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27 maio 2009

Persona

Persona (1966) é um dos melhores filmes de todos os tempos, talvez a obra-prima de Bergman. Considerado uma das obras mais belas da história do cinema, seja pelos elementos literários muito intensamente presentes, seja pela emoção que o desempenho das actrizes provoca.
O filme conta a história de Alma (Bibi Andersson) a enfermeira incumbida da recuperação psíquica de Elisabet (Liv Ullmann), uma actriz que perdeu a voz durante a exibição do espectáculo Electra.
Afinal, o seu mutismo foi uma decisão, não fruto de qualquer doença.
Tudo gira em torno do ser e do parecer. O anseio de Elisabet é deixar de parecer e passar a ser. Para isso, encontra como solução o silêncio. Uma vez instalado o silêncio, não haverá mais falas nem gestos falsos que levam à construção da aparência e escondem a realidade.
Sobre este tema Clarice Lispector criou um tocante texto ("Persona") onde, "não querendo falar de Bergman", retoma o tema, desenvolve-o e produz uma extraordinária peça literária.
Aqui, num clip, com uma apresentação maravilhosa.

28 fevereiro 2009

Descoberta

(Soutine)
...como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade iria ser sempre clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Clarice Lispector, Felicidade Clandestina
in Contos, Relógio d'Água 2006
A narrativa, carregada de intensidade, da descobeta do corpo e do amor, feita por uma mulher de sensibilidade invulgar. É assim que Clarice Lispector deve ser lida, com "o peito quente e o coração pensativo".