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04 novembro 2012


.....Vitória era uma mulher tão poderosa como se um dia tivesse encontrado uma chave. Cuja porta, é verdade, havia anos se perdera. Mas, quando precisava, ela podia se pôr instantaneamente em contato com o velho poder. Já sem nomeá-lo, ela por dentro chamava de chave aquilo que sabia. Não se indagava mais o que tanto soubera; mas vivia disso.

Foi, pois, procurando o auxílio de tudo o que sabia que ela mais tarde olhou absorta o prato de comida que o homem esvaziara na cozinha. Tentou também imaginá-lo a instalar a porta do depósito de lenha. Ela lhe dera a porta do depósito, grande e estranho objeto a se dar. Como a vinda totalmente imprevisível do homem já tinha quebrado um certo círculo de ordem em que ela se movia como dentro de uma lei, com relutância foi obrigada pelo menos a reconhecer que alguma coisa sucedera, embora não soubesse dizer o quê. Então pensou, um pouco constrangida com seu próprio ato livre, e de algum modo curiosa: “é a primeira vez que dou uma porta a alguém”. O que a enraizou numa sensação sem saída. Era a segunda vez que o homem a perturbava....

(Clarice Lispector, A Maçã no Escuro)
Pintura Fernando Botero

21 maio 2011

A fazedora de ilusões

Como lá em casa o dinheiro andava a cavalo e nós a pé, quando chegava à Mina algum filme que o meu pai – só pelo nome do actor ou actriz principal – achava que era bom, juntavam-se as moedas uma a uma, à justa para o bilhete, e mandavam-me ir vê-lo.
Depois, à vinda do cinema, eu tinha de o contar à família reunida em pleno na divisão do "living".

Era lindo, depois de ver o filme, encontrar o meu pai e os meus irmãos à espera em casa, ansiosos, sentados em fila como no cinema, penteadinhos de fresco e com a roupa mudada.
O meu pai, com uma manta boliviana sobre as pernas, ocupava o único cadeirão que nós tínhamos, e era aí a plateia. No chão, ao lado do cadeirão, reluzia a sua garrafa de vinho tinto e o único copo que restava em casa. A galeria era o banco comprido, de madeira bruta, onde os meus irmãos se instalavam por ordem, do mais novo ao mais velho. Depois, quando alguns amigos deles começaram a assomar à janela, passou a ser aí o balcão.
Eu chegava do cinema, bebia depressinha uma caneca de chá (que já tinham preparado para mim) e dava início à sessão. De pé diante deles, de costas para a parede caiada, branca como o ecrã do cinema, punha-me a contar-lhes o filme “de pé a pá”, como dizia o meu pai, procurando não esquecer nenhum pormenor, nem do argumento, nem dos diálogos, nem das personagens.
A propósito, devo esclarecer aqui que não me mandavam a mim ao cinema por ser a única mulher da família e eles – o meu pai e os meus irmãos -, uns cavalheiros com as damas. Não, senhor. Mandavam-me porque eu era melhor do que eles todos a contar filmes. É como digo: a melhor contadora de filmes da família. Depois passei a ser a melhor da correnteza e, daí a pouco tempo, do acampamento. Que eu soubesse, não havia ninguém na Mina que me ganhasse a contar filmes. De qualquer género: de "cow boys", de terror, de guerra, de marcianos, de amor. E, claro está, mexicanos, que eram os que o meu papá, como bom sulino, mais apreciava.
E foi precisamente com um mexicano, daqueles bem contados e chorados que ganhei o título. Porque o título, foi preciso ganhá-lo.
Ou julgam que fui eleita pelo meu físico?....

Hernán Rivera Letelier, A Contadora de Filmes, Ed. Presença, 2011

10 março 2011

Bomarzo

Vim ao mundo em tempos de violência. Nesse ano de 1512 o velho Júlio II – o papa terrível, infatigável, que, apesar do mal gálico e da gota que o retorciam, arrastava cardeais, príncipes e chefes militares em furiosas cavalgadas, e que vivia entre soldados, com a pele de carneiro que punha sobre a couraça suja de sangue e lama – trocou as armas da guerra pelas da astúcia e fingiu estar morto, com um ardil de raposa que passa da rigidez à dentada, para atrair à armadilha de Roma os prelados hostis que, obedecendo à política estrangeira, se haviam reunido em concílio em Pisa. Quando os teve em seu poder aterrorizou-os e reduziu-os à obediência. Nesse ano faleceu Pandolfo Petrucci, déspota de Siena, sem ninguém que o chorasse já que a sua vida era plena de crimes. Depois de um longo interregno republicano, os Médicis tornaram a Florença, também nesse ano, com os seus dois futuros papas e os seus dois duques anódinos e bem parecidos, o "Pensieroso" e o tio, que se contemplam eternamente nos sepulcros de Miguel Ângelo; e Maquiavel, contra sua vontade, retirou-se para meditar sobre as décadas de Tito Lívio e planear o seu retrato do Príncipe, breviário de sábia perfídia.
Nesse ano subiu ao trono o sultão Selim I, o poeta parricida que assassinou toda a sua família e viveu para guerrear. E a Europa eriçou-se de pânico. O mais insigne dos antepassados do pobre Toulouse – Lautrec (que herdou, se não o seu porte, a sua desdenhosa audácia senhoril), Odet de Foix, visconde de Lautrec, em cujas fileiras o meu pai se bateu, foi perigosamente ferido em Ravena nesse ano. Nesse ano morreu Gastão de Foix, um jovem sobrinho de Luís XII, com quinze cutiladas no rosto, e o rei perdeu a Itália. Toda a Itália ressoava e crepitava com o fragor das armaduras que se entrechocavam. E nesse ano começou a mostrar as garras Alexandre Farnese, esse que viria a ser Paulo III, recebendo ordens de diácono. Mas também nesse ano, seis meses depois do meu nascimento, Miguel Ângelo Buonarroti mandou retirar os andaimes que cingiam como diques de enredado madeiramento as pinturas da Capela Sistina; desceu, qual ermitão profeta que sai da sua longa clausura, e a criação do mundo revelou-se, potente, gloriosa, voluptuosa, intimidante, num apaixonado entrelaçado de músculos ágeis e jovens, perante o espanto da corte pontifícia que acorria dos campos de batalha, sacudida pela constante presença da morte e do rancor nos acampamentos militares, para ver, lá em cima, lá no alto, sobre os perfis torcidos, sobre a dor das nucas, sobre o arquejar das respirações e o trémulo silêncio, algo que parecia, na sua robusta confusão, um mar multicolorido de espumas prestes a precipitar-se, gritando, bramindo, livre dos diques e do mago de nariz partido que o imobilizavam, sobre a Itália frenética, órfã de Deus.

Manuel Mujica Lainez, Bomarzo, Trad. Pedro Tamen, Sextante Editora

Atrevo-me a dizer que os amantes da leitura se podem dividir entre os que já leram Bomarzo e os que, por enquanto,  ainda não o leram...
Bomarzo é um romance que nos conduz numa magnífica e vertiginosa aventura . É  um extenso fresco do Renascimento, um retrato fantástico da Itália do século XVI, dado através da vida do atroz Pier Francesco Orsini, Duque de Bomarzo e construtor do seu Sacro Bosque.
Nas 630 páginas desta fabulosa narrativa, Manuel Mujica Lainez pinta a Renascença ´em toda a sua glória e nas suas mais tenebrosas misérias.
No final fica a vontade de continuar, seguir os passos daqueles que fomos conhecendo, amando e desprezando,  através do retrato psicológico denso e profundo feito por este autor tão pouco conhecido.
Belíssima tradução de Pedro Tamen

05 dezembro 2010

A magia dos dias

  

...Vivíamos então em Esposende numa pequena casa de praia que comprámos à senhoria, uma senhora não sei se dinamarquesa. Foram quatro anos em que escrevi muito e conheci dias bons com o mundo e comigo mesma. Minha filha estava no colégio interna, meu marido advogava no Porto e saía de tarde, voltando à noite, ficando eu e os gatos numa espécie de encantamento, a ouvir o suspiro do mar. Vinha à porta o carrinho da fruta, e a mulher que vendia dizia: " não sei como se dá nesta pasmaceira". Para ela toda a boa fruta era do Douro, inclusive as bananas. Não passava ninguém na rua, os tamarindos vergavam com o vento. A peixeira Cravelha ensinou-me a tirar a pele às azevias...

Agustina Bessa-Luis, O Livro de Agustina Bressa-Luis, Guerra e Paz, 2007
Música: Erik Satie, Gnossienne nº5 (Reinbert De Leeuw)
Foto: C.

03 novembro 2010

A espera

Esperei trinta e cinco anos por este dia. Nunca o toque a finados me tinha alegrado tanto. O filho da puta morreu. Até já parecia que a morte se havia esquecido dele. Não que ele me tenha feito qualquer mal. Ele apenas casou, sem o saber, com a mulher que eu amava.
Estive na Guerra de 14-18 e fui dado como morto. Quando voltei, ela tinha casado e, durante estes anos, contentei-me em vê-la de longe, sabendo que ela esperava por mim, como eu esperava por ela. Vivíamos os dois à espera que ele morresse. Qualquer doença, por simples que fosse, uma constipação, uma gripe, um resfriado, uma tosse, fazia-me rejubilar de esperança. Quando sabia que ele estava doente, dizia para mim próprio: "Será que é desta?" Mas o filho da puta enganava sempre a morte.
O tanger do sino, hoje, apenas veio confirmar aquilo que eu já sabia. Levantei-me e fiz o que faço religiosamente desde há trinta e cinco anos. Abri a gaveta da cómoda para cheirar a rosa seca e delida que ela me ofereceu em tempos, com o compromisso de só casar comigo. Olhei e nem queria acreditar, a flor reverdescera, como se tivesse acabado de ser colhida. Tanto tempo que eu esperei por isto, pensei, sorrindo.
Talvez seja já um pouco tarde, mas a minha mãe dizia-me sempre: "Mais vale tarde do que nunca". Por isso, vesti o fato que tinha comprado havia muito tempo para me casar com ela, calcei os sapatos pretos, pus a gravata, penteei os cabelos e coloquei a rosa na lapela do casaco. Depois, saí de casa, com a certeza de que nessa noite ia dormir com ela.
E foi mesmo isso que aconteceu.

Joaquim Mestre, Breviário das Almas, Oficina do LIvro, 2009

31 julho 2010

Diálogos de Verão...


- Querida Bárbara, não seria bem tua amiga se não te pusesse ao corrente. Ele tem outra...
- O meu Arnaldo? Achas?
- Fatal como o destino

Mário de Carvalho, A Arte de Morrer Longe, Caminho, 2010
Foto: Diane Arbus

Um "cronovelema" centrado em Arnaldo e Bárbara, um casal em vias de separação, os donos de um cágado que os une, separa e arrasta para situações inesperadas e absolutamente surrealistas.
Mário de Carvalho dá-nos a conhecer uma galeria de personagens e situações apresentados com a ironia e sarcasmo em que é mestre, levando-nos numa aventura fascinante de vidas vazias numa cidade onde se acumulam solidões.
Não só Arnaldo e Bárbara, como a amiga Clarinda, a mãe de Arnaldo e o namorado polícia são personagens fascinantes com quem, talvez, nos cruzamos todos os dias.
Lê-se de um fôlego.

06 julho 2010

A força do amor


O meu pai não se apercebeu de que quase não me tinha abraçado até perder o braço direito num acidente de trabalho que o fez estar quarenta dias hospitalizado. Sempre que ia visitá-lo, eu olhava para o braço que ele não tinha como se fosse mais visível do que o esquerdo. Mas a ausência, claro, carecia de volume. Era um braço de ar. Aquele empenho em observar o inexistente não me permitiu chegar a nenhuma conclusão, mas sim a uma enorme estranheza que de noite, na cama, tentava inutilmente digerir. Queria perguntar a minha mãe o que haviam feito com o braço amputado do papá, mas uma espécie de instinto dizia-me que se tratava de uma pergunta indecorosa.
Quando o meu pai voltou para casa, o vazio do seu braço ficou coberto pela manga das camisas ou dos casacos, que às vezes se mexia como se tivesse vida própria. Eu não podia deixar de olhar para ela porque me atraía fatalmente, tal como as cortinas que ondulam com a passagem do ar sugerindo a existência de alguém escondido atrás delas. A minha mãe disse-me num aparte que devia controlar aquela forma de olhar porque fazia o meu pai sofrer. O meu pai era dextro, pelo que teve de aprender novamente a fazer tudo com o braço esquerdo. Assisti, perturbado, ao seu processo de aprendizagem. Levar uma colher de sopa à boca obrigava-o a um esforço humilhante e brutal. Durante esta época, decidi ser ambidextro e passava os dias a treinar com o braço esquerdo para não padecer o sofrimento do meu pai no caso de sofrer uma desgraça como a dele.
O que era mais difícil para o meu pai era a recordação de que pouco me havia abraçado enquanto pudera fazê-lo. Não sei em que momento nem por que razãose apercebeu de que tinha esta dívida para comigo, mas transformou-se numa obsessão. Quando estávamos sozinhos, pedia-me que me aproximasse dele, rodeava-me o corpo com o braço esquerdo e colocava a manga direita do casaco de modo a parecer que tinha um braço dentro.
- Arrependo-me tanto de não te ter abraçado... - dizia-me ao ouvido enquanto eu tentava libertar-me dele.
Mas não podia, não me era possível libertar-me porque me segurava com força, com força, e não com o braço esquerdo, como seria de supor, mas com aquele que lhe faltava, o direito. Por esse braço inexistente me sentia eu agarrado. Ainda continuo a estar.

Juan José Millás
Foto Willy Ronis

16 junho 2010

História Mínima


Há duas horas que espero e que me importa se me olham, resmungo em voz baixa enquanto procuro ver-me num ângulo do espelho para alisar o cabelo e endireitar o nó da gravata. Vêem-se muitas coisas no espelho: costas de material sintético que ostentam casacos de marca; pernas metidas em calças de linho porque o Verão se aproxima; estranhas estruturas vagamente antropomórficas como suportes de camisas ou camisolas daquelas que se usam negligentemente sobre os ombros e, entre dois pares de mocassins, vê-se também a minha cabeça, o meu rosto um pouco nervoso, sério, esperançoso.
As pessoas olham para mim, algumas sorriem, outras dão uma cotovelada ao companheiro de caminho para que repare em mim, e sei que não é pela minha indumentária. Vestido ou despido, nunca passarei despercebido. Cortei umas flores no parque vizinho, nada de especial, flores simples que ali estavam, ao alcance da minha mão. Nem sequer sei como se chamam.
Virá? Duvido, porque sei como é difícil vencer o medo que não é medo, a vergonha que não é tal, a culpa mais inocente. Duvido e, para mitigar a desconfiança destas horas em que permaneço à espera, acendo um cigarro. Atraio muito mais olhares dos passantes. É sempre assim. "Está a fumar", "está a comer", "está a chorar". Faça o que fizer, é sempre assim.
De repente olho para o ramo de flores e descubro que a minha mão, longe de as segurar, as aperta, as estrangula com essa violência mínima que basta para destroçar os frágeis pescoços vegetais. Sorrio ao pensar que em tão ínfima porção de tempo ficaram murchas, como as bandeiras de um diminuto exército vencido, e as pétalas como trapos sugerem-me que é tempo de empreender a retirada.
Atiro as flores para o primeiro caixote de lixo que encontro e afasto-me, seguido pelo olhar dos passeantes e pelas suas vozes que dizem: viste como o anão deitou fora as flores? Teria um encontro? Com uma anã? Deixaram o anão plantado. São estranhos os anões.
E outras observações cuja elevação não quero nem devo comentar.

Luis Sepúlveda, Lâmpada de Aladino, Porto Editora, 2008
Pintura Man Ray

Lâmpada de Aladino é constituída por treze belíssimos contos em que nos são revelados lugares e personagens  inesquecíveis. Em todos há uma espessura e uma densidade de sentimentos que fazem com que cada um pudesse também desenvolver-se  num grande romance.

02 junho 2010

A inescrutabilidade de alguns propósitos

Ele ia todas as semanas a Barcelona por causa de assuntos da empresa e ela imaginava que ele ficava lá para sempre. Barcelona era na sua fantasia um espaço irreal de onde algumas pessoas não conseguiam voltar. O marido, no entanto, voltava e sem ter perdido uma pitada da sua autenticidade. Quase poderíamos dizer que regressava mais autêntico do que quando fora. As terças-feiras, enfim, eram dias felizes até que à noite ouvia deslizar a chave dele na fechadura.
Naquela terça-feira ela teve a premonição de que o avião sofreria um acidente em que pereceriam todos os passageiros.Teve-a antes de sair da cama, com um pé no sono e outro na vigília, e pensou que a ideia lhe sairia da cabeça no duche, ou enquanto estivesse a fazer o café. (...)
Quando ficou sozinha, ligou o rádio e esperou ansiosamente que dessem a notícia. Demoraram um pouco mais de uma hora, mas caíra um avião, com efeito, e era aquele em que seu marido viajava.(...) À hora do almoço ainda não recebera nenhuma chamada, mas não se preocupou por achar que a identificaçãodas vítimas seria muito laboriosa. O importante era que morrera. Venderia a casa, que ficava nos arredores, e iria viver para o centro, para estar perto dos cinemas, dos restaurantes, do bulício. O marido dela nunca gostara de Madrid, e por isso viviam na periferia. Ela detestava a periferia. O seguro de vida era muito alto e duplicava em caso de acidente. Não teria problemas em seguir em frente. (...)
A meio da tarde começou a inquietar-se, mas ligou o rádio e disseram que nem tinham começado as tarefas de identificação.(...)
Às oito e meia, ao ouvir um ruído proveniente da porta, foi até ao corredor e viu o marido entrar com toda a naturalidade. A primeira coisa que pensou foi que era uma aparição. Muitos mortos não se apercebiam que estavam mortos e continuavam a fazer as mesmas coisas que faziam quando estavam vivos. (...)
Deduziu que às terças-feiras não ia a Barcelona, mas sim que se encontrava com alguma amante nalgum sítio muito isolado, pois nem sequer soubera do acidente.
- Não soubeste que o teu avião teve um acidente e que estás morto, meu cabrão?
- O que estás a dizer, mulher?
- Que ainda não te identificaram. Não ouviste a rádio durante todo o dia?
Ele ficou corado de vergonha e durante uns instantes hesitou em fingir que era uma aparição.
- Pois para mim, a partir de agora, estás morto - disse ela, indo para a cama sem ver a televisão.
Desde esse dia ele começou a fazer-se morto e as suas relações, com alguma surpresa, melhoraram inefavelmente. Às terças feiras deixou de fingir que ia a Barcelona e passavam o dia todo juntos, na cama, como se fossem amantes clandestinos.Descobriram a necrofilia os dois ao mesmo tempo e há alguns meses conheceram o prazer de ter filhos póstumos. Agora, por fim, são uma família feliz, normal, das que conhecemos todos os dias e das que nos despedimos todas as noites.
Os caminhos do Senhor são inescrutáveis.

João José Millás, Os Objectos Chamam-nos

16 maio 2010

A indomável paciência da Mestre


EXPEDITO, tímido, fala às vezes o que não quer:
"Você tem umas pernas tão bonitas, boas pra gente bater um papo".
Ai, que susto, Expedito, paradão.Você bem que quer, hein? Te falta é jeito, te falta é, em pequeno, ter tido coragem de desejar não ter mãe.
"Vão tomar banho comigo, gente?" 
É o que você disse com modos de quem pede licença pra fechar a porta, eh Expedito, com a sala cheia de moças! Se aproveita para falar  o que você pensa, ou você não pensa, Expedito, fica só sentindo, inocente e aceso?
Parece seminarista, parece regente de meninos cantores, parece um que confundiu a religião com o modo. Se eu bato palmas, você se assusta, você fica corado, você baixa os olhos.
Eu deixo você sem fala: te chamo de Dito, bebo o resto de seu café, na sua presença, passo os dedos da mão entre os dedos do pé, como se o que eu sentisse fosse coceira só. 
Você fica atônito, esquece de ir-se embora, me empalha, me deixa sem banho, sem comida, sem ar. Mas eu gosto de proteger o sexo forte.
Melhor estará comigo, que sei o que estou fazendo. Eu tenho paciência com você.
Eu não te largo, Expedito, até você virar expert. Dito? 

Adélia Prado,  Aluno e Mestre

11 abril 2010

A música, a escrita e o prazer de ler


"... No entretanto já se desencadeou o apocalipse, porque Louis não faz mais do que levantar a sua espada de ouro, e a primeira frase de When it's sleepy time down South cai sobre as gentes como uma carícia de leopardo. A música sai do trompete de Louis como os filmes falados das bocas dos santos primitivos, desenha-se no ar a sua quente escrita amarela, e atrás desse primeiro sinal solta-se Muskat Ramble enquanto nós nos agarramos nos nossos lugares a tudo aquilo que temos à mão, e também àquilo que é dos vizinhos, de forma que a sala parece uma vasta sociedade de polvos enlouquecidos, e ao centro está Louis com os olhos em branco atrás do seu trompete, com o seu lenço a flutuar numa despedida contínua de algo que não se sabe bem o que é, como se Louis precisasse de dizer um adeus perpétuo a essa música que cria e se desfaz no mesmo instante, como se soubesse o preço terrível dessa maravilhosa liberdade que é a sua."

Julio Cortázar, A Volta ao Dia em 80 Mundos

A fantástica narrativa de J.Cortázar em torno de um concerto de Louis Armstrong nos anos 60 do século XX, conduz-nos num voo pleno de referências literárias, mergulhando os sentidos na música (que na leitura não se ouve mas se sente), nos movimentos que se adivinham e na emoção que nos invade. Um texto que é uma homenagem à música, à sensibilidade e à cultura universal.

"No meio de tudo isto Louis escondeu o copo, tem um lenço fresco na mão, e então vem-lhe a vontade de cantar e canta, mas quando Louis canta a ordem estabelecida das coisas detém-se não por qualquer razão explicável, mas porque tem de deter-se quando Louis canta, e naquela boca de onde antes saíram bandeirolas de ouro cresce agora um mugido de cervo apaixonado, um bramido de antílope para as estrelas, um murmúrio de abelhão durante a sesta das plantações. Perdido na imensa abóbada do seu canto eu fecho os olhos, e com a voz deste Louis de hoje chegam-me todas as suas outras vozes a partir de outro tempo, a sua voz a partir de velhos discos perdidos para sempre, a sua voz a cantar Confessin', a cantar Dusky Stevedore.(...) E abro os olhos e ele ali está num palco de Paris, e abro os olhos e ele ali está, depois de vinte e dois anos de amor sul-americano ele ali está, depois de vinte e dois anos está ali a cantar, rindo-se com toda a sua cara de criança incorrigível, Louis cronópio, Louis enormíssimo cronópio, Louis alegria dos homens que te merecem".

Julio Cortázar, A Volta ao Dia em 80 Mundos

31 março 2010

O presságio dos noitibós


Toda a noite os noitibós chiaram lá para os lados da ribeira, e eu, que agora estou aqui sentada ao pé do lume, sei que nada de bom está para acontecer.
A minha mãe contava-me que, quando o meu pai saiu de casa para ir viver com uma mulher que conheceu numa feira, também os noitibós não se calaram toda a noite.
Não sei o que me espera, mas o meu homem saiu de manhã, dizendo que ia fazer o avio à vila, e já o sol se pôs, já a lua vai alta e ele não aparece. Por duas vezes os cães soaram lá fora a ladrar, enfurecidos. Até parecia que alguém andava a rondar o monte. E eu aqui sozinha, à espera que ele volte. Já pensei em tanta coisa: a ribeira vai cheia e pode ter caído à água ao passar o açude do moinho; podem tê-lo morto em alguma taberna; ou estar caído de bêbado aí numa vereda da serra.
Logo aquele homem se havia de lembrar de fazer o avio hoje, que eu estava de amassadura e não podia deixar o monte para ir com ele, como sempre faço.
Fiquei cabeceando de sono à volta do lume, pensando que ainda tinha de passajar as calças do homem, para ele levar à feira no outro dia.
Levantei-me, fui ao quarto de dormir, abri a arca e nem uma peça de roupa do meu homem lá estava.
A minha mãe dizia-me que, quando os noitibós chiam à noite, anunciam sempre alguma desgraça. E olhem que ela tinha razão.

Joaquim Mestre, Breviário das Almas, Oficina Do Livro,2009
Imagem: Karl Addison

27 março 2010

Para os que gostam de jazz e boa literatura (e para os outros, claro)

Sugestão: Leia o texto, veja e ouça o videoclip e leia de novo
(depois, volte a ouvir e a ler as vezes que apetecer).


...Quando Thelonious se senta ao piano, toda a sala se senta com ele e produz um murmúrio colectivo do tamanho exacto do alívio, porque o percurso tangencial de Thelonious pelo palco tem qualquer coisa de rigorosa cabotagem fenícia com prováveis encalhamentos nas Sirtes, e quando a nave de mel obscuro e capitão barbudo chega ao porto, é recebida pelo cais maçónico do Victória Hall com um suspiro como que de alas apaziguadas, de cais alcançado. Então é o Pannonica ou o Blue Monk, três sombras como espigas rodeiam o urso entretido a investigar as colmeias do teclado, as garras toscas e bondosas vão e vêm por entre abelhas desconcertadas e hexágonos de sustenido, passou apenas um minuto e já estamos na noite fora do tempo, a noite primitiva e delicada de Thelonious Monk.(...)Depois, quando Charles Rouse dá um passo na direcção do microfone e o seu saxo desenha imperiosamente as razões pelas quais ali está, Thelonious deixa cair as mãos, ouve por um instante, pousa ainda um leve acorde com a esquerda, e o urso levanta-se e abana-se, farto de mel ou à procura de um musgo propício para a modorra, sai do tamborete e apoia-se na ponta do piano, marcando o ritmo com um sapato e o barrete (...) dando imperceptivelmente início a um safari de dedos pela borda da caixa do piano enquanto se balança cadenciadamente porque Rouse, o contrabaixista e o percussionista estão enredados no próprio mistério da sua trindade, enquanto Thelonious viaja vertiginoso sem se mover (...) Charles Rouse está a deixar as últimas, veementes, largas e admiráveis pinceladas de roxo e vermelho, sentimos o vazio de Thelonious,(...) a interminável diástole de um só coração imenso onde latem todas as nossas dores, e é exactamente nesse momento que a sua outra mão se apropria do piano, regressa nuvem a nuvem até ao teclado, passeia os dedos indecisos pelo ar, deixa-os cair e estamos salvos, temos Thelonious capitão, há rumo para um bom bocado, e o gesto de Rouse ao recuar, enquanto desprende o saxo do suporte, tem algo de entrega de poderes, de legado que devolve ao Doge as chaves da sereníssima.

Julio Cortázar, A Volta ao Piano de Thelonious Monk

A fantástica descrição de J. Cortázar do Concerto de Telonious Monk no Victória Hall de Genebra (Março de 1966), de que transcrevi um fragmento, é uma peça literária que mostra e sublinha o valor de um dos maiores escritores do século XX. Aqui

15 março 2010

O PEC, a crise e o túnel sem luz ao fundo


...O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?

A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições...

Ricardo Araújo Pereira (Aqui)

06 março 2010

Yo Leo en el Bar


Amo desparramarme en la mesa de un bar, bien típico de Buenos Aires, y quedarme leyendo horas junto a un café con leche. Esto sólo se puede hacer en algunos bares, los de mesa de fórmica, mozos de más de 40, dueño generalmente gallego, AM de fondo -a veces muy fuerte-. Allí donde pasan con dos jarras metálicas, en una leche, en otra café, y te lo sirven frente a tus ojos. (Recomiendo la esquina de Azcuenaga y Paraguay, el bar del gallego. Pedir un café con leche con un CAMPERO, si les preguntan… Sí! con huevo, completo)
Me dejé llevar, perdón. El Gobierno de la Ciudad lanzó el programa “Yo leo en el bar” una propuesta que incluye la instalación, en 15 bares, de bibliotecas con la obra completa del Jorge Luis Borges.
Algunos de los libros que se podrán leer son: El Aleph, Atlas, El libro de arena, El libro de los seres imaginarios, Fervor de Buenos Aires, Los mejores cuentos policiales y las Obras Completas I, II, III y IV, donados por la editorial Planeta.
Los 15 bares son:
TORTONI, Av. De Mayo 825, 4342-4328
EL GATO NEGRO, Av. Corrientes 1669, 4371-6942
EL PROGRESO, Av. Montes de Oca 1700, 4301-0671
MAR AZUL, Tucumán 1700, 4374-0307
CONFITERIA SAINT MORITZ, Esmeralda 894, 4311-7311
MARGOT, Boedo 857, 4957-0001
36 BILLARES, Av. De Mayo 1048, 4381-5696
BAR HOTEL CASTELAR, Av. de Mayo, 1152, 4383-5001/9
BARoBAR, Tres Sargentos 415, 4311-6856
LA GIRALDA, Av. Corrientes 1453, 4371-3846
LOS LAURELES, Av. Iriarte 2290, 4303-3393
LA POESÍA Chile 502, 4300-7340
IBERIA Av. de Mayo 1196, 4381 6300
EL FEDERAL, Carlos Calvo 395 / 99, 4300 4313
EL QUERANDI, Perú 302, 4345-1770
Texto "roubado" AQUI
Buenos Aires continua a exercer o seu fascínio. O Ministério da Cultura lança na cidade o projecto Yo Leo en el Bar, que consiste na instalação de Bibliotecas com obras de Jorge Luis Borges em cafés e bares da cidade. A proposta foi anunciada ontem e tem a adesão da maioria dos cafés com tradição nas tertúlias culturais da cidade.
É seguramente uma das melhores homenagens que poderia ser feita ao escritor, à leitura e ao livro.
E mais uma (boa) razão para ir ou voltar a Buenos Aires: são tantos os cafés para visitar.
Ler também AQUI e AQUI

15 dezembro 2009

Encontro com a solidão

Durante muito tempo pensei que não sabia o que era a solidão e, como todas as pessoas que não sabem o que é, acabei por escrever sobre ela, como é evidente.

Acho que um dia aprendi o que era

Eu moro num bairro pobre, um bocadinho de uma aldeia dentro de Lisboa, com merceariazinhas, padariazinhas, cafezinhos, pessoas pobres, a maior parte delas velhas, pequenos comércios, pequenos marginais, inclusive pequenos travestis e costumo comer nos restaurantes pequeninos que há ali à volta.
A um desses restaurantes vai jantar às vezes uma Senhora, uma actriz de teatro, que eu não conhecia, uma actriz do tempo do António Silva, do Vasco Santana, da Beatriz Costa, que mora na Estefânia e vai a pé, à hora do jantar, já com certa dificuldade em andar, e senta-se muito coquete, sempre muito bem vestida, com colares, anéis, o penteado armado com laca e come com gestos preciosos, cirúrgicos, cheia de mindinhos – há pessoas em que todos os dedos são mindinhos, têm uma delicadeza aérea de mindinhos – e então as mãos dela mexem nos talheres como se estivessem dançando com eles.
Eu perguntei ao dono do restaurante – que é assim um Senhor que foi louro e de olhos azuis, conserva os olhos azuis, mas perdeu o louro, que se chama Arménio e que poderia ter competido com o Vergílio Teixeira nos filmes portugueses dessa época e que é extraordinariamente bem-educado, extraordinariamente delicado – perguntei”Quem é?” e ele disse-me “é fulana tal, que era uma grande actriz e continua a vir aqui jantar. Sabe, ela continua a deitar-se às duas da manhã porque continua ainda no tempo da sua glória teatral, em que os artistas na época se deitavam tarde e então fica a fazer não sei o quê e só vai para a cama a essa hora, mantém o mesmo horário dos seus tempos de glória”. E estava ali a comer, sozinha. Dois ou três dias depois, entrei no restaurante, ela estava lá e, não sei, foi um daqueles impulsos que todos nós temos às vezes, fui ter com a Senhora e disse-lhe “dá-me licença que lhe beije a mão?” Ela estendeu-me a mão, imperial, de princesa, que cheirava bem ainda por cima, e que eu beijei e depois pedi licença para me sentar e ficámos a falar e a certa altura disse “ a Senhora tem um sorriso tão bonito. Importa-se de me fazer um sorriso?” E ela, toda arranjada, olhou para baixo e eu reparei que estava a tirar da carteira o espelhinho para ver se estava bem pintada e então tirou um tubo e concertou o bâton até fazer uma boca perfeita, em forma de copa de carta de jogar, só então é que levantou os olhos para mim, olhou para mim e sorriu. Eu tinha a impressão que aquele sorriso estava dentro de uma lágrima e fiquei com a certeza de que não há nada mais bonito do que um sorriso dentro de uma lágrima.

Foi, até hoje, o sorriso mais bonito que me deram, o mais bonito que eu vi.

E enquanto ela sorria, era tão engraçado porque de repente era uma rapariga nova, de repente tinha dezasseis, dezassete, dezoito anos, as rugas desapareceram, o cabelo pintado passou a ser natural, os gestos dela ficaram fáceis, os olhos eram uns olhos de uma menina coquete, numa espécie de flirt, num jogo de sedução. E depois, quando o sorriso acabou, a menina desapareceu, os dezasseis anos desvaneceram-se, apareceram rugas, voltou a ficar corcovada na mesa e voltou a estar diante de mim uma actriz já muito idosa que fica acordada até às duas da manhã, a lembrar-se, diante da televisão apagada, dos seus tempos de glória.

António Lobo Antunes, in Viver mais, viver melhor, Fórum Gulbenkian Saúde
Foto: Diane Arbus

14 novembro 2009

Pedro Alvim (As Cheias em Novembro de 1967)



Muitos consideram esta uma das melhores crónicas que se escreveram. O autor é o poeta e jornalista (Diário de Lisboa, 1969), já falecido.Fica aqui a sua memória.

Os mortos e os fósforos

Era ao cair da tarde – e havia mortos.Todos muito juntos, enlameados,compridos. Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades.Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos.
Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.”
E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal.Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora – Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos.E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível.
Como um preito de homenagem.
Como um choro.
Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama.Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
– Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos.
E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer?
– Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília“.
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

PEDRO ALVIM
Foto:Aqui

07 setembro 2009

Viajando pelas mulheres

....Por isso, ao longo da região (Beira Litoral), as mulheres impõem saborosas diferenças. Não evidenciam um tipo tão definido como as de outras terras mas, apesar de viverem numa região tão desfigurada, entregue à pior construção civil e à confusão urbanística, percebem-se sensuais por todo o lado e a corrupção do ambiente parece fortalecer-lhes a arte. Guardo as melhores recordações das mulheres da Bairrada em cima das suas bicicletas pela Anadia, Cantanhede, Mogofores, OLiveira do Bairro, Mamarrosa. Relembro os fornos de cal e as fábricas de cerâmica à beira dessas estradas percorridas por mulheres pedalando lenta e sensualmente, cruzando-se, na Primavera, com os peregrinos pedestres que demandavam Fátima. E em Vagos e na Pateira de Fermentelos, mulheres tão fortes como o húmus que exala da terra úbere que pisam, dirigindo carros de bois carregados de moliço e estrume para as vessadas. E outras a mungir as vacas com os rostos afogueados. E lembro-me de ver as mulheres cansadas da xávega da Tocha e em Vagos, depois de escolherem o peixe, sentadas,na praia à tardinha, enquanto as nebelinas cada vez mais espessas iam envolvendo os bois e as pessoas, juntando o mar e os verdes prados. E as raparigas na Festa das Colheitas, em Arouca, a comparar os tamanhos dos nabos e das batatas e dos calondros? E as da Murtosa, de perna maciça e curtida pelo sol e pela salmoura? Para aumentar as diferenças, juntar-lhes-ia tricanas e lavadeiras de Ovar e de Coimbra e as jovens senhoras coimbrãs a olhar para as ruas por detrás das sedutoras janelas das suas vivendas. Todas estas mulheres são herdeiras dos mais refinados segredos das mais refinadas goluseimas conventuais e habilidosas no desfiar dos dulcíssimos ovos moles. Desde as castanhas doces de Arouca aos pastéis de Tentúgal. Reconheço, no entanto, a dificuldade em definir a mulher beirã do Atlântico. Com manifesta coragem, resolvi perguntar a algumas delas como se achavam a si próprias. A resposta vem de Leiria - da Laura, da Paula e da Isabel, e resulta da demorada reflexão com investigação sob competência psicológica e tudo. Como são as mulheres da Beira Litoral? Reproduzo ipsis verbis a sua resposta: "Muito sensuais. Bastante comunicativas, metediças na vida alheia. Faladoras: chegam a ser agressivas na fala. São espalha-brasas e abertas. Gostam de ostentar a riqueza dos atributos físicos e dos materiais. São muito invejosas das vizinhas. São declaradamente matriarcais. Mas paradoxalmente, e segundo pensamos, são submissas, com medo de arranjar um amante e têm medo que o homem lhes bata se gastam muito dinheiro. São limpas e asseadas elas, principalmente nas suas casas. Descuidam muito os filhos embora lhes comprem coisas muito caras, mas para se afirmarem pessoalmente. De resto são supersticiosas, tradicionalistas e religiosas. Lembramos Fátima, a Santa da Ladeira, etc. Quer dizer, são visionárias".
Só lamento que as estradas sejam tão velozes nesta província. Sugerem-se uns dias parados na Curia ou no Luso e ver o deslizar das lentas bicicletas ao entardecer. Regressam a casa deixando um rasto de luxuriosa santidade. Cresce então a lua insubmissa sobre os viçosos vales do litoral."

Manuel Hermínio Monteiro, Revista K,nº19, Abril 1992
Fotografia Rodrigo Budag

Um belíssmo texto carregado de luz, cheiros e poesia, numa viagem com um intenso e original roteiro.

09 agosto 2009

A terceira mãe

--*


















Tive de ser eu a fazer as perguntas todas e a encontrar respostas. Encontrá-las no mínimo som de uma porta a fechar-se. Havia as tardes do estrondo e as tardes do sussurro, as tardes da pressa e as da hesitação. E através dos movimentos da porta, das vozes e não-vozes atrás dela, dos diálogos entre as mãos à mesa, dos recantos interiores e exteriores aos corpos, fui formulando as perguntas e capturando respostas à socapa.
A vontade nunca foi o teu forte, muito menos o de clarificar as coisas. O teu forte é a humildade, é a paciência, são os ombros tantas vezes encolhidos que se tornaram covas e engoliram a alegria, a tua e a dos teus, de tanto lhes quereres bem. Mereces ser condecorada no treze de Maio, Grã-Cruz da Ordem da Renúncia. Melhor ainda, a beatificação em vida, na próxima visita do Papa ao nosso queridíssimo Santuário.
Mas para isso era preciso fazeres milagres, e não consegues. Está provado que não consegues. Tentaste tanto. Querias curar-me as dores de barriga com a mão e conseguias acalmar-me o choro, mas depois ias a correr chamar o médico. Com o pai a mesma coisa. Passavas-lhe a mão pela testa suada, entravas em tudo quanto fosse ervanária à procura de chás, xaropes, poções.
E depois foi o que se viu. Até desistires sem sequer chorar.
Eu não desisto. Sou uma Fúria desintegrada da tragédia. Rasgo as vestes, choro prantos de sangue, firo o corpo nas lages do chão. Mas nunca mais de meia hora. A decisão sacode-me, grito por uma caneta.

Julieta Monginho, A Terceira Mãe, Campo das Letras, 2008.
Pintura de Paula Rego, Prey, 1986
* Nick Cave & The Bad Seeds, People Ain't No Good

14 junho 2009

As palavras

A casa junto ao mar fora um sonho antigo.“Com a varanda virada ao mar”, repetiam rindo, sempre que disso falavam, sentindo na pele os olhares cruzados.
Hoje, imperturbáveis, os rituais antes criados a dois.
A porta aberta com cuidado, elevando suavemente a fechadura, chaves no prato de estanho sobre mesa à esquerda; alarme, os números mágicos 9-10-17-1: os aniversários dos meninos.
Depois, tudo mais demorado, suave, ritualizado: luz na cozinha, fruta na taça de vidro, pão no tabuleiro, iogurte e leite no frigorífico, congelados na arca, sacos pequenos no saco grande pendurado atrás da porta.
Na passagem para o quarto sorri, sozinha, olhando a varanda. Portadas do quarto abertas e a roupa pendurada, arrumada. Na sala o CD, invariavelmente Betânia, que as palavras e o riso dele iriam depois abafar. Ginger Ale com 2 pedras de gelo, portas de acesso à varanda abertas e, finalmente, o namoro.
…
Agora a voz dele já não chega a partir da sala ou da cozinha, mas sim do outro lado. Na varanda, tem os olhos bem fechados e, reclinada, sente em toda a pele, de novo por cima do som da música, o murmúrio que lhe chega do lado do mar e o som claro, nítido, da voz dele que, entre risos, lhe sussurra: ficas linda na nossa casa…