é algo necessariamente visual: quando um cego diz que imagina, significa com isso que tem uma representação interna de realidades externas, que o seu corpo faz a mediação entre ele e o mundo.
Bavcar usa por vezes óculos que têm, no lugar das lentes, pequenos espelhos para que quem fale com ele possa ver o seu próprio reflexo e não se perturbe por falar com um cego...

07 julho 2009

Dizer as sombras


*

Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.

O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor - muito melhor!
-Do que tu.

Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny, O Virgem Negra, Assírio & Alvim, 1996
* Melody Gardot, Our Love is Easy
Foto de C. ("Parede com Sombras")