Pede-se à escola que faça o que é do domínio da casa. Da família. Devia-se pedir-lhe que ensinasse, e bem, apenas. O resto já lá deveria estar quando as crianças chegassem ao portão de entrada. A escola é (foi sempre e será) um espaço formal. E quem não aprende, antes de chegar à escola, que há regras e disciplina próprias desse espaço, não terá, nunca, uma relação gratificante com ela, com os professores, com os seus agentes. Não terá memória de ter aprendido coisas que, só à escola devem ser pedidas. Que só ela pode dar ( um exemplo apenas, entre outros, é o da oportunidade de leituras que os alunos nunca fariam fora da escola). Independentemente de toda a facilidade com que hoje se tem acesso à informação. Estou a distinguir informação de conhecimento, de saber ou saberes. Falo da integração do que se lê, do que se escreve, do que se inventa, do que se discute, em cada um dos alunos. Falo de auto-sócio-construção. Diferente da que se faz (ou devia fazer) em casa.
Veio este post a propósito de um excerto de um livro interessantíssimo, diria irrecusável, onde George Steiner e Cécile Ladjali (professora de francês em escolas suburbanas e multiétnicas da grande Paris, onde, em geral, ninguém deseja ser colocado) dialogam sobre educação, escola e literatura.
Transcrevo apenas um parágrafo dos que, quanto a mim, mais instiga à reflexão:
«George Steiner: Paciência, hesitação, lentidão. Ouça, foi Pascal que, como sempre, disse tudo: 'Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação.' E é terrivelmente difícil.»
Elogio da Transmissão: O Professor e o Aluno, George Steiner e Cécile Ladjali, Lisboa: Dom Quixote, 2005.
