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29 maio 2011

Senhor doutor, dói-me a alma, aqui do lado esquerdo...


Mário Sacramento (1920-1969) marcou a vida cultural e política de Portugal de forma determinante entre a década de 40 e 60 do século XX.
Médico, Ensaísta, Crítico e Activista Político (com cinco detenções durante a ditadura) foi sempre uma voz livre e um pensamento crítico e inovador.
Em Sementes de Liberdade - Tese de Eunice Voulliot sobre M.Sacramento apresentada na Sorbonne - descobre-se o Homem e o combate no seu Tempo.
O filme de José António Paradela é um belíssimo testemunho sobre Mário Sacramento, feito a partir do livro de Eunice.

19 agosto 2010

Um herói do nosso tempo

Em 19 de Agosto de 2003, um atentado nunca esclarecido matou Sérgio Vieira da Mello em Bagdad.
Diplomata ao serviço da ONU, especialista em conflitos graves, esteve em missões em todo o mundo. Homem de paz e de convicções, implacável com os corruptos, defensor firme dos direitos humanos e dos mais fracos, seria o provável sucessor de Kofi Annan como secretário geral da ONU.
Ao iniciar, no Iraque, aquela que seria a sua última missão afirmou, numa clara posição anti bélica : ...quem gostaria de ver o seu país ocupado? Eu não gostaria de ver tanques estrangeiros em Copacabana... A vida deu-lhe a razão, os poderosos interesses imperiais tiraram-lhe a possibilidade de a construir.

23 fevereiro 2010

Rui

Auf Widersehen

Dificilmente poderiamos ser mais diferentes.
Eu de direita, ele de esquerda;
eu católico praticante, ele sem Deus nem transcendência;
eu pró-vida, ele liberal;
eu com 41, ele com 63;
eu casado militante, ele solteirão inveterado;
eu falador compulsivo, ele calado e reservado.
Partilhamos o mesmo escritório oito horas por dia, durante dezassete anos.
De manhã cumprimentavamo-nos invariavelmente em japonês ou em chinês,
encerravamos o dia com um sonoro e bem disposto auf wiedersehen.
Pelo meio discutiamos projectos, trocavamos ideias,
discordavamos abundantemente e respeitavamo-nos sempre,
sem excepção.
Lentamente ficamos amigos.
Lentamente, aprendi a apreciar o seu espirito delicado,
a admirar a sua inquebrantável verticalidade,
a compreender a sua rebelde independência.
Compreendia a amizade que me tinha quando,
aqui e ali,
se permitia partilhar o orgulho embevecido que sentia
com os sucessos do sobrinho,
a admiração com que seguia discreto a vida da irmã.
Não lhe era fácil esta partilha, mas confiava em mim a esse ponto.
Quando me trazia um livro ou um disco, deixava-o silenciosa e discretamente na minha secretária.
Quando eu lhe agradecia, murmurava: pensei que pudesse interessar-lhe...
Era o meu amigo Rui.
Partiu hoje, discreto como só ele, com a voz sumida, mas com o espirito indomável, como sempre.
A esta hora acredito que o meu Deus esteja impaciente, confuso, quase a duvidar da sua própria existência, é que o Rui não é para brincadeiras, nem cederá.
O Rui recusar-se-á a aceitar, mas estará no sitio dos rectos, dos dignos e dos justos; de lá, olhará pelas suas ovelhas
e seguirá a vida dos que sem saberem lhe importam muito.
Vai fazer-me falta.
Como nos bons tempos,
Sayonara Sacramento San!

Este o testemunho de um homem digno, falando de outro que foi livre e dono do seu destino como nenhum. (Aqui).
Com o Rui, aprendi eu o encanto da Ria nos verões da adolescência, a dureza do exílio quando ainda tanto se sonhava e, agora na sua última lição, como se enfrenta a morte com os olhos abertos, um cigarro nos lábios e o jazz a tocar em fundo.
Foto: "Amanhecer na Ria" Aqui

03 agosto 2009

Ver, Olhar e Sentir com Evgen Bavcar



É um artista de fotografia e é cego. Chama-se Evgen Bavcar .
Nasceu em 1946 na Eslovénia e deixou de ver aos 12 anos, depois de dois acidentes sucessivos.
Bavcar estudou História e Filosofia na Universidade de Ljubljana e Filosofia na Sorbonne.
Em Paris, iniciou uma carreira académica e intensificou a sua actividade fotográfica. Em 1988 foi nomeado Fotógrafo Oficial do Mês da Cidade Luz e a partir daí o seu trabalho tem tido grande divulgação, sobretudo na Europa.
O trabalho de Bavcar relaciona a visão, a cegueira e a invisibilidade: O meu objectivo é juntar o visível e o invisível, fotografar permite-me subverter a estabelecida divisão entre os que vêem e os que não vêem.
A imagem não é algo necessariamente visual: quando um cego diz que imagina, significa com isso que tem uma representação interna de realidades externas, que o seu corpo faz a mediação entre ele e o mundo.
Bavcar usa por vezes óculos que têm, no lugar das lentes, pequenos espelhos para que quem fale com ele possa ver o seu próprio reflexo e não se perturbe por falar com um cego...

21 junho 2009

O III Bibliotecário

240 anos antes de Cristo existia a Grande Biblioteca de Alexandria.
Nesses anos o Bibliotecário, seu responsável máximo, chamava-se Erastótenes.
Nos meios académicos do tempo, Erastótenes era chamado em tom depreciativo Beta, porque, diziam, era sempre o segundo melhor em tudo.
Um dia, ao ler um papiro, Erastótenes soube que em Syene (actual Assuão), a cerca de 800 km a sul de Alexandria,às 12 horas do vigésimo primeiro dia de Junho - Solstício de Verão- uma vara ou uma coluna de pedra em posição vertical não projectava sombra.
Comparou esta informação com a existência, no mesmo dia e hora, de sombra nas colunas da sua cidade, a Norte.
Dispondo apenas de varas, observação e inteligência, fez o necessário para descobrir que a Terra era redonda.
(Na Europa medieval, 1000 anos depois, defender que a Terra não era plana podia equivaler à pena de morte).
Deu-nos mais Erastótenes. Ao contrário do que diziam as vozes académicas do tempo, ele podia, afinal, ser primeiro: calculara, ainda, 240 anos antes de Cristo, o raio da Terra com uma precisão quase absoluta.
Hoje, no Solstício de Verão, 2500 anos depois, é bom recordar Erastótenes.

Carl Sagan também gostava de Erastótenes:


22 maio 2009

Lembrando

Hoje, 22 de Maio, decorre em Aveiro um colóquio sobre Mário Sacramento, na Escola de que é Patrono. Em simultâneo é posto à venda o Livro de Amizade - Lembrando Mário Sacramento.
É imprescindível que a sua vida e obra sejam conhecidas e divulgadas.

"Morei sucessivamente, na infância, junto às casas de ensaio dos novos e dos velhos filarmónicos locais. Foi isso que fez de mim um ensaísta? Apraz-me supô-lo. Gostava de vê-los a caminho do ensaio, ainda em fatos de trabalho, rumorosos e barbudos, sopesando os instrumentos envoltos em guardas de chita ou cotim. E ouvi-los, pela noite dentro, ensopar o silêncio em saliva e suor. Como eles sou e serei um ensaísta de retalho, que semeia a escuridão de clangores torturados e síncopes desabridas, alanceado por dispneias em falsete e, invariavelmente, impróprio para o consumo em coreto. Ensaio, como eles, nas horas de folga, manhãs de domingo e serões de semana. E como eles sofro o terror da batuta, gavião insaciável do melhor que o peito dá e o sopro leva. Aqui lhes deixo o meu solfejo. Aos novos e aos velhos. Homens de fé e surdina. De trenos e amavios. Matutos e salivares. Com sonho ensacado em chita
."

Mário Sacramento, in Ensaios de Domingo I

27 março 2009

Mário Sacramento

7/7/20 - 27/3/69
Mário Sacramento faleceu há 40 anos. Foi, desde a juventude, um combatente pelas causas mais nobres que o Homem pode ter.
A justa homenagem a Mário Sacramento, quiçá a que tarda, é o seu reconhecimento como pensador e militante antiprovinciano. Foi este, seguramente, o combate essencial de toda a sua vida.
Ancorado num antidogmatismo e numa disponibilidade total à aprendizagem, elegeu os jovens como seus interlocutores (" a adolescência, a juventude, são isso mesmo: o refazer intuitivo da experiência milenar do homem"), arrostou com incompreeensões e dificuldades, muitas vezes vindas de onde menos esperaria, mas permaneceu sempre livre.
Foi um paciente artesão da prática de abertura ao outro, da análise científica da realidade e da vida, da tolerância e do respeito, num tempo e num meio em que todas as regras eram contrárias a tal atitude.
Há quem insista em dar-lhe uma dimensão paroquial e restrita - nada mais injusto. Ainda em vida, contestou sempre com veemência os que lhe "insinuavam" a limitação que era viver no microcosmo aveirense.
O que o tempo se encarregará de mostrar é que Mário Sacramento fez da vida uma recusa constante desse estatuto, preferindo sempre ser visto como um cidadão do mundo, inquieto, irreverente e livre.