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22 outubro 2012

Não é Escritor Quem Quer



...e a minha mãe a tremer com mais força, assoando-se por engano à minha saia, não à dela   e, para ser honesta, até me agradou, operaram-me um peito, que se assoasse em mim, não vou para o estrangeiro, não vos deixo, as palmas na minha cara, o nariz quase encostado ao meu, os olhos, assim tão perto, só um, comigo curiosa, um peito

- É castanho ou preto?

o meu pai amansava o homem dos refrigerantes com uma garrafa, ambos sentados no degrau da cozinha onde se escutava o mar, o crucifixo no espelho retrovisor, abalado, dançaricava ainda, um peito e a axila, disfarço o soutien com um enchumaço que se desprende e eu a corrigi-lo, de cotovelo erguido, por cima da roupa, a minha mãe dois olhos de novo, castanhos, o meu irmão mais velho a examinar as ondas que de quando em quando se esquecem e recomeçam, culpadas

- Perdoem

para além dos arbustos, das casas, a anestesista, e eu nua e consciente que nua debaixo do lençol, não vou estender-me sobre isso

- É alérgica a alguma coisa?

não por senhora doutora, qualquer pessoa nua você, arrumei os búzios, comi uma bolacha que me soube a pó, teria podido conhecer a Tunísia e sacrifiquei-lhes a Tunísia, a ordem dos búzios errada na mesa e eu a trocá-los sem achar as posições, que eu saiba não sou alérgica a não ser, que eu saiba não sou alérgica, a minha mãe de feições ainda ao acaso....

António Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, 2012

Pintura de Mark Rothko, aqui

Entre uma sexta feira e o domingo seguinte, uma mulher de 52 anos, que teve um cancro da mama, perdeu um filho e vive um casamento falhado, despede-se da casa de praia da família, num longo adeus em que revive a infância, as amizades e os amores, num desconsolo sem fim, onde se cruzam personagens e vozes riquíssimas, como o irmão não surdo que vem louco da guerra, o pai que lhe chama sempre "menina," ou a mãe constantemente enraivecida com a vida. 
Por mim, reconciliei-me com A Lobo Antunes de quem andava distante desde o Fado Alexandrino e só lia as Crónicas. Este é um fantástico romance.

14 outubro 2012

Ian McEwan


Antes de ser um escritor, McEwan era um leitor apaixonado ( entrevista Ipsilon, 5 Out).
Informação preciosa para se entender o seu fascínio por conduzir o leitor em caminhos apaixonantes, numa leitura que se torna imparável.
A consciência que tem "dos inúmeros romances que todos começamos a ler e não acabamos" (Ipsilon), leva-o a ser capaz de uma clareza e de uma intensidade narrativa absolutamente únicas.
Um romance imperdível, pois.

03 agosto 2012

(somos) escritos no tempo


"Um ramo fértil tem origem no livro:
a escrita e a leitura são tarefas inacabadas. Demoradas.
Uma linha atravessa o livro, reinventa-se em cada página
e transita para outros: como se de um mesmo livro se tratasse.
Uma linha imemorial que vem de trás e que nos ultrapassará.
Linha infinita que atravessa a História. Os autores contaminam-se.
As personagens, citações e ideias migram de uns livros para outros.
As leituras cruzam-se criando novos sentidos.
Abrem-se estradas, propõem-se passeios e deambulações.
O livro exige de nós tempo."

Tarefas Infinitas, Quando a Arte e o Livro se Ilimitam,
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

Imagem

02 agosto 2012

Com o Infinito nas mãos

"Abrir um livro é correr o risco de encontrar o infinito.
 Ter ao alcance da mão, nos limites da página, o sem-limites.
     E que de outro modo poderíamos nós encontrar o infinito senão no finito?
Mensurável, palpável, visível. Nesse espaço aberto e branco da página,
nas suas dobras, pode surgir o sem princípio, nem fim, nem centro: o Livro infinito.
Liberdade de leitura que é também desorientação: perdem-se as certezas e as referências habituais; os caminhos e os sentidos bifurcam-se; a noite cerca-nos.
Uma espécie de cegueira: o livro abre uma obscuridade essencial.
    A dos novos começos."

Tarefas Infinitas, Quando a Arte e o Livro se Ilimitam 
(Fundação Calouste Gulbenkian,o livro como lugar de uma expressão estética única).

Imagem: "Les Illuminations", Sonia Delaunay,1885-1979; Arthur Rimbaud, 1874-1891

30 março 2011

Samanta Schweblin


Tego fez uns ovos mexidos mas quando finalmente se sentou à mesa e olhou para o prato, descobriu que era incapaz de os comer.
- O que é que se passa?- perguntei-lhe.
Demorou a tirar os olhos dos ovos.
- Estou preocupado - disse, - acho que estou a perder velocidade.
Mexeu o braço de um lado para o outro, de uma forma lenta e exasperante, suponho que de propósito, e ficou a olhar para mim, à espera do meu veredicto.
- Não faço a menor ideia do que estás a falar - disse, - ainda estou demasiado a dormir.
- Não viste o tempo que eu demoro a atender o telefone? A ir até à porta, a beber um copo de água, a escovar os dentes... É um calvário.
Houve um tempo em que Tego voava a quarenta quilómetros por hora. O circo era o céu; eu arrastava o canhão até ao centro da pista. As luzes ocultavam o público, mas ouvíamos o clamor. As cortinas aveludadas abriam-se e Tego aparecia com o seu capacete prateado. Levantava os braços para receber os aplausos. O seu fato vermelho brilhava sobre a arena. Eu encarregava-me da pólvora enquanto ele trepava e enfiava o seu corpo magro no canhão. Os tambores da orquestra pediam silêncio e ficava tudo nas minhas mãos. Nessa altura, as únicas coisas que se ouviam eram os pacotes de pipocas e uma ou outra tosse nervosa. Eu tirava os fóforos dos bolsos. Levava-os numa caixa de prata que ainda conservo. Uma caixa pequena, mas tão brilhante que podia ver-se do útimo degrau da bancada. Abria-a, tirava um fósforo e encostava-o à lixa da base da caixa. Nesse momento todos os olhares estavam sobre mim.Com um movimento rápido, o fogo surgia. Acendia a mecha. O som das faíscas expandia-se em todas as direcções. Eu dava alguns passos teatrais para trás, dando a entender que algo terrível ia acontecer - o público atento à mecha que se consumia -, e de repente: Bum. E Tego, uma seta vermelha e brilhante, saía disparado a toda a velocidade.
Tego afastou os ovos e levantou-se com esforço da cadeira. Estava gordo e estava velho. Respirava com um ronco pesado, porque a coluna lhe apertava não sei o quê nos pulmões, e deslocava-se pela cozinha usando as cadeiras e a bancada para se aparar, parando a cada instante para pensar, ou para descansar. Às vezes suspirava simplesmente e proseguia descansado. Caminhou em silêncio até à porta da cozinha e parou:
- Eu acho mesmo que estou a perder velocidade - disse.
Olhou para os ovos
- Acho que estou à beira da morte.
Encostei o prato ao meu lado da mesa, apenas para o irritar.
- Isso acontece quando uma pessoa deixa de fazer bem o que sabe fazer melhor - continuou -. Foi nisso que estive a pensar, que uma pessoa morre.
Provei os ovos mas já estavam frios. Foi a última conversa que tivemos; depois disso deu três passos torpes em direcção à sala e caiu morto no chão.

Uma jornalista de um jornal diário vem entrevistar-me alguns dias depois. Assino-lhe uma fotografia para a notícia, na qual estamos, eu e Tego, ao lado do canhão, ele com o capacete e o seu fato encarnado, eu de azul, com a caixa de fósforos na mão. A rapariga fica encantada. Quer saber mais sobre Tego, pergunta se há alguma coisa especial que eu queira dizer sobre a sua morte, mas já não tenho vontade de continuar a falar disso, e não me ocorre nada.
Como não se vai embora, ofereço-lhe algo para beber.
- Café?- pergunto
- Claro! - diz ela. Parece estar disposta a ouvir-me uma eternidade. Mas risco um fósforo na minha caixa de prata, para acender o lume, várias vezes e não acontece nada.

Samanta Schweblin, Pássaros na Boca, Ed.Cavalo de Ferro, 2011

10 fevereiro 2011

Victoria, a bebé dos fios azuis



...Perante a revelação da minha verdadeira identidade, tive de aprender pouco a pouco a aceitar uma nova história, uma nova família e novas origens. E durante essa aprendizagem, senti-me muitas vezes paralizada, forçando-me a rejeitar subitamente uma parte das minhas ideias e da minha própria pessoa. Este processo alcançou o seu ponto culminante em 2007 e acabou por me permitir resolver as minhas contradições e aceitar todo o meu percurso passado: o bem e o mal, a verdade e a mentira. Sou um produto da ditadura, mas sou também o produto do carinho que Raúl e Gaciela me souberam dar. Reconheço-me neles tanto como em Cori e no "Cabo", os quais sinto que amo, apesar de nunca os ter conhecido. Não sou menos a sobrinha do antigo chefe dos serviços de informação da ESMA, o assassino do seu irmão e da sua cunhada, do que a adolescente extasiada diante dos Caballeros de la Quema. Assim, não sou menos Analía do que Victória..

Victoria Donda, O Meu Nome é Victoria, Editorial Bizâncio, 2011

Victoria Donda é hoje a mais jovem deputada da Argentina. Nasceu durante a ditadura militar, em 1977, em Buenos Aires no centro de detenção clandestino da Escola Superior de Mecânica da Marinha (ESMA).
Como outras centenas de bébés, Victória foi retirada à mãe pouco depois de nascer. 
A mãe, Cori, antes da filha lhe ser roubada, coseu-lhe dois fios azuis nas orelhas para que pudesse ser identificada como a sua filha. Este gesto foi, depois, essencial para a descoberta do percurso seguido pela menina.
Cori foi mais tarde lançada (viva) de um avião  com outros companheiros no rio de La Plata. O pai teve o mesmo destino, ambos denunciados e, provavelmente, executados  sob responsabilidade de um seu irmão.
Aos 27 anos, Victoria descobre, através da organização das Avós da Praça de Maio, que Analía é o nome que a família a quem foi entregue lhe deu na sequência do assassínio da mãe. Raúl, o "pai", é um torcionário da polícia.

O livro, é um relato intenso do colapso brutal da vida de Victória / Analía e da necessidade de reconstruir toda a sua história e identidade. Escrito com uma autenticidade e uma maturidade que impressiona pela lucidez, Victoria Donda elabora uma narrativa que nos agarra na primeira página e onde está presente a história da Argentina desde os anos 70 até aos nossos dias. Nele estão retratados os actores essenciais do seu percurso pessoal e, de forma mais ampla, os responsáveis pelos caminhos do país nos últimos 30 anos.
Um livro que nos revela o combate heróico duma geração torturada e assassinada, e nos ensina como o ódio e a indignidade em que se alicerçam as ditaduras existe e germina dentro de gente capaz de tudo no combate aos seus adversários.

10 agosto 2010

Diário da Bicicleta


... estas pessoas que andam a trabalhar para revigorar as suas cidades estão todas em dívida para com Jane Jacobs, que em 1968 lutou contra o plano de Robert Moses de fazer atravessar uma auto - estrada pelo meio da baixa de Nova Iorque.(...)
Nesses tempos - entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70 -, muita gente nos Estados Unidos parecia acreditar que as cidades depressa se iriam transformar em coisas do passado, que a vida moderna só poderia ser genuinamente vivida numa casa dos subúrbios com um quintal, ligada ao local de trabalho urbano - um amontoado de prédios altos de escritórios - por uma rede de auto-estradas.
Um sítio para trabalhar, outro para viver. (...) O que veio a acontecer foi que, hoje em dia, cada vez mais pessoas se inclinam para aquilo que Jacobs compreendeu, que a fórmula da separação entre a vida e o trabalho tem como resultado inevitável acabar por haver muito pouca vida a acontecer verdadeiramente em ambas as áreas. (...)
Ficou famoso o nome que Jacobs deu àquilo que acontece no seu quarteirão em Greenwich Village, "um ballet no passeio".
«Eu faço a minha primeira entrada nele um bocadinho depois das 8 da manhã, quando vou pôr o lixo lá fora...Pouco depois, homens e mulheres com pastas e bem vestidos, até mesmo elegantes, saem das portas e das ruas secundárias, e, em simultâneo, um grande número de mulheres com vestidos de trazer por casa vem cá para fora; e à medida que se cruzam uns com os outros, param durante uns segundos para conversas rápidas que ressoam ou com gargalhadas ou indignação conjunta, nunca, ao que parece, algo entre ambas as coisas».
Ela percebeu que a utilização mista era essencial. Que quando uma rua ou um parque estão a ser utilizados por diferentes tipos de pessoas em diferentes alturas do dia, acabam por se manter económica e socialmente saudáveis e ficam mais seguros. Não são precisos mais polícias nem leis duras para tornar um bairro mais seguro. É preciso não lhe sugarmos vida...



David Byrne é conhecido como músico e compositor. Foi o fundador da banda Talking Heads e é também fotógrafo amador. Desde há alguns anos tem um interessante blog (david byrne's journal) onde relata regularmente viagens de bicicleta que realiza em várias cidades do mundo (Berlim, Londres, Instambul, Buenos Aires, Nova Iorque, etc.). A compilação de alguns desses textos saiu recentemente em livro. É uma obra com um traço descritivo dos locais, mas com uma importante vertente de análise e estudo das cidades vistas sob o ponto de vista de um visitante que se desloca em bicicleta. O excerto de texto que se reproduz acima diz respeito a Nova Iorque, mas poderia ser aplicado a qualquer outra grande cidade do mundo. Com particularidade, para nós, que damos ares de grande modernidade, insistindo em praticar erros urbanísticos com importantes consequências sociais, erros esses que já foram diagnosticados há trinta ou quarenta anos noutras paragens.
É importante referir que todos os combates feitos na defesa dum urbanismo moderno e que coloque as pessoas no centro das decisões têm o nosso apoio. Aliás, temos um grande orgulho em ter sido a Clara a dinamizadora duma recente luta em Aveiro, justamente na defesa destes valores (conhecer AQUI)

25 julho 2010

Um escrito como uma declaração de guerra


«Os espaços de anonimato representam um verdadeiro desafio para a teoria revolucionária. O estatuto político dos espaços de anonimato (o não serem homogéneos, adicionáveis…) é função e já chega determinado pela essência da própria força do anonimato. É ela que lhes confere aquelas que são as suas características principais: ausência de reivindicação, articulação em torno de um gesto radical que se repete, não-futuro, politização apolítica. A força do anonimato aparece-nos quando tentamos pensar a radicalização da impotência. Essa força vem, então, ter connosco. Com toda a sua carga dissolvente e, ao mesmo tempo, portadora de promessas. Com toda a sua ingovernabilidade. Sentimos a impotência face a essa mobilização global que se faz de nós, connosco — contra nós — que unifica realidade e capitalismo, que proclama «Não há nada a fazer» . Esta frase, «não há nada a fazer» é uma frase estranha que em nada se assemelha a outras frases aparentemente parecidas: não podemos fazer nada, é impossível fazer seja o que for… «Não há nada a fazer» é o nome para uma bifurcação que conduz a dois lugares completamente diferentes: «Não se pode fazer nada» e «Tudo está por fazer». O primeiro caso não nos interessa. O segundo, sim. Quando se diz, de facto, «Não há nada a fazer» porque se bateu realmente no fundo e já não resta esperança alguma, o que então se abre é uma travessia do niilismo. Aí, sim, podemos afirmar que «Tudo está por fazer». A travessia do niilismo inaugurada pelo «Não há nada a fazer» não é outra coisa senão a radicalização da impotência. Uma radicalização que nos conduz ao que Artaud denominava o im-poder. Para ele, radicalizar a impotência é o mesmo que fazer a experiência do im-poder. A impotência aparece referida na sua correspondência com Rivière como a impossibilidade de pensar. A análise deste «querer pensar mas não poder pensar» constituirá o núcleo de todo o primeiro escrito de Artaud. Rapidamente essa impossibilidade haverá de estender-se ao próprio viver. Quero viver, mas não consigo viver."


Santiago López-Petit, in A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra, Deriva Editores, 2010
Imagem: Federico Moroni, Ciclista.

02 junho 2010

A inescrutabilidade de alguns propósitos

Ele ia todas as semanas a Barcelona por causa de assuntos da empresa e ela imaginava que ele ficava lá para sempre. Barcelona era na sua fantasia um espaço irreal de onde algumas pessoas não conseguiam voltar. O marido, no entanto, voltava e sem ter perdido uma pitada da sua autenticidade. Quase poderíamos dizer que regressava mais autêntico do que quando fora. As terças-feiras, enfim, eram dias felizes até que à noite ouvia deslizar a chave dele na fechadura.
Naquela terça-feira ela teve a premonição de que o avião sofreria um acidente em que pereceriam todos os passageiros.Teve-a antes de sair da cama, com um pé no sono e outro na vigília, e pensou que a ideia lhe sairia da cabeça no duche, ou enquanto estivesse a fazer o café. (...)
Quando ficou sozinha, ligou o rádio e esperou ansiosamente que dessem a notícia. Demoraram um pouco mais de uma hora, mas caíra um avião, com efeito, e era aquele em que seu marido viajava.(...) À hora do almoço ainda não recebera nenhuma chamada, mas não se preocupou por achar que a identificaçãodas vítimas seria muito laboriosa. O importante era que morrera. Venderia a casa, que ficava nos arredores, e iria viver para o centro, para estar perto dos cinemas, dos restaurantes, do bulício. O marido dela nunca gostara de Madrid, e por isso viviam na periferia. Ela detestava a periferia. O seguro de vida era muito alto e duplicava em caso de acidente. Não teria problemas em seguir em frente. (...)
A meio da tarde começou a inquietar-se, mas ligou o rádio e disseram que nem tinham começado as tarefas de identificação.(...)
Às oito e meia, ao ouvir um ruído proveniente da porta, foi até ao corredor e viu o marido entrar com toda a naturalidade. A primeira coisa que pensou foi que era uma aparição. Muitos mortos não se apercebiam que estavam mortos e continuavam a fazer as mesmas coisas que faziam quando estavam vivos. (...)
Deduziu que às terças-feiras não ia a Barcelona, mas sim que se encontrava com alguma amante nalgum sítio muito isolado, pois nem sequer soubera do acidente.
- Não soubeste que o teu avião teve um acidente e que estás morto, meu cabrão?
- O que estás a dizer, mulher?
- Que ainda não te identificaram. Não ouviste a rádio durante todo o dia?
Ele ficou corado de vergonha e durante uns instantes hesitou em fingir que era uma aparição.
- Pois para mim, a partir de agora, estás morto - disse ela, indo para a cama sem ver a televisão.
Desde esse dia ele começou a fazer-se morto e as suas relações, com alguma surpresa, melhoraram inefavelmente. Às terças feiras deixou de fingir que ia a Barcelona e passavam o dia todo juntos, na cama, como se fossem amantes clandestinos.Descobriram a necrofilia os dois ao mesmo tempo e há alguns meses conheceram o prazer de ter filhos póstumos. Agora, por fim, são uma família feliz, normal, das que conhecemos todos os dias e das que nos despedimos todas as noites.
Os caminhos do Senhor são inescrutáveis.

João José Millás, Os Objectos Chamam-nos

19 maio 2010

Um filho e o pai na berma da vida

O meu pai estava na berma da estrada, junto ao carro dele. Estava à espera, com um bidão de plástico na mão, que alguém lhe desse boleia. Eu ia de mota, com um capacete que me tapava a cara.
Detive-me junto dele sem me identificar.
- Ficou sem gasolina? - perguntei
- Sim - respondeu
- Suba.
O meu pai subiu para a mota sem me ter reconhecido. Havia cinco anos que não nos víamos nem nos falávamos. A última vez em que nos déramos um abraço fora no enterro da minha mãe. Depois, sem que tivesse acontecido nada entre nós, fôramos espaçando as chamadas telefónicas até que a comunicação se cortou.
Reparei na forma como baixava a cabeça para se proteger do vento. Sem dúvida reparou na alça do meu sapato direito, pois tinha essa perna mais curta que a esquerda. O meu pai comentara muitas vezes o desgosto que tiveram quando, depois de eu nascer, o médico lhes deu a notícia. Eu nunca vivi isso como um drama, mas sempre me pareceu que eles se sentiam responsáveis por aqueles centímetros a menos, ou a mais, conforme se veja: jamais consegui averiguar qual das duas pernas eles consideravam defeituosa.
Eu guio com muirta agilidade, esgueirando-me por entre os carros com movimentos que de um certo ponto de vista poderiam parecer imprudentes. Reparei que o meu pai, apesar do pudor que lhe causava o contacto com outro homem, se agarrava ao meu ombro com a mão esquerda enquanto tentava colar à sua coxa o bidão de plástico que leveve na direita. Percebi que não deixava de olhar para a alça do meu sapato. Sem dúvida, ter-se-à interrogado sobre a possibilidade de que eu fora o seu filho. Talvez se lembrasse da sucessão de médicos pelos que passara, a cadeia de radiografias, o rosário de soluções, para chegar por fim àquele remédio simples, mecânico, de colocar um pequeno suplemento no sapato da perna mais curta.
Então, exerceu no meu ombro uma pressão que poderia interpretar-se como um sinal de afecto a que eu não respondi.
Pouco depois chegámos à bomba de gasolina, onde desceu da mota com o bidão de plástico na mão. Disse-lhe que não podia levá-lo de volta ao carro e ele respondeu que não me preocupasse, que já encontraria alguém. Reparei que tentava ver a minha cara através da viseira fumada do meu capacete.
Naquela noite o telefone tocou duas vezes em minha casa, mas desligaram quando atendi.

Juan José Millás, Os objectos chamam-nos, Ed.Planeta, 2010

Millás convoca-nos para o quotidiano em que não reparamos por ser tão comum. O retrato de uma realidade que supera, de longe, a ficção,, numa escrita profunda, densa e exemplar na capacidade que tem de criar ambientes e personagens.
Como se diz na apresentação deste livro: "Seja bem-vindo ao mundo de Juan José Millás".

03 maio 2010

"Os livros são objectos transcendentes" *

Foi este o dia - Dia da Liberdade de Imprensa - que o Marcas e outros blogues associados escolheram para  concretizar o desafio de uma blogagem colectiva.  É que o  vídeo revela uma descoberta assombrosa. Em letra de imprensa.


* verso do poema Livros, faixa 2 do Álbum Livro, de Caetano Veloso, 1999.

13 março 2010

Refazer o puzzle

Ana, a mãe, fala-nos de si e da sua batalha contra essa indescritível dor de perder Inês, a filha,antes de completar os 16 anos.
Sem ti, Inês (Ed. Caderno, LeYa, 2010) é uma narrativa profunda, dolorosa e sentida, escrita na primeira pessoa por uma mulher de 46 anos obrigada a viver e a sobreviver ao que todos mais tememos, a perda de um filho.
Um diário da mãe que diz que foi em luta e agora se sente em luto. Um diário onde Ana procura encontrar sentido para os dias seguintes na poesia, nas canções e nas viagens. Uma intensa e dolorosa reflexão sobre o que fazer da memória, onde encaixar esta perda absoluta no futuro dos que a ela sobrevivem.

Quando entrávamos numa loja de roupa entretinha-me
a adivinhar as peças que escolherias. O tempo
encarregava-se de me confirmar a minha pontaria certeira.
Sabes uma coisa, Inês? Não consigo abandonar esse velho hábito…
Em cada nova colecção continuo a antecipar
as tuas escolhas, e embora não as confirmes, tenho a certeza
de que continuam certeiras…
Sempre contrariaste a lógica uniformizadora dos adolescentes.
Lembro-me como ficavas irritada quando as tuas amigas teimosamente
te imitavam a forma de vestir. Gostavas de ser diferente
e procuravas lojas que satisfizessem essa necessidade de exclusividade.
Havia entre nós uma cumplicidade estética
(sensatamente contrariada pela diferença de idades) que não me deixava dispensar
os teus conselhos. Lembro-me de ti, ainda com 10/11 anos,
sentada no meu quarto enquanto eu desfilava as várias opções
até tomares a decisão final. Foi essa cumplicidade que alimentou a paixão
que ambas sentimos por “aqueles” sapatos verdes. Em conjunto,
tentamos encontrar pretextos (patetas) para os comprar,
que contrariassem os argumentos (lógicos) para o não fazer.
Ambas sabíamos que os saltos eram excessivamente altos para a tua pouca idade,
e o design demasiado ousado para a minha.
Quem me dera que a sensatez não tivesse levado a melhor…
Quem me dera que tivéssemos comprado “aqueles” sapatos verdes,
marca da nossa cumplicidade que já não podemos alimentar…
Quem me dera ter no meu quarto (ou no teu) “aqueles” sapatos verdes,
apenas como objecto de pura fruição estética… (quem disse que os sapatos são para usar?)

Foto: C.

06 março 2010

Yo Leo en el Bar


Amo desparramarme en la mesa de un bar, bien típico de Buenos Aires, y quedarme leyendo horas junto a un café con leche. Esto sólo se puede hacer en algunos bares, los de mesa de fórmica, mozos de más de 40, dueño generalmente gallego, AM de fondo -a veces muy fuerte-. Allí donde pasan con dos jarras metálicas, en una leche, en otra café, y te lo sirven frente a tus ojos. (Recomiendo la esquina de Azcuenaga y Paraguay, el bar del gallego. Pedir un café con leche con un CAMPERO, si les preguntan… Sí! con huevo, completo)
Me dejé llevar, perdón. El Gobierno de la Ciudad lanzó el programa “Yo leo en el bar” una propuesta que incluye la instalación, en 15 bares, de bibliotecas con la obra completa del Jorge Luis Borges.
Algunos de los libros que se podrán leer son: El Aleph, Atlas, El libro de arena, El libro de los seres imaginarios, Fervor de Buenos Aires, Los mejores cuentos policiales y las Obras Completas I, II, III y IV, donados por la editorial Planeta.
Los 15 bares son:
TORTONI, Av. De Mayo 825, 4342-4328
EL GATO NEGRO, Av. Corrientes 1669, 4371-6942
EL PROGRESO, Av. Montes de Oca 1700, 4301-0671
MAR AZUL, Tucumán 1700, 4374-0307
CONFITERIA SAINT MORITZ, Esmeralda 894, 4311-7311
MARGOT, Boedo 857, 4957-0001
36 BILLARES, Av. De Mayo 1048, 4381-5696
BAR HOTEL CASTELAR, Av. de Mayo, 1152, 4383-5001/9
BARoBAR, Tres Sargentos 415, 4311-6856
LA GIRALDA, Av. Corrientes 1453, 4371-3846
LOS LAURELES, Av. Iriarte 2290, 4303-3393
LA POESÍA Chile 502, 4300-7340
IBERIA Av. de Mayo 1196, 4381 6300
EL FEDERAL, Carlos Calvo 395 / 99, 4300 4313
EL QUERANDI, Perú 302, 4345-1770
Texto "roubado" AQUI
Buenos Aires continua a exercer o seu fascínio. O Ministério da Cultura lança na cidade o projecto Yo Leo en el Bar, que consiste na instalação de Bibliotecas com obras de Jorge Luis Borges em cafés e bares da cidade. A proposta foi anunciada ontem e tem a adesão da maioria dos cafés com tradição nas tertúlias culturais da cidade.
É seguramente uma das melhores homenagens que poderia ser feita ao escritor, à leitura e ao livro.
E mais uma (boa) razão para ir ou voltar a Buenos Aires: são tantos os cafés para visitar.
Ler também AQUI e AQUI

23 janeiro 2010

O amor, o fascíno e os enganos


Estava como que entorpecido pelo fascínio do incompreensível. Ela levantou-se diante dele, alta e indistinta, como um fantasma negro no crepúsculo vermelho. Por fim, com uma aguda incerteza face ao que iria acontecer caso abrisse a boca, ele murmurou:
- Mas se o meu amor for suficientemente forte – hesitou.
Ele ouviu algo estalar ruidosamente na inflamada quietude. Ela tinha partido o leque. Caíram duas finas peças de marfim, uma após outra, sem qualquer ruído, sobre o tapete grosso, e, instintivamente, ele dobrou-se para as apanhar. Enquanto tacteava aos pés dela, lembrou-se de que aquela mulher tinha nas mãos uma dádiva fundamental, que não podia vir de mais nada neste mundo; e quando se levantou, estava invadido de uma crença avassaladora num enigma, pela convicção de que o autêntico segredo da existência, a certeza imaterial e preciosa estava ao seu alcance e a escapar-lhe! Ela dirigiu-se para a porta e ele foi atrás dela, procurando uma palavra mágica que desvendasse o enigma, que a levasse a conceder-lhe a dádiva. E essa palavra não existia! O enigma só pode ser revelado através do sacrifício, e a dádiva do paraíso está nas mãos de qualquer homem. Mas eles tinham vivido num mundo que odiava enigmas, e apenas se interessa pelas dádivas que podem ser compradas em lojas.
Ela estava a aproximar-se da porta. Ele disse, apressadamente:
- Palavra de honra que te amava, ainda te amo.
Ela parou por um momento, quase imperceptível para lhe dirigir um olhar indignado, e depois seguiu. Aquela penetração feminina tão inteligente e maculada pelo eterno instinto de auto preservação, tão pronta a reconhecer uma vilania evidente em tudo aquilo que não é capaz de compreender, inundou-a de amargo ressentimento contra ambos os homens que nada podiam oferecer ao conflito espiritual e trágico dos seus sentimentos, a não ser a rudeza do seu materialismo abominável. A raiva que sentia pela forma ineficaz como se enganava a si própria chegava para os odiar aos dois. O que queriam eles? O que queria mais este? E, quando o marido voltou a olhar para ela, com a mão na maçaneta, perguntou a si própria se ele era irremediavelmente estúpido ou simplesmente desprezível.
Nervosa, afirmou rapidamente:
- Estás a enganar-te a ti próprio. Nunca me amaste. Querias uma esposa, uma mulher, qualquer mulher que pensasse, falasse e se comportasse de uma determinada forma que tu aprovasses. Amavas-te a ti próprio.
- Não acreditas em mim? – perguntou ele, devagar.
- Se eu tivesse acreditado que me amavas – começou ela, com fervor, inspirando profundamente; pausa em que ele conseguia ouvir o batimento do sangue nos ouvidos. – Se eu tivesse acreditado. Nunca teria regressado – terminou com ousadia.
Joseph Conrad, in O Regresso, Editora Quadra, 2009

O conto O Regresso (1898), de J.Conrad (1857-1924), narra de forma magistral e intensa algumas horas da vida de um casal. Durante essas (poucas) horas, a vida dos dois é irremediavelmente marcada pela discussão, motivada por uma carta de despedida da mulher e o seu posterior regresso a casa. A escrita revela-se duma invulgar intensidade, conseguindo Conrad (em finais do século XIX) levar o leitor a sentir, ouvir e ver com uma agudíssima precisão toda a trama narrativa.
O seu ritmo levou, naturalmente, ao interesse em transpô-lo para o cinema. Deu origem ao filme Gabrielle (2005), de P.Chéreau, com Isabelle Huppert.

02 dezembro 2009

Deana Barroqueiro


Deana Barroqueiro retira do Velho Testamento todo o trajecto feminino, de mulheres que aprenderam a ser fortes na sua aparente fraqueza, narra as brutalidades a que eram submetidas, num mundo de crueza masculino, aprendendo com a malícia e sensualidade que a autora descreve com elegância e mestria.
São dois Livros: "Contos Eróticos Do Velho Testamento" e "Novos Contos Eróticos Do Velho Testamento (livros Horizonte).

Conheci Deana na apresentação do seu último livro " O Espião De D. João II", uma lição vivíssima e cheia de conhecimento, sobretudo da Época das Descobertas. Irreverente, bem humorada, tem-nos surpreendido com os seus já muitos livros sobre a nossa História.
Começou por ser professora,dinâmica e criativa, e , durante muitos anos levou os alunos a conhecer empenhadamente as épocas e as figuras mais marcantes.
Deana Barroqueiro nasceu em 1945, em New Haven Connecticut, Estados Unidos. Veio para Portugal em criança e viveu sempre em Lisboa. 

18 novembro 2009

O Violoncelo De Sarajevo


Autor:Steven Galloway
Editorial Presença
Foto:MikhailEvstavief

O Cerco de Sarajevo foi o mais longo na história da guerra moderna, estendendo-se de 5 de abril de 1992 até 29 de fevereiro de 1996. Cerca de 10 mil pessoas foram mortas e outras 56 mil ficaram feridas, segundo as Nações Unidas. No dia 27 de maio de 1992, às quatro horas da tarde, uma série de morteiros atingiu um grupo que esperava para comprar pão atrás de um mercado em Vase Miskina, deixando 22 pessoas mortas e pelo menos 70 feridas. Diante disso, Verdran Smailovié, um renomado violoncelista local, resolveu tocar, pelos próximos 22 dias, sempre às quatro da tarde, o Adágio em sol menor de Albinoni, no exacto local onde tudo ocorrera, em homenagem aos mortos. Foi esta tragédia real e seu conseqüente acto de reverência, compaixão e coragem que foram transpostos ao livro e serviram de inspiração para o autor construir o personagem do violoncelista.

14 novembro 2009

Os livros são objectos transcendentes

Tenham um óptimo sábado, ao som desta chuvinha intermitente que convida ao sofá e à preguiça. E, já que temos falado em livros, tomem um por companhia. É que as notícias dos semanários não devem trazer novidade alguma... E os livros sempre são "modos de fazer mundos", como dizia o Goodman.


(...)
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
(...)

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas .
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um
(...)

Vale a pena ler aqui uma concisa mas enriquecedora abordagem ao álbum "Livro", de 1998.

11 novembro 2009

Os loucos...e os outros



«No primeiro capítulo (...) chego a uma definição de loucura que diverge da preconizada pela Psicologia e Psiquiatria oficiais. A perspectiva destas últimas limita-se a apreciar o comportamento humano apenas com base no respectivo relacionamento com a realidade, o que, obviamente, tem a sua razão de ser. Só que impede, assim, a aproximação a uma patologia menos evidente e mais perigosa, de cujo método próprio a dissimulação faz parte: a loucura que se encobre a si própria e se mascara de saúde mental. Essa não tem dificuldade em ocultar-se num mundo em que o engano e o ardil são comportamentos adequados à realidade.
Ao mesmo tempo que os que já não aguentam a perda dos valores humanos no mundo real são considerados "loucos", atesta-se a normalidade àqueles que se separaram das suas raízes humanas. E é a esses que confiamos o poder, permitindo que decidam sobre as nossas vidas e o nosso futuro. Pensamos que eles têm a atitude certa perante a realidade e sabem lidar com ela; mas o "relacionamento com a realidade" de uma pessoa não é o único critério para determinar a sua doença ou saúde mental.»

Arno Gruen, in A Loucura da Normalidade, Assírio & Alvim, 1995

04 novembro 2009

caminhando sozinha pela berma da estrada


Fui ao quarto fazer-lhe umas festas na cabeça, mas ela nem se mexeu. "Não tinhas aulas, hoje? Não queres tomar o pequeno almoço? Queres que te vá buscar o comprimido?" A minha mulher está com umas olheiras roxas, já nem consegue chorar, fica de olhos abertos a seco toda a noite. "Fizeste o exercício que te ensinei?" Os dardos ainda estão em cima da mesinha-de-cabeceira e a fotografia pregada na parede. Devagar virou-se para mim, pegou-me na mão, pediu numa vozinha sumida: "Não me obrigues a ir à escola, tiozinho, eu não aguento mais ir à escola!" Quando é que acaba o atestado, desta vez?" Já tinha acabado há uma semana. "Não queres atirar uns dardos, que te sentes logo melhor?" Ela gemeu. "Não consigo pôr-me agora a atirar dardos à fotografia do 8ºC! Como é que vou ter cara para os enfrentar?" "Eles não sabem que tu atiras dardos à fotografia". "Nem podem saber!" disse ela. "É completamente antipedagógico." O "antipedagógico" já foi dito num guincho, porque a pedagogia é uma coisa que inquieta a minha mulher. Abracei-a e dei-lhe o comprimido. "Não consigo enfrentar as aulas da tarde" disse ela. E voltou a deitar-se. "Nem sequer estou afónica!" (...) Tapou-se e ficou a olhar para a janela. Era um molusco, a minha mulher, uma esquiva trouxa mole, escorregadia, que se ia embora sozinha, com apenas um par de meias lavadas, numa jornada impossível. Era isso que eu via, quando chegava a casa e a encontrava deitada e tapada até às orelhas: uma trouxa de roupa espetada num pau caminhando sozinha pela berma da estrada, peregrina. Era uma maldita viagem interior à escuridão dela, onde não podia acompanhá-la. Naquele momento senti-me tão abandonado que fiquei capaz de lhe bater. Fui eu mesmo que atirei um dardo à fotografia da turma-problema. Cheguei-me à parede e vi que a minha mulher tinha escrito em letras muito pequeninas nas testas dos miúdos: "amar o próximo como a nós mesmos e outros legítimos superiores". Era amor não correspondido o que ela sentia pelo 8ºC.
Luisa Costa Gomes, in Ilusão (Ou o Que Quiserem), D.Quixote,2009
Fotografia G. Crewdson


Ilusão ( Ou o Que Quiserem), o romance de Luisa Costa Gomes, é a esplêndida narrativa de uma viagem de busca de projectos e de procura de sentido para a vida; de uma separação e de uma paixão. Afinal, um relato do quotidiano. Uma leitura necessária.

29 outubro 2009

os medos, a dor e os outros

"...Os nossos antepassados, habituados a sentir medo dos ursos e das cascavéis, demoraram tanto ou mais tempo do que o que levou a invenção da matemática a perceber que a felicidade ou a infelicidade também podiam brotar das suas entranhas e não apenas do universo que os rodeava. À força de experimentarem sensações parecidas mas desencadeadas por estímulos diferentes, como um leão ou uma aranha, acabaram por reparar nas semelhanças e deduzir que sentiam o mesmo. No preciso momento em que um deles deu conta que a repentina aceleração do ritmo cardíaco era disparado por acontecimentos tão diferentes como a vertigem ao deparar com um precipício, a falta de respiração ao mergulhar uma e outra vez, exausto, para alcançar a outra margem do rio, ou as ameaças por um grupo de canibais pintados de vermelho; no preciso momento em que a diversidade mostra o seu denominador comum e, mediante um processo de abstracção,descobre-se o conceito que a define, nasce, sem querer, no interior do homem primitivo a consciência da emoção do pânico.
O que aqui foi resumido em poucas linhas demorou milhares de anos a acontecer.(...)
Se bem que as comparações sejam sempre odiosas, em termos emocionais estamos na fase equivalente ao número 2 na evolução da matemática; isto é, na pré - história. Continuamos a pensar que a felicidade ou infelicidade são induzidas pelas emoções desencadeadas pelos outros, por medos provocados pelo trabalho, pela segurança dada por uns bons estudos ou pelo dinheiro. Continuamos a acreditar que tanto a fonte da felicidade como a da desgraça depende de outros ou do resto da matilha. "

Eduardo Punset, in Viagem à Felicidade, D. Quixote, 2008
Foto: Gregory Crewdson