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09 agosto 2012

Férias, tempo de viagens




....Baudelaire venerava os devaneios de viagem como um emblema de nobreza dos espíritos inquietos, que descrevia como "poetas" jamais satisfeitos com os horizontes familiares por mais que pudessem apreciar os limites de outras terras, e cujo humor oscilava entre a esperança e o desespero...
...Por vezes [Baudelaire] sonhava ir a Lisboa. Aí faria mais calor e ele, estendido ao sol como um lagarto, ganharia novo vigor. Era uma cidade de de água, mármore e luz, propícia ao pensamento e à serenidade....

Alain de Botton, A Arte de Viajar, Ed. D. Quixote,2010
Foto: C.

01 outubro 2009

Postais de Viagem

*

Há uma praça luminosa no centro de S. Francisco, a Union Square. Pouca gente sabe a razão do nome, embora este tenha um valor simbólico para os Estados Unidos. Foi aqui se realizaram importantes comícios políticos que trouxeram apoio popular à causa do Norte, progressista, durante a Guerra Civil Americana (1861-65).Na sequência desse apoio, a Califónia juntou-se à União no combate contra as forças da Sessão.
Nessa época enfrentaram-se duas forças antagónicas: o Norte, industrializado, defensor do desenvolvimento económico e de valores que implicavam o fim da escravatura e o Sul, composto por 11 Estados, partidários do liberalismo económico e da escravatura, que declararam a secessão da União, não aceitando a eleição de Lincoln.
....
Hoje viveu-se um magnífico dia de Verão na Union Square. As esplanadas estiveram apinhadas de gente que saboreou o sol até a noite chegar, enquanto uma banda country nos deliciou com as baladas dos anos 60, distanciando-nos, por horas, de um sítio onde há um presidente com medo, um computador vigiado e não sei o quê dos mails.


* Scott McKenzie, If You Go to S. Francisco (1967)

07 setembro 2009

Viajando pelas mulheres

....Por isso, ao longo da região (Beira Litoral), as mulheres impõem saborosas diferenças. Não evidenciam um tipo tão definido como as de outras terras mas, apesar de viverem numa região tão desfigurada, entregue à pior construção civil e à confusão urbanística, percebem-se sensuais por todo o lado e a corrupção do ambiente parece fortalecer-lhes a arte. Guardo as melhores recordações das mulheres da Bairrada em cima das suas bicicletas pela Anadia, Cantanhede, Mogofores, OLiveira do Bairro, Mamarrosa. Relembro os fornos de cal e as fábricas de cerâmica à beira dessas estradas percorridas por mulheres pedalando lenta e sensualmente, cruzando-se, na Primavera, com os peregrinos pedestres que demandavam Fátima. E em Vagos e na Pateira de Fermentelos, mulheres tão fortes como o húmus que exala da terra úbere que pisam, dirigindo carros de bois carregados de moliço e estrume para as vessadas. E outras a mungir as vacas com os rostos afogueados. E lembro-me de ver as mulheres cansadas da xávega da Tocha e em Vagos, depois de escolherem o peixe, sentadas,na praia à tardinha, enquanto as nebelinas cada vez mais espessas iam envolvendo os bois e as pessoas, juntando o mar e os verdes prados. E as raparigas na Festa das Colheitas, em Arouca, a comparar os tamanhos dos nabos e das batatas e dos calondros? E as da Murtosa, de perna maciça e curtida pelo sol e pela salmoura? Para aumentar as diferenças, juntar-lhes-ia tricanas e lavadeiras de Ovar e de Coimbra e as jovens senhoras coimbrãs a olhar para as ruas por detrás das sedutoras janelas das suas vivendas. Todas estas mulheres são herdeiras dos mais refinados segredos das mais refinadas goluseimas conventuais e habilidosas no desfiar dos dulcíssimos ovos moles. Desde as castanhas doces de Arouca aos pastéis de Tentúgal. Reconheço, no entanto, a dificuldade em definir a mulher beirã do Atlântico. Com manifesta coragem, resolvi perguntar a algumas delas como se achavam a si próprias. A resposta vem de Leiria - da Laura, da Paula e da Isabel, e resulta da demorada reflexão com investigação sob competência psicológica e tudo. Como são as mulheres da Beira Litoral? Reproduzo ipsis verbis a sua resposta: "Muito sensuais. Bastante comunicativas, metediças na vida alheia. Faladoras: chegam a ser agressivas na fala. São espalha-brasas e abertas. Gostam de ostentar a riqueza dos atributos físicos e dos materiais. São muito invejosas das vizinhas. São declaradamente matriarcais. Mas paradoxalmente, e segundo pensamos, são submissas, com medo de arranjar um amante e têm medo que o homem lhes bata se gastam muito dinheiro. São limpas e asseadas elas, principalmente nas suas casas. Descuidam muito os filhos embora lhes comprem coisas muito caras, mas para se afirmarem pessoalmente. De resto são supersticiosas, tradicionalistas e religiosas. Lembramos Fátima, a Santa da Ladeira, etc. Quer dizer, são visionárias".
Só lamento que as estradas sejam tão velozes nesta província. Sugerem-se uns dias parados na Curia ou no Luso e ver o deslizar das lentas bicicletas ao entardecer. Regressam a casa deixando um rasto de luxuriosa santidade. Cresce então a lua insubmissa sobre os viçosos vales do litoral."

Manuel Hermínio Monteiro, Revista K,nº19, Abril 1992
Fotografia Rodrigo Budag

Um belíssmo texto carregado de luz, cheiros e poesia, numa viagem com um intenso e original roteiro.

20 julho 2009

20 de Julho de 1969



*

Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.
Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão ao vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.
Numa cama de rede, penduradada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.
Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam,
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.
Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.
Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.
Mais um passo.
Mais outro.
Num sobre-humano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira
da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.

António Gedeão, Novos Poemas Póstumos, Ed. Sá da Costa, 1990.
* Sting & The Police - Walking on The Moon

19 março 2009

Vasa


Vasa Museum

Era uma vez um rei. Chamava-se Gustavo Adolfo (1594-1632) e reinava num pequeno e pobre país do Norte da Europa. A Suécia, era o País, e, durante o século XVII, sob sua influência, passou de "pequeno país "a grande potência regional no Báltico.

A Guerra dos 30 anos (1618-1648) começou por ser um conflito religioso (localizado à Alemanha) entre a Igreja Católica e o movimento da Reforma. Entretanto surgem conflitos "laterais", um dos quais a guerra entre a Polónia e a Suécia (1626-1629) e é no decurso desta que se dá um episódio com expressão na actualidade.

O rei Gustavo Adolfo encarrega o seu maior estaleiro de construir o melhor barco de guerra alguma vez ali feito: longo, estreito e rápido como nenhum. Capaz de transportar 300 soldados. Por imposição do rei, a meio da construção, houve indicação para duplicar o poder de fogo, passando a 64 canhões. No dia 12 de Agosto de 1628 a população de Estocolmo e os embaixadores estrangeiros assistiam, nas praias, à viagem inaugural do Vasa.

Após sair do Porto o navio fez uma saudação com uma salva de tiros de canhão. Alguns segundos depois, o barco começou a inclinar-se para um dos lados sob a força do vento e, rapidamente, a água entrou no interior através da janelas dos canhões. O afundamento deu-se em poucos minutos, ficando o navio enterrado no lodo a mais de 30 metros de profundidade.
Em 1957 iniciaram-se os trabalhos de escavação submarina para trazer o Vasa à superfície. O trabalho ficou concluído em 1961 e o resultado está hoje patente num dos mais fascinantes museus do mundo.
O barco está agora reconstruído com todo o detalhe após um laborioso trabalho de pesquisa e reconstrução.
A história regista também que o rei ordenou um "rigoroso inquérito" às causas da tragédia. Concluiu-se que o excesso de peso decorrente da imposição (real) para colocação de mais armas fora determinante mas, quanto a apontar responsáveis, o inquérito foi "inconclusivo"...

21 fevereiro 2009

AVEIRO


Não é uma Catedral, não é muito grande,mas tem a calma de uma deusa espraiada...

18 fevereiro 2009

SE FOR A PRAGA

Se for a Praga, segundo Joaquim Coelho Ramos, do Instituto Camões, nessa cidade:

Os verdadeiros  tesouros de Praga não estão nos roteiros habituais. A apenas duas ruas do Caminho Real, encontra-se Mozart e o período barroco e frequenta "hospodas"onde se põe uma cerveja à frente do cliente antes de perguntar o que deseja. Em alternativa , vai aos bares de jazz, ou aos restaurantes típicos de Namesti Miru, a Praça da Paz. Quando recebe amigos, não os acompanha nas visitas ao Castelo e à Catedral. Prefere levá-los a assistir a um concerto de música clássica na Igreja dos Espelhos.
O café Slavia é onde os intelectuais, como o ex-presidente Vaclav Havel costumam reunir-se. Tem uma bela vista para o castelo e para o rio, e é um óptimo sítio para tomar o pequeno almoço.

E agora digo eu: não perca o Hotel Paris, o melhor exemplo de arte-nova, a Casa da Cultura , o bairro  judeu. Dê uma saltada ao Cerneho Vola, uma taberna local e vá ao All That Jazz, perto da Praça Principal.

Se lhe crescer tempo, vá aos lugares turísticos e ao teatro, à ponte Carlos, Castelo, enfim...