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13 outubro 2012

Cultura e Resistência

Chegam sozinhos ou em grupo, como gotas enchendo um caudal a desaguar na Praça.
Alegres, risonhos, festivos são, sobretudo, cultos. Bonitos, claro.
A emoção, a pressa e a impaciência dominam a cabeça e os corações dos que sentem que agora é que é e o sol outonal brilha no olhar dos que trilham carreiros conhecidos.
Enquanto o sol se põe, irão, juntos, saltar, dançar, aplaudir e cantar. Brilham sonhos nas pontas dos cigarros que acendem uns nos outros, enquanto vão descobrindo a música e as palavras que entram devagar na pele e na noite.

17 maio 2011

À mesa do café com o Tomás, o Gil e a Joana (...e o Hélder)



Ontem à noite, no Bar da Barraca- Cinearte, confrontaram ideias e ideais, Tomás de Torquemada, Gil Vicente e Joana d'Arc.
Num diálogo vivo e acutilante, suscitado por Hélder Costa, promotor e moderador da reunião, foi possível juntar à mesa três personagens históricos do século XV num debate sobre as grandes questões da Humanidade e os respectivos percursos pessoais.
Ali, pelo menos, não dominou a finança.
Interessante, pedagógico e lúdico, os Encontros Imaginários são uma iniciativa muito estimulante  da Barraca, que merece ser vista e participada .

Em 6 de Junho, estarão a tomar café: Luther King, Maria Callas e Ku-Klux-Klan

14 agosto 2010

O Que Diz Bolaño


Antanho,os escritores de Espanha (e da América Latina) entravam no redondel público para o transgredir, para o reformar, para o queimar, para o revolucionar. Os escritores de Espanha (e da América Latina) procediam geralmente de famílias acomodadas, famílias estáveis ou de uma certa posição, e, ao tomar eles a pluma, voltavam-se, ou revoltavam-se, contra essa posição: escrever era renunciar, era renegar, às vezes era suicidar-se. Era ir contra a família. Hoje, os escritores de Espanha (e da América Latina) procedem em número cada vez mais alarmante de famílias de classe baixa, do proletariado e do lúmpem-proletariado, e o seu exercício mais usual da escrita é uma forma de escalar posições na pirâmide social, uma forma de se acomodarem tentando o mais possível não transgredir em nada. Não digo que não sejam cultos. São tão cultos como os de antes. Ou quase. Não digo que não sejam trabalhadores. São muito mais trabalhadores do que os de antes! Mas são, também muito mais vulgares. E comportam-se como empresários, ou como gangsters. E não renegam nada, ou apenas renegam o que se pode renegar, e cuidam muito de não criar inimigos, ou de os escolher entre os mais inermes. Não se suicidam por uma ideia, mas sim por loucura ou raiva. As portas,implacavelmente, abrem-se de par em par. E assim a literatura está como está. Tudo o que começa como comédia acaba indefectivelmente como comédia.

Roberto Bolaño, através da personagem Pere Ordoñes, in " Detectives Selvagens", teorema

01 abril 2010

Fazes-nos mesmo falta, Mário!


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera!
e zás, comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar o que acontece.

in Novos Contos do Gin, de Mário-Henrique Leiria

Fazes-nos falta, Mário!

Mário Viegas 10 / 11 / 1948  -  1 / 04 / 1996

Mário Viegas faleceu há 14 anos. Faz-nos falta a sua sensibilidade e o amor pela poesia, o humor cáustico e o riso implacável perante a  hipocrisia e o novoriquismo com que nos querem dominar o espírito. Faz-nos muita falta.

06 março 2010

Yo Leo en el Bar


Amo desparramarme en la mesa de un bar, bien típico de Buenos Aires, y quedarme leyendo horas junto a un café con leche. Esto sólo se puede hacer en algunos bares, los de mesa de fórmica, mozos de más de 40, dueño generalmente gallego, AM de fondo -a veces muy fuerte-. Allí donde pasan con dos jarras metálicas, en una leche, en otra café, y te lo sirven frente a tus ojos. (Recomiendo la esquina de Azcuenaga y Paraguay, el bar del gallego. Pedir un café con leche con un CAMPERO, si les preguntan… Sí! con huevo, completo)
Me dejé llevar, perdón. El Gobierno de la Ciudad lanzó el programa “Yo leo en el bar” una propuesta que incluye la instalación, en 15 bares, de bibliotecas con la obra completa del Jorge Luis Borges.
Algunos de los libros que se podrán leer son: El Aleph, Atlas, El libro de arena, El libro de los seres imaginarios, Fervor de Buenos Aires, Los mejores cuentos policiales y las Obras Completas I, II, III y IV, donados por la editorial Planeta.
Los 15 bares son:
TORTONI, Av. De Mayo 825, 4342-4328
EL GATO NEGRO, Av. Corrientes 1669, 4371-6942
EL PROGRESO, Av. Montes de Oca 1700, 4301-0671
MAR AZUL, Tucumán 1700, 4374-0307
CONFITERIA SAINT MORITZ, Esmeralda 894, 4311-7311
MARGOT, Boedo 857, 4957-0001
36 BILLARES, Av. De Mayo 1048, 4381-5696
BAR HOTEL CASTELAR, Av. de Mayo, 1152, 4383-5001/9
BARoBAR, Tres Sargentos 415, 4311-6856
LA GIRALDA, Av. Corrientes 1453, 4371-3846
LOS LAURELES, Av. Iriarte 2290, 4303-3393
LA POESÍA Chile 502, 4300-7340
IBERIA Av. de Mayo 1196, 4381 6300
EL FEDERAL, Carlos Calvo 395 / 99, 4300 4313
EL QUERANDI, Perú 302, 4345-1770
Texto "roubado" AQUI
Buenos Aires continua a exercer o seu fascínio. O Ministério da Cultura lança na cidade o projecto Yo Leo en el Bar, que consiste na instalação de Bibliotecas com obras de Jorge Luis Borges em cafés e bares da cidade. A proposta foi anunciada ontem e tem a adesão da maioria dos cafés com tradição nas tertúlias culturais da cidade.
É seguramente uma das melhores homenagens que poderia ser feita ao escritor, à leitura e ao livro.
E mais uma (boa) razão para ir ou voltar a Buenos Aires: são tantos os cafés para visitar.
Ler também AQUI e AQUI

21 novembro 2009

O corpo como objecto de design

A criação artística tendo como tema e objecto a biotecnologia ou a utilização da investigação científica como expressão artística é o tema da exposição presente na Cordoaria Nacional, até 24 de Novembro - Inside (arte e ciência).
O tema tem ali algumas intervenções muito interessantes, como a de Leonel Moura: Criatividade Artificial; Miguel Chevalier: Flores Fractais ou Philip Ross: Plantas Cibernéticas, todas em torno da utilização dos avanços tecnológicos na criação artística.
Outras obras são, no mínimo, inquietantes, como a de Sterlac, defensor da ideia de que o corpo já não é só um espaço de expressão de ideias ou intervenção social, mas passou a ser também uma estrutura modificável ("the body not an object of desire but an object of designing"). É dentro deste conceito que surge a sua última obra, ainda inacabada, de criação duma terceira orelha no antebraço esquerdo. Quando terminada, esta orelha terá um equipamento que, por bluetooth, coloca na internet todos os sons por ela "ouvidos".


19 novembro 2009

reflexão em torno de pandemias e outras exaltações


Neste início do século, sobretudo nas sociedades ocidentais, a doença e a morte são acontecimentos estranhos, misteriosas e, em larga medida e qualquer circunstância, inaceitáveis. Abrimos uma excepção para as doenças terminais em que aceitamos, às vezes exigimos, a morte como forma de alívio ao sofrimento (sobretudo o nosso).
Construiu-se um conjunto de expectativas em torno da saúde e do corpo que se tornaram dominantes na sociedade: esperamos sentir-nos bem, sem incapacidades, dores ou desconforto até muito tarde. Sempre, se possível.
É intolerável a morte de uma criança e espera-se que todas tenham uma infância sem doenças, que as mulheres tenham filhos sem complicações e que qualquer intervenção cirúrgica seja sempre bem sucedida.
O facto de, quase sempre, estas expectativas se concretizarem faz com que a "verdade" de reforce.
A saúde, o bem estar e a ausência de sofrimento tornaram-se uma forma de religião em que o falhanço e o inexplicável não é aceite, justamente porque a Medicina se tornou uma crença.
E não é.

(É do conhecimento público a especulação em torno das recentes mortes fetais e da sua utilidade na abertura de telejornais. Sente-se, como sempre, a necessidade de encontrar a causa, a razão, a culpa para o incompreensível que se rejeita; para mais, com o drama de uma previsão de mais 30 mortes até ao fim de Dezembro.
A resposta das autoridades, sobretudo depois de terem explorado o medo até à nausea, é a negação pura e simples. Nada que ponha em causa os seus dogmas. É outra crença.)
Pintura: The Doctor, Luke Fildes (O quadro inspira-se no momento em que o médico observava Philip, o filho do pintor, pouco antes da sua morte, no Natal de 1877).

18 novembro 2009

Duas extraordinárias mulheres, um momento único.



Alison Balsom (1978), trompetista, Sarah Connolly (1963), mezzo-soprano, George Gershwin (1898 – 1937), a Orquestra Sinfónica da BBC, os Concertos Promenade e a prova (se preciso fosse) de que só existem dois tipos de música, a boa e a má.
Apreciem, ou, como diriam no Royal Albert Hall, enjoy!!.


16 novembro 2009

muito louco de ser feliz

A TV Cultura é uma emissora de televisão brasileira com sede em São Paulo. É uma televisão pública, fundada em 1969, que tem, sobretudo, conteúdos educativos e culturais.
Os arquivos do programa Radiola, da TV Cultura são importantes registos da história do Brasil e da sua música.
O YouTube tem os mais importantes: Elis Regina, Chico Buarque, Caetano, Luis Gonzaga e tantos outros.
Este que aqui fica é, na minha opinião, um dos mais significativos. Pela beleza da filmagem e pelas palavras, ditas e cantadas, deste homem extraordinário.