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19 março 2011

Berceuse

 


Canção de embalar é talvez
demasiado melódico e além disso
um desuso. Já ninguém canta a adormecer
os filhos. Coisa imprópria para o crescimento
de criaturas autónomas
e hiper-activas que devem fugir
ao sedentarismo e à obesidade.
O Canal Panda faz isso muito melhor
ou qualquer brinquedo mecânico e perfeito.

Também já ninguém canta
nos lavadouros públicos ou nos campos. Os
únicos campos onde se cantam as brumas
da memória são os estádios. Os
pedreiros deixaram de cantar à pedra:

Hou! pedra, hou!
Hou! linda pedra, hou!

e as canções de trabalho (uma espécie
de berceuses da fadiga) passaram
a matéria etnográfica. Por isso os
estudantes de português já não entendem
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura ou
Sete anos de pastor Jacob servira.

Mesmo o Schöne Müllerin do Schubert que
se ouve ainda nos concertos clássicos
com vaga subserviência patega
(porque em alemão, não se percebe nada),
só os amantes do lied reconhecem.

E se percebessem?
A moleira já não seria schön
e não teria 80 anos, bem bonito rol
como a de Junqueiro,
pela estrada fora, toc, toc, toc, mas agora reclusa
numa casa geriátrica, em contagem crescente
da inacção.

Muito pouco,
tão pouco, para um mundo
embalado na pesquisa espacial
de água em Marte.


Inês Lourenço, Coisas que nunca, & etc, 2010
Imagem: Pipas, tela de Cândido Portinari

11 janeiro 2010

Desafio

Desafio aos amigos deste blogue:
A partir desta pintura tão expressiva de Luis Darocha, escreva uma frase que seja uma espécie de legenda.
Esperamos pelos amigos todos.

03 outubro 2009

Uma casa com histórias e mulheres dentro




Aproximamo-nos da "casa" atravessando um jardim verde e arborizado, de uma simplicidade quase infantil, como a dos desenhos que ilustravam as histórias tradicionais. Depois o edifício, as cores,  numa harmoniosa arquitectura tangente a esse imaginário.
Ainda que se tenha visto vezes sem conta, é sempre impressionante o poder interpelador dos quadros, dos desenhos, da obra de Paula Rego. A sedução da cor vai dando lugar à perplexidade, pela força com que as imagens provocatoriamente recusam os estereótipos, num love affair with tradition, como diz Germaine Greer, uma das analistas do trabalho da pintora.
Na Casa das Histórias há "histórias visuais" com mulheres dentro - anjos-demónios, grotescas, insurrectas, desamparadas, mulheres-bichos, sublimes - e toda a ironia que desconstrói a imagem do feminino segundo  um processo de parodização profundamente ideológico.
Em entrevista a Melanie Roberts, por altura de uma exposição colectiva que reuniu oito pintoras inglesas em torno do tema "From the Interior. Female Perspectives on Figuration", disse a artista:
As minhas pinturas são pinturas feitas por uma artista mulher. As histórias que eu conto são histórias que as mulheres contam. O que é isso de uma arte sem género? Uma arte neutra? Isso não faz sentido, pois não? (...) Há histórias à espera de serem contadas, e que nunca o foram antes. Têm a ver com tudo aquilo sobre o que jamais se ousou tocar - a experiência das mulheres.

Confesso que sei pouco sobre o "olhar masculino" em torno de quadros como, por exemplo, o Mulher-Cão, mas aquando da minha visita, pude perceber alguns comentários, feitos por homens, de franca repulsa. Que terão eles visto, no quadro, de tão desagradável? Verão o mesmo que as mulheres que dizem, também, que "é horrível"?
Relembro aqui as palavras da pintora, citadas pela Professora Ana Gabriela Macedo, no JL de 19 de Maio de 1999, sobre essa figuração da mulher:
A "Mulher-Cão é a coisa que eu tenho mais orgulho de ter feito, porque é uma mulher sozinha, mas que ainda morde. Uma mulher só, num canto, contra a parede, que não pode fugir, mas que arreganha o dente e que morde! Morde até ao fim, luta até ao fim, apanha pancada, mas lá vai lutando sempre! E depois, essa "Mulher-Cão" apareceu, "apareceu-me"! Essas coisas acontecem, não é? E então eu pensei, esta mulher vai levar-me a sítios onde eu nunca fui, vai ser o meu guia. E assim foi. E comecei através da "Mulher-Cão" a tocar partes da minha vida que eu não tinha tido nunca coragem, nem oportunidade de fazer, nem sabia como lá chegar. Mas com ela, lá fui fazendo: o "Bad Dog", a humilhação, o amor, a lealdade e a submissão cúmplice das mulheres, um certo masoquismo das mulheres, no amor e na traição … O casamento é uma espécie de mortalha, não é? É a "mulher-bicho" que tem força através da sua animalidade, é a parte física, dos instintos, que é muito importante! O silêncio tácito das mulheres, a sua "endurance" e o seu sentido de honra.

Toda a força pode criar medo.