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20 novembro 2009

O Meu País


O que fizeram ao meu país?
A sério. Sinto-me perdida.
Gostava de ser militar de Abril.
A sério, apetecia-me fazer uma revolução.
Uma revolução pacífica, como a outra, com cravos , ou com rosas, sei lá, com malmequeres, com crisântemos.
Mas uma revolução, por favor, que nos devolva a esperança.
Vamos fazer uma revolução?
A sério, eu preciso mesmo.

25 junho 2009

Há 34 anos em Moçambique

Há aqueles que nascem com defeito. Eu nasci por defeito.
Explico: no meu parto não me extraíram todo, por inteiro. Parte de mim ficou lá, grudada nas entranhas de minha mãe. Tanto isso aconteceu que ela não me alcançava ver: olhava e não me enxergava. Essa parte de mim que estava nela me roubava de sua visão. Ela não se conformava:
- Sou cega de si, mas hei-de encontrar modos de lhe ver!
A vida é assim: peixe vivo, mas só vive no correr da água.
Quem quer prender esse peixe tem que o matar. Só assim o possui em mão.
Falo de tempo, falo de água. Os filhos se parecem com água andante, o irrecuperável curso do tempo. Um rio tem data de nascimento?
Mia Couto, O último voo do flamingo